Precisamos falar sobre Direitos Humanos

*Por Paula Vicente, presidente da Comissão de Direitos Humanos da OAB/Londrina , e Rafael Colli, secretário

Em 17 de junho recebemos uma mensagem da Cecília França (uma das criadoras da Lume), queria saber se ainda estaríamos interessados em escrever uma coluna para o site – gritos de empolgação, pulinhos de felicidade, é claro que queremos uma coluna – fingimos costume e acertamos os detalhes, dali 15 dias teríamos de entregar a primeira.

Depois de passado o momento da empolgação veio a dúvida, sobre o que falar na nossa primeiríssima? Bom, talvez seja importante, primeiro, decidir um tema, um assunto que, de forma ou de outra, esteja sempre em nossos textos, algo que nos apaixone e que, ao mesmo tempo, seja importante para você que está lendo. Foi, então, que escolhemos os temas relacionados aos Direitos Humanos, suas violações e atualidade.

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“Quem defende direitos humanos defende também o direito à moradia, à saúde, à educação”, diz presidente da CDH da OAB/Londrina

Advogada Paula Vicente diz que comissão busca desmistificar atuação dos ativistas, construída pela mídia e solidificada na sociedade como “defensores de bandidos”

Cecília França
Lume Rede de Jornalistas

No último dia de abril a Comissão de Direitos Humanos (CDH) da Ordem dos Advogados do Brasil/Subseção Londrina (OAB/Londrina) promoveu uma reunião aberta sobre as tragédias de Mariana e Brumadinho. Dois profissionais de fora da entidade foram convidados a explicar para os participantes a real dimensão humana e ambiental das tragédias.

Parece um tema alheio aos direitos humanos? Mas não é, em absoluto. A reunião faz parte de uma iniciativa da CDH de desmistificar a atuação dos ativistas, reduzida à defesa de pessoas em privação de liberdade. Ao menos a cada dois meses a comissão pretende realizar eventos do tipo, sobre temas afins.

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Monja Coen: “Têm sido regadas as sementes da raiva, da intolerância, do desrespeito”

Em entrevista à Lume, monja fala sobre como agir para criar uma cultura de paz em uma sociedade na qual a violência antes “escondida” ganha voz

Cecília França e Nelson Bortolin
Lume Rede de Jornalistas

A defesa dos direitos humanos é algo intrínseco ao budismo. A filosofia oriental entende que o direito à vida e ao acesso aos meios básicos de sobrevivência está intimamente ligado à construção de uma cultura de paz. Seria justamente a privação, violação ou ausência destes direitos básicos a causa de guerras e levantes violentos mundo afora.

Em passagem recente por Londrina, a Monja Coen – maior expoente do budismo no Brasil atualmente – tratou do tema. Na opinião da monja, preconceitos e desrespeitos não podem ser tolerados por quem busca construir uma cultura de paz.

“Quando eu vir algum pensamento contrário à condição sexual do outro, ou preconceituoso contra pessoas com necessidades especiais, eu preciso me levantar e dizer ‘Não admito isso’. Isto também é construir uma cultura de paz”, declarou na oportunidade.

Monja Coen durante palestra em Londrina

Dias depois, a monja respondeu, por e-mail, questionamentos da Lume sobre direitos humanos e, mais uma vez, defendeu a dignidade de todos os seres humanos. Para ela, o atual momento que vivemos nos mostra o quanto a violência estava “escondida” em nossa sociedade e deve nos levar a pensar em como lidar com ela. “Como lidar com a violência sem nos tornarmos violentos”, propõe: “Treinamento de sabedoria e compaixão”.

A monja ainda aponta a educação como um dos instrumentos fundamentais para benefício de todos os seres humanos. “A educação que liberta e convida ao pensar pode ser instrumento importante para que possamos fazer escolhas que sejam benéficas ao maior número de seres“. E completa: “Podemos nos treinar, nos educar, nos questionar e através da Filosofia, da Sociologia, da Pedagogia, da Psicologia, das Ciências Exatas, da Medicina, da tecnologia, da Inteligência Artificial poderá haver expansão de consciência”.

Leia entrevista completa abaixo.

Lume: A senhora acredita que os direitos humanos estão sob ameaça no Brasil? Por que?
Monja Coen: É importante pensar no direito à vida de todos os seres. Espero que possamos manter os Direitos Humanos com dignidade neste país e no mundo.

L: A senhora publicou um livro recente em que aborda a Verdade (Verdade? Porque nem tudo o que ouvimos ou falamos é verdadeiro, 2019). Vivemos um tempo em que o conceito de verdade tem sido muito questionado, sendo sobreposto, em muitos casos, por convicções pessoais. A verdade pode ser relativa?
MC: Verdade? Será que refletimos sobre o que falamos e pensamos? Ou será que apenas repetimos jargões sem as analisar. O propósito do livro é provocar a reflexão.

