“Quem defende direitos humanos defende também o direito à moradia, à saúde, à educação”, diz presidente da CDH da OAB/Londrina

Advogada Paula Vicente diz que comissão busca desmistificar atuação dos ativistas, construída pela mídia e solidificada na sociedade como “defensores de bandidos”

Cecília França
Lume Rede de Jornalistas

No último dia de abril a Comissão de Direitos Humanos (CDH) da Ordem dos Advogados do Brasil/Subseção Londrina (OAB/Londrina) promoveu uma reunião aberta sobre as tragédias de Mariana e Brumadinho. Dois profissionais de fora da entidade foram convidados a explicar para os participantes a real dimensão humana e ambiental das tragédias.

Parece um tema alheio aos direitos humanos? Mas não é, em absoluto. A reunião faz parte de uma iniciativa da CDH de desmistificar a atuação dos ativistas, reduzida à defesa de pessoas em privação de liberdade. Ao menos a cada dois meses a comissão pretende realizar eventos do tipo, sobre temas afins.

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‘Fake News’: pesquisadoras apontam formas de combater processo de desinformação

Em evento do Pint Of Science, doutoras da Universidade Estadual de Londrina falam sobre notícias falsas e suas consequências sociais

Cecília França
Lume Rede de Jornalistas

Quem atua no jornalismo ou no direito certamente conhece o Caso Escola Base, ocorrido na década de 1990, em São Paulo. Denúncias de abuso sexual praticados contra crianças de quatro anos nesta escola infantil foram amplamente divulgadas pela imprensa, sem qualquer prova, inflamando a opinião pública. Na época, notícias falsas sobre o suposto crime estampavam capas de jornais diariamente e destruíram a vida de ao menos seis acusados.

Este grande exemplo de fake news da era analógica poderia ter causado estrago ainda maior na era digital em que vivemos. Se antes o receptor da informação era passivo – ou seja, apenas recebia conteúdo dos meios de comunicação tradicionais, como televisão e rádio – com a internet ele se torna ativo e passa a replicar aquilo que lhe interessa. O problema é que nem sempre a razão determina estas escolhas, e sim, a emoção, que tende a prevalecer sobre a lógica.

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Arcebispo de Londrina critica revisionismo da ditadura

Dom Geremias Steinmetz lembra do sofrimento dos religiosos durante o golpe de 64 e defende os direitos humanos

Nelson Bortolin
Lume Rede de Jornalistas

A ditadura militar foi um período de desrespeito aos direitos humanos, no qual religiosos foram perseguidos, torturados e mortos. Por isso, não há nenhum revisionismo a ser feito em relação a ela. Esse é o pensamento do arcebispo de Londrina, Dom Geremias Steinmetz.

Na semana em que o presidente da República conclamou os militares a comemorem o golpe de 1964, Dom Geremias conversou com a Lume Rede de Jornalistas, sexta-feira (29), na Mitra Diocesana. “Houve pessoas que desapareceram, houve pessoas que foram mortas, perseguidas. E o pior de tudo, foram perseguidas pelo governo. Existe coisa pior do que alguém ser perseguido na própria terra por questão de pensamento político?”, questiona.

O arcebispo lembrou que a Igreja também foi vítima dos militares. “Muitos bispos sofreram, padres desapareceram. Alguns foram mortos na prisão.”

A instituição foi considerada grande inimiga do regime. A CIA (Agência de Inteligência dos Estados Unidos) acompanhou a tensa relação entre os militares e o clero. Bispos como Dom Helder Câmara e os cardeais Dom Paulo Evaristo Arns e Dom Aloisio Lorscheider denunciaram torturas e violações aos direitos humanos pelo mundo afora. “Não há porque a Igreja revisar seu posicionamento com relação à ditadura”, ressalta o arcebispo de Londrina.

Dom Geremias diz que o compromisso da Igreja com os direitos humanos não é de agora. “A questão dos direitos humanos decorre da própria dignidade humana. Foi por forte influência da doutrina social da Igreja que foi assinado o grande entendimento em 1948, logo depois da guerra (II Guerra Mundial)”, diz ele, em referência à Declaração dos Direitos Humanos da Organização das Nações Unidas (ONU) .

Para o arcebispo, a defesa dos direitos humanos vem do Evangelho de Jesus Cristo. “Para que todas as pessoas possam ter vida e vida em plenitude, a Igreja trabalha nessa questão dos direitos humanos há muita décadas.”

A Campanha da Fraternidade, diz o líder católico, trata este ano de políticas públicas que visam a dignidade dos seres humanos. “Veja o estrago que faz na vida de uma pessoa não ter o direito à educação e à saúde respeitados, ou não ter seu direito à moradia, ou o direito a ter um pai e uma mãe.”

A reportagem perguntou ao arcebispo por que, na opinião dele, parte da sociedade critica os militantes dos direitos humanos como se eles defendessem apenas os bandidos. Ele respondeu: “Eu acho que é uma ignorância. Não sei se uma ignorância mais arrogante ou uma arrogância mais ignorante. Porque todas as pessoas têm que ter direito, está na Constituição.”

Para o arcebispo, o Brasil vive um momento em que o “pensamento político é questionado”. “É um pensamento que tira direito dos indígenas, que tira direito de quilombolas e dos agricultores da agricultura familiar”. “Então é bem fácil entender que tem gente lutando contra os direitos humanos, dizendo que é coisa de comunista.”

