“Eu posso sair de casa de mãos dadas com alguém, mas na rua tenho que soltar”, diz Luana Cossentini sobre LGBTfobia

Idealizadora da Parada LGBT de Londrina comemora a criminalização pelo STF, mas teme retrocesso social

Cecília França
Rede Lume de Jornalistas

Quando cursava o mestrado em Londrina, a biomédica Luana Aparecida Cossentini, 27, procurou o serviço de saúde da universidade para uma consulta de rotina com um ginecologista. Ao entrar no consultório, relatou ao médico que se relacionava com mulheres. Foi o suficiente para que a consulta terminasse.

“Ele ficou comigo duas horas tentando mudar minha orientação sexual e, na época, eu só achei que ele era louco. Hoje olho para trás e penso quanto coisa eu poderia ter feito e não fiz por não saber que era crime ou não pensar em como poderia me influenciar no futuro”, contou ela à Lume, na segunda entrevista do nosso Especial LGBTfobia.

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“Nunca tivemos o fascismo longe das nossas vidas”, declara atriz e produtora cultural Mel Campus

Ativista dos direitos das travestis espera que a criminalização da LGBTfobia permita denúncias de agressões e violências

Cecília França
Rede Lume de Jornalistas

Mel Campus é uma força da natureza. Os gestos rápidos e a fala assertiva da atriz e produtora cultural foram construídos sobre uma história de dor e apagamento que ela reverteu em militância. A entrevista com ela inaugura o nosso Especial LGBTfobia.

Ativista dos direitos das travestis, Mel serve de inspiração para uma das populações mais privadas de direitos básicos entre os LGBT. Aos 43 anos, já superou em quase uma década a expectativa de vida desta população no Brasil, que se mantém em baixíssimos 35 anos. Tornar-se pública foi a saída encontrada por ela para reverter a violência que parece empurrar estes corpos dissidentes para a rotina de perigo e violência da prostituição.

“Independente de esquerda ou de direta, nunca tivemos o fascismo longe das nossas vidas”, declara Mel sobre as políticas pensadas pelos governos para as populações trans. E o apagamento começa dentro do próprio movimento, além de todos os estigmas sociais e da produção escassa de informação de qualidade sobre e para essas pessoas.

“Esta estrutura preconceituosa e excludente não nos aceita enquanto pessoas cidadãs. A não aceitação interfere muito na qualidade de vida, na saúde integral, no direito à família, à educação, segurança, cultura, e uma série de questões que nós sentimos a privação enquanto pessoas”, detalha.

A violência cotidiana enfrentada pelas travestis é muito maior quando comparada, por exemplo, à sofrida pelos homossexuais. Isso porque os corpos trans são tidos como fora do padrão aceitável socialmente. Mel relata uma situação ocorrida recentemente, no centro de Londrina, em que ela fazia uma performance na faixa de pedestres quando o semáforo fechava. De repente ela e sua produtora ouviram de um senhor “Podia abrir o sinal e passar um carro por cima pra matar isso daí”.

Situações como esta já feriram a atriz. Hoje, ela só lamenta pela falta de empatia e acredita que a criminalização da LGBTfobia pelo Supremo Tribunal Federal (STF) será benéfica. “Vai conter esse tipo de atitude, porque eu vou poder dizer ‘você está errado, eu tenho direito de viver, de existir, de trabalhar… O mesmo direito que você tem enquanto ser humano e como cidadão’”, defende.

A partir da criminalização Mel também enxerga maior possibilidade de denúncia formal por parte da população trans. “A gente vai poder fazer um B.O. (boletim de ocorrência) sem ser questionada, vai poder denunciar uma relação abusiva, um assédio moral na empresa. Vai poder denunciar um estupro e dizer ‘eu não queria ser estuprada’. Eu já sofri inúmeras violências que foram naturalizadas pelo fato de eu ser travesti”, lamenta.

Assista vídeo da entrevista

Mel em cena na peça Grazy Ellas. Foto: Eduard Fao

Vida noturna
Para que possamos mensurar o nível de violência a que as travestis sempre foram submetidas basta lembrar que elas começaram a andar na rua durante o dia em Londrina a partir da aprovação da Lei 8.812/2002, que passou a penalizar estabelecimentos e pessoas que constranjam ou ofendam outras em função de sua orientação sexual.

Por muitos anos, Mel andou com a lei impressa na bolsa e precisou usá-la para garantir sua permanência em lojas e outros estabelecimentos. Antes da lei travestis não tinham liberdade sequer para fazer compras sem sofrer constrangimentos e agressões.

“Essas pessoas que são excluídas do dia vão automaticamente viver a noite. Então esse universo em que as travestis são jogadas é muito particular, porque ainda existe esta exigência de enquadrar este corpo dissidente”, explica Mel.

Toda essa conjuntura restringe, ainda, o acesso ao mercado de trabalho formal. “Temos uma sociedade que questiona o universo da prostituição, que mata travestis por estarem lá, mas que fecha totalmente as portas para essas pessoas”.

Patologização
Apesar de a homossexualidade não ser considerada doença pela Organização Mundial da Saúde (OMS) há quase três décadas, a transexualidade só deixou de ser classificada como uma patologia, oficialmente, em 2018. No Brasil, ainda há projetos no Congresso que pretendem permitir a “cura” destas pessoas – algo defendido também por alguns psicólogos e que pode ser intensificado diante de um governo federal conservador como o atual e um presidente claramente homofóbico.