L: A violência parece ter ganhado mais “voz” na nossa sociedade recentemente. Preconceitos antes velados contra as chamadas minorias têm sido explicitados e as reações contrárias são taxadas de “mimimi”. Estamos regredindo como seres humanos capazes de viver com respeito em sociedade?
MC: Tem sido regadas as sementes da raiva, da intolerância, do desrespeito. Somos seres sensíveis e as emoções prejudiciais são contagiantes. Talvez seja um grande momento de treinamento para respondermos às provocações do mundo invés de apenas reagir.

Isto exige treinamento. Não é regredir. É oportunidade de observar o quanto estava escondido e como lidar com a violência sem nos tornarmos violentas. Treinamento de Sabedoria e Compaixão.

L: Como lidar com pessoas próximas (amigos e familiares) que defendem temas controversos como redução da maioridade penal, ditadura militar e outras ideias autoritárias?
MC: Será que devemos odiar quem odeia? Será que temos que discriminar quem discrimina? Será que precisamos brigar com quem provoca brigas? Será que devemos nos rebaixar ou abusar de quem nos rebaixa e abusa? Conviver com pessoas que nos provocam por defender pontos de vista contrários aos nossos é uma arte. Invés de romper, brigar, gritar, odiar, podemos encontrar um caminho de diálogo, usar meios expedientes para expor seus pontos de vista sem ofender.
Compreender que quem agride, discrimina, prefere governos autoritários foi criado, educado e é resultado de uma cultura de violência. Como transformar uma cultura de violência em uma cultura de paz? Cada um de nós é co-responsável.

L: Ser bom é uma escolha?
MC: Se neurocientistas afirmam que só temos 5% de livre arbítrio, ou seja, de escolhas, esses 5% são importantes. Grande parte de nossas aparentes escolhas tem a ver com nossa herança genética e outra grande parte com as experiências pelas quais passamos, nossa educação, amigos, grupos sociais e assim por diante. A educação que liberta e convida ao pensar pode ser instrumento importante para que possamos fazer escolhas que sejam benéficas ao maior número de seres. Sair do controle do que Freud chamaria de “ego”- uma identidade separada e carente de atenção, afeto, poder. Quando transcendemos o “eu individual”‘ e nos percebemos “intersendo” com todas as formas de vida, se tivermos sido devidamente sensibilizados pela identificação e compaixão, teremos decisões adequadas para o bem de todos os seres.
Não apenas o bem pessoal, individual, ou de um grupo especial, mas o bem de todos os seres. Treinamento, atenção e votos. Podemos nos treinar, nos educar, nos questionar e através da Filosofia, da Sociologia, da Pedagogia, da Psicologia, das Ciências Exatas, da Medicina, da tecnologia, da Inteligência Artificial poderá haver expansão de consciência.

Entretanto, apenas conhecimento não é suficiente. É preciso desenvolver a sabedoria, ou seja, ações efetivas de transformação baseadas no discernimento correto, na ética para esta nova era.

Qual a sua escolha? Pense nisso: o que está escolhendo neste momento? Brigas, polaridades, insultos, gritos? Ou prefere o encontro, o diálogo, o respeito e a fala amorosa? A escolha de cada pessoa acaba se espalhando e pode ser elemento de transformação de uma cultura de violência para uma cultura de paz.

Acredito que processos meditativos tenham grande importância para transformações sociais, política e econômicas. Não apenas um conhecimento e bem estar pessoais, mas a percepção que somos a vida da Terra e de todos os seres.

Cuidar de todas as formas de vida com dignidade e identificação e respeitar a diversidade humana é uma escolha, que acredito se tornará uma realidade para a maioria dos habitantes do planeta Terra. O DNA humano quer sobreviver e só sobreviverá se cuidar do planeta e de cada célula, cada vida que o compõe.

Arcebispo de Londrina critica revisionismo da ditadura

Dom Geremias Steinmetz lembra do sofrimento dos religiosos durante o golpe de 64 e defende os direitos humanos

Nelson Bortolin
Lume Rede de Jornalistas

A ditadura militar foi um período de desrespeito aos direitos humanos, no qual religiosos foram perseguidos, torturados e mortos. Por isso, não há nenhum revisionismo a ser feito em relação a ela. Esse é o pensamento do arcebispo de Londrina, Dom Geremias Steinmetz.

Na semana em que o presidente da República conclamou os militares a comemorem o golpe de 1964, Dom Geremias conversou com a Lume Rede de Jornalistas, sexta-feira (29), na Mitra Diocesana. “Houve pessoas que desapareceram, houve pessoas que foram mortas, perseguidas. E o pior de tudo, foram perseguidas pelo governo. Existe coisa pior do que alguém ser perseguido na própria terra por questão de pensamento político?”, questiona.

O arcebispo lembrou que a Igreja também foi vítima dos militares. “Muitos bispos sofreram, padres desapareceram. Alguns foram mortos na prisão.”

A instituição foi considerada grande inimiga do regime. A CIA (Agência de Inteligência dos Estados Unidos) acompanhou a tensa relação entre os militares e o clero. Bispos como Dom Helder Câmara e os cardeais Dom Paulo Evaristo Arns e Dom Aloisio Lorscheider denunciaram torturas e violações aos direitos humanos pelo mundo afora. “Não há porque a Igreja revisar seu posicionamento com relação à ditadura”, ressalta o arcebispo de Londrina.