Dom Geremias considera que os direitos humanos deveriam ser bandeira de todos os partidos e governos para que todas as pessoas tenham “vida em plenitude”. “Que possam viver em paz, ter sua família, sua casa, ter a garantia de que os filhos vão estudar. E que vão ser atendidas se ficarem doentes”.

Por isso, a Igreja tem tanta preocupação com a reforma da Previdência. Ele ressalta o posicionamento da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), segundo o qual a Previdência Social tem uma “intrínseca matriz ética”. “A Previdência foi criada para proteção social de pessoas que, por vários motivos, ficam expostas à vulnerabilidade social, seja por idade, enfermidade, acidente, maternidade, particularmente as mais pobres. Nenhuma solução para equilibrar um déficit pode prescindir de valores éticos, sociais e solidários”, declara.

A CNBB, de acordo com o arcebispo, entende que a reforma é necessária, mas não pode sacrificar os mais pobres, penalizar as mulheres e os trabalhadores rurais, punir pessoas com deficiência e ainda “gerar desânimo quanto à seguridade social entre os desempregados, sobretudo os mais jovens”.

Outra questão importante, na visão dele, é que o governo precisa deixar claro quais os privilégios que serão cortados com a reforma. “Precisa dizer quais são os privilégios, quem os possui, qual a cota de sacrifício desses privilegiados, bem como a forma de combater a sonegação e de cobrar os devedores da Previdência.”

A Lume ainda perguntou ao arcebispo sobre o papel da imprensa, que vem sendo atacada pelos defensores do atual governo. “A imprensa tem de ser livre como o cidadão tem que ser livre para dizer o que pensa e responder por aquilo que divulga. O primeiro sinal de que as coisas não vão bem é quando a imprensa não tem possibilidade de dizer o que pensa.”

Lume nasce do anseio por combater ‘fake news’

por Equipe Lume

Ainda durante as eleições de 2018 o altíssimo volume de notícias falsas (fake news) compartilhadas nas redes sociais, especialmente via WhatsApp, chamou a atenção de jornalistas em todo o País, inclusive de um grupo de londrinenses preocupados com o descrédito da notícia real.

Este grupo agora se reúne na Lume-Rede de Jornalistas Independentes, dedicada a jogar luz sobre o tema, esclarecer sobre os critérios de apuração da mídia tradicional, fazer checagens e contribuir para o entendimento do atual cenário nacional.

O fenômeno das fake news está longe de ser exclusividade do Brasil. O mesmo ocorreu nas eleições de 2016 no Estados Unidos e na votação do Brexit, no Reino Unido, com impactos provados nos resultados das urnas.

Mesmo antes das últimas eleições o fenômeno já impactava no mercado jornalístico brasileiro, que viu surgir as agências de fact-checking, como Lupa e Aos Fatos. Veículos já sedimentados também inauguraram editorias dedicadas à checagem de informações, como Estadão Verificada e Fato ou Fake (G1, do grupo Globo).

Os jornalistas da Lume não pretendem se dedicar ao fact-checking – embora não o exclua – esperam contribuir para o debate e identificação das notícias falsas, tão nocivas ao jornalismo profissional, à sociedade e à democracia.

Por isso, daremos luz ao conceito de Pós-verdade, “que se relaciona ou denota circunstâncias nas quais fatos objetivos têm menos influência em moldar a opinião pública do que apelos à emoção e a crenças pessoais” (Oxford Dictionaries).

Também este não se trata de um fenômeno exclusivamente nacional. Por meio de entrevistas, pesquisas e reportagens a Lume se dedicará a entender este comportamento e buscará mostrar o quão nocivo ele pode ser para o conjunto da sociedade.

Na editoria Direitos Humanos, a Lume se debruçará sobre este tema tão mal entendido e, por vezes, depreciado, ao ponto de ser tratado como o inverso do que realmente é. Reportagens e entrevistas buscarão revelar a verdadeira natureza das organizações de DH e suas ações efetivas em prol das minorias e da parcela mais vulnerável da população.

É fake: Boechat não fez ‘chacota’ de Jesus um dia antes do acidente

Cecília França

Lume Rede de Jornalistas

Após a morte trágica do jornalista Ricardo Boechat passou a circular nos grupos de Whatsapp um vídeo dele no programa do apresentador Danilo Gentili fazendo o que a mensagem compartilhada classifica como “chacota” com a volta de Jesus. A mensagem ainda diz que o episódio teria acontecido “um dia antes de cair o avião”.

Print na mensagem que circula por whatsapp

No vídeo, Boechat narra o dia do Apocalipse, claramente lendo um roteiro:

“E atenção: Jesus acaba de voltar à Terra. Segundo especialistas, esta é a segunda vez que o fenômeno acontece”, inicia.

O jornalista segue narrando as recomendações de médicos e do Vaticano para o dia do “juízo final” e conclui:

“O Vaticano pede que todos mantenham a calma e informou que os lugares perto do palco já estão esgotados. Boa sorte, e salve-se quem puder.”

Não é difícil notar que o texto lido por Boechat no vídeo trata-se de um roteiro preparado pela produção do programa. Entre uma pausa na fala, quando a plateia ri, Gentili diz: “Pode ler”.

Também não é verdade que o episódio aconteceu um dia antes do acidente que vitimou Boechat. Isto porque o programa “Agora é tarde” foi apresentado por Gentili na Band até 2013. Desde então o apresentador transferiu-se para o SBT, mantendo o tom humorístico do seu talk show.

Uma simples busca no Google revela que Boechat esteve no programa de Gentili em 2011. Portanto, a mensagem é fake.