Nascida na década de 1970, quando o entendimento sobre a transexualidade ainda era mínimo, Mel sofreu com a patologização, tendo sido internada ainda na adolescência. Aceitar-se travesti foi, nas palavras dela, uma libertação.

“A autoaceitação é algo muito particular. Enquanto pessoa trans eu sempre soube quem eu não era, que aquele determinado papel dirigido às masculinidades não me pertencia. O que eu era não me era muito claro, porque eu não tinha informação sobre a transexualidade e as questões das identidades de gênero naquele momento”, relembra.

Mel Campus. Foto: Acervo pessoal

O estranhamento começou ainda na infância, quando ela não conseguia se enquadrar dentro de comportamentos esperados pela família. Com isso, surgiam afirmações como “Tem algo errado com esse menino”. “Eu sempre me entendi como uma pessoa e não como um menino”, explica Mel.

Já na vida adulta e ciente de sua travestilidade, Mel reuniu todo o aprendizado de uma vida forjada no apagamento para se tornar a ativista de hoje.

“A transfobia me fez militante; minha indignação de encontrar tanta gente disposta a dizer o que eu era, mas sem querer escutar o que eu tinha para dizer. Eu acabei entendendo que meu protagonismo era fundamental para questionar essa imagem das pessoas trans em Londrina e criar uma outra imagem dessa travesti, que é empoderadora, de beleza, de potencial. Quando a gente se coloca nesse processo de representatividade a gente cria acessos entre esta população e o restante da sociedade. Isso desmistifica, aproxima, faz compartilhar”, conclui.

Especial LGBTfobia: o que esperar a partir da criminalização?

LGBTs de Londrina consideram decisão do STF um avanço, mas temem dificuldade nas denúncias

Cecília França
Rede Lume de Jornalistas

Quantas vezes na vida você já deixou de fazer coisas ou frequentar lugares simplesmente por ser quem você é? Quantas vezes precisou pensar na reação dos outros antes de interagir com uma criança ou manifestar uma vontade? Privar-se de atividades básicas e de lazer, controlar reações espontâneas, moldar-se ao que a sociedade considera conveniente são situações rotineiras na vida da população LGBT, permeada por pequenas ou escancaradas violências. Agora, com a criminalização da LGBTfobia pelo Supremo Tribunal Federal (STF) abre-se a possibilidade de denúncia formal destas agressões e penalização dos responsáveis.

Quando começamos a produzir este especial nossa intenção era reunir as várias opiniões de representantes da população LGBT em Londrina em uma grande matéria. Porém, depois das entrevistas feitas, entendemos que as formas de preconceito enfrentadas e o apagamento sofrido por cada grupo são tão específicos que precisavam ser abordados um a um. Começamos hoje, com a entrevista da atriz e produtora cultural Mel Campus, ativista dos direitos das travestis.

Todos os entrevistados concordam que a criminalização da LGBTfobia representa um avanço, porém, apontam problemáticas na questão de se criminalizar uma forma de pensar que é estrutural. Isto porque parte da sociedade discorda, inclusive o presidente Jair Bolsonaro, que classificou a decisão como “completamente equivocada“.

Para Mel, a criminalização vai possibilitar que a população transexual faça denúncias sem ser questionada. “Eu já sofri inúmeras violências que foram naturalizadas pelo fato de eu ser travesti”, relata. No entanto, ela receia que não exista um sistema de recepção para as denúncias, o que, na prática, inviabilizaria a transformação destas em processo.

A biomédica Luana Cossentini, uma das criadoras da Parada LGBT de Londrina, diz que a criminalização vem ao encontro dos anseios do grupo, mas que ainda falta muito entendimento dentre os próprios integrantes desta população.

“Tem muitos que acham isso uma bobagem. Eu, antes de entrar na organização da parada, não entendia preconceitos que eu mesma sofria. Hoje eu penso quanta coisa eu poderia ter feito e não fiz por não entender como crime ou não saber quanto poderia me afetar no futuro”, conta.

Políticas públicas
A criminalização da LGBTfobia ainda não é uma lei no Brasil. O STF agiu diante da morosidade do Congresso Nacional em legislar sobre o tema e equiparou o crime de violência contra esta população ao crime de racismo, punido com pena de um a cinco anos de reclusão. Vale lembrar, no entanto, que existem projetos na Câmara que buscam retroagir em direitos já conquistados, possibilitando, por exemplo, internação compulsória desta população.

Alex Gallo, psicólogo, docente da Universidade Estadual de Londrina (UEL) e doutor em violência de gênero, acredita que a criminalização é parte de um processo semelhante ao que já ocorreu no combate à violência contra a mulher.

Ele ressalta que há mais de duas décadas começou-se a pensar em políticas públicas de combate à violência de gênero, resultando na Lei Maria da Penha, aprovada em 2006. A partir daí, a mulher passou a ter a certeza de que sua denúncia se transformaria em um processo, porém, ainda enfrenta dificuldades na ponta, para fazer a denúncia.

Situação semelhante deve ser enfrentada pela população LGBT, no entanto, havendo a criminalização há um respaldo para se exigir medidas efetivas.

“A partir do momento que as pessoas passam a entender como uma violência dá para se pensar em políticas de acolhimento”, conclui.

Leia a primeira reportagem da série, com Mel campus.