Dom Geremias diz que o compromisso da Igreja com os direitos humanos não é de agora. “A questão dos direitos humanos decorre da própria dignidade humana. Foi por forte influência da doutrina social da Igreja que foi assinado o grande entendimento em 1948, logo depois da guerra (II Guerra Mundial)”, diz ele, em referência à Declaração dos Direitos Humanos da Organização das Nações Unidas (ONU) .

Para o arcebispo, a defesa dos direitos humanos vem do Evangelho de Jesus Cristo. “Para que todas as pessoas possam ter vida e vida em plenitude, a Igreja trabalha nessa questão dos direitos humanos há muita décadas.”

A Campanha da Fraternidade, diz o líder católico, trata este ano de políticas públicas que visam a dignidade dos seres humanos. “Veja o estrago que faz na vida de uma pessoa não ter o direito à educação e à saúde respeitados, ou não ter seu direito à moradia, ou o direito a ter um pai e uma mãe.”

A reportagem perguntou ao arcebispo por que, na opinião dele, parte da sociedade critica os militantes dos direitos humanos como se eles defendessem apenas os bandidos. Ele respondeu: “Eu acho que é uma ignorância. Não sei se uma ignorância mais arrogante ou uma arrogância mais ignorante. Porque todas as pessoas têm que ter direito, está na Constituição.”

Para o arcebispo, o Brasil vive um momento em que o “pensamento político é questionado”. “É um pensamento que tira direito dos indígenas, que tira direito de quilombolas e dos agricultores da agricultura familiar”. “Então é bem fácil entender que tem gente lutando contra os direitos humanos, dizendo que é coisa de comunista.”

Dom Geremias considera que os direitos humanos deveriam ser bandeira de todos os partidos e governos para que todas as pessoas tenham “vida em plenitude”. “Que possam viver em paz, ter sua família, sua casa, ter a garantia de que os filhos vão estudar. E que vão ser atendidas se ficarem doentes”.

Por isso, a Igreja tem tanta preocupação com a reforma da Previdência. Ele ressalta o posicionamento da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), segundo o qual a Previdência Social tem uma “intrínseca matriz ética”. “A Previdência foi criada para proteção social de pessoas que, por vários motivos, ficam expostas à vulnerabilidade social, seja por idade, enfermidade, acidente, maternidade, particularmente as mais pobres. Nenhuma solução para equilibrar um déficit pode prescindir de valores éticos, sociais e solidários”, declara.

A CNBB, de acordo com o arcebispo, entende que a reforma é necessária, mas não pode sacrificar os mais pobres, penalizar as mulheres e os trabalhadores rurais, punir pessoas com deficiência e ainda “gerar desânimo quanto à seguridade social entre os desempregados, sobretudo os mais jovens”.

Outra questão importante, na visão dele, é que o governo precisa deixar claro quais os privilégios que serão cortados com a reforma. “Precisa dizer quais são os privilégios, quem os possui, qual a cota de sacrifício desses privilegiados, bem como a forma de combater a sonegação e de cobrar os devedores da Previdência.”

A Lume ainda perguntou ao arcebispo sobre o papel da imprensa, que vem sendo atacada pelos defensores do atual governo. “A imprensa tem de ser livre como o cidadão tem que ser livre para dizer o que pensa e responder por aquilo que divulga. O primeiro sinal de que as coisas não vão bem é quando a imprensa não tem possibilidade de dizer o que pensa.”

É fake: Boechat não fez ‘chacota’ de Jesus um dia antes do acidente

Cecília França

Lume Rede de Jornalistas

Após a morte trágica do jornalista Ricardo Boechat passou a circular nos grupos de Whatsapp um vídeo dele no programa do apresentador Danilo Gentili fazendo o que a mensagem compartilhada classifica como “chacota” com a volta de Jesus. A mensagem ainda diz que o episódio teria acontecido “um dia antes de cair o avião”.

Print na mensagem que circula por whatsapp

No vídeo, Boechat narra o dia do Apocalipse, claramente lendo um roteiro:

“E atenção: Jesus acaba de voltar à Terra. Segundo especialistas, esta é a segunda vez que o fenômeno acontece”, inicia.

O jornalista segue narrando as recomendações de médicos e do Vaticano para o dia do “juízo final” e conclui:

“O Vaticano pede que todos mantenham a calma e informou que os lugares perto do palco já estão esgotados. Boa sorte, e salve-se quem puder.”

Não é difícil notar que o texto lido por Boechat no vídeo trata-se de um roteiro preparado pela produção do programa. Entre uma pausa na fala, quando a plateia ri, Gentili diz: “Pode ler”.

Também não é verdade que o episódio aconteceu um dia antes do acidente que vitimou Boechat. Isto porque o programa “Agora é tarde” foi apresentado por Gentili na Band até 2013. Desde então o apresentador transferiu-se para o SBT, mantendo o tom humorístico do seu talk show.

Uma simples busca no Google revela que Boechat esteve no programa de Gentili em 2011. Portanto, a mensagem é fake.