A carne mais barata do mercado

*Por Paula Vicente e Rafael Colli, integrantes da Comissão de Direitos Humanos da OAB/Londrina

“Nossas crianças sonha que quando crescer vai ter cabelo liso / Sem debater fatos, que a fama da minha cor fecha mais portas que zelador de orfanato” (Emicida)

Agatha tinha 8 anos, falava inglês, fazia balé e gostava das sextas-feiras – era o dia que seu pai lhe dava dinheiro para comprar lanche na escola. Agatha era uma menina feliz, como relataram seus pais e avô na última semana. Agatha não tinha consciência que nada disso importava, pois sua cor era um fator impeditivo, um fator socialmente negativo, o motivo que lhe tiraria a vida. Agatha foi covardemente assassinada pela PM do Rio de Janeiro, numa sexta-feira – o dia que tanto gostava. Ela voltava pra casa com a mãe.

Vamos misturar dois assuntos sensíveis nessa coluna, a violência policial, anteriormente comentada por nós, e o racismo estrutural que achaca nossa sociedade.

Muitos vão dizer que o fato de Agatha ser uma criança negra em nada contribuiu para sua morte, afinal, o policial que puxou o gatilho do fuzil que disparou a bala que a atingiu pelas costas, dentro de uma Kombi, não sabia qual era sua cor. Será? Ou será que a bala que atravessou a pele negra de Agatha estava, de algum modo, estruturalmente condicionada a matar negros, pobres, favelados?

O racismo estrutural é assim, mecânico, involuntário, porém, não aleatório. É estrutural por permear toda a estrutura social que nos cerca e por perpetuar os preconceitos mais velados. É o racismo estrutural e institucional que faz com que sejam os negros a maior parcela das comunidades pobres; que tenham que enfrentar horas no transporte coletivo para poderem trabalhar e sobreviver. É, também, o racismo estrutural que faz com que as polícias – e a própria sociedade – enxerguem negros e pobres como inimigos, prestes a praticar algum mal.

A cor da pele de Agatha é criminalizada, desprestigiada, por isso seu avô dizia, desesperadamente, que ela falava inglês e fazia balé, como quem quer diferenciar sua menina daqueles que são marginalizados pela sociedade. Fosse Agatha uma criança da Zona Sul, branca, não haveria qualquer necessidade de elencar-se suas atividades extracurriculares, a consternação nacional seria gigantesca com sua morte. Ou melhor: se fosse branca, moradora de algum bairro nobre, a bala teria desviado, pois não estaria programada para isso.

Agatha era moradora da Comunidade da Fazendinha e, como sua mãe disse em entrevista, vinha se habituando com as operações realizadas pela PM de Witzel. A casa delas era no alto do morro, e os tiros disparados de helicópteros assustavam, faziam com que se escondessem no box do banheiro para fugir das balas. As operações são cada vez mais frequentes e duram cada vez mais, segundo a mãe de Agatha, Vanessa Sales: “Eles compraram muitas balas.”

E para manter essa separação entre os “cidadãos plenos” e a patuleia, os segregados, nada melhor que uma boa política de violência. Primeiro, criminaliza-se a pobreza e seus meios de sobrevivência; prendem-se seus jovens, pais de família; humilham-se suas mulheres; e aqueles que resistirem… bom, a bala estará programada, teleguiada.

As vítimas dessa política de extermínio são, majoritariamente, pessoas negras. Agatha Félix tinha 8 anos; Evaldo Rosa teve seu carro atingido por 80 tiros disparados pelo Exército Brasileiro; Marcos Vinícius estava a caminho da escola e foi atingido nas costas, com uniforme escolar; Marielle, uma mulher eleita, lutava pela vida dos marginalizados.

Mas nada disso importava, pois suas peles, negras, nada valiam – a carne mais barata do mercado. Suas vidas pouco importavam para a sociedade. Na visão estrutural, nada mais eram que sujeitos a serem marginalizados, presos, mortos. E assim, o sistema social mantém sua ordem e seus preceitos preconceituosos.

Sempre ouvimos que o Brasil era o país da tolerância, de todos os povos, da simpatia e alegria, essa era a maquiagem do brasileiro, o povo cordial, mas a verdade é que o brasileiro é racista e intolerante, atravessa a rua quando vê um adolescente negro vindo em sua direção.

Açoita o negro que comete um pequeno delito no supermercado. Ainda pior, asfixia, até a morte, o jovem negro que se aproxima do segurança. Pedro Henrique tinha 19 anos, sua mãe também viu sua morte, falou várias vezes que ele não podia respirar, mas ele era o inimigo, o ser desprezível e de vida barata, descartável.

Enfim, todos os casos aqui elencados aconteceram entre o ano passado e hoje. E todas as vezes que se fala que o racismo é a força motriz dessas mortes há uma parcela considerável da sociedade que se apressa em dizer que não, essas coisas em nada se tocam, e que toda tentativa de jogar luz sobre o assunto é frivolidade da esquerda, ou, como eles gostam de nominar, “mimimi”.

Concluímos, então, que o brasileiro não tem vergonha de ser racista, ele tem vergonha de ver seu racismo exposto. As atitudes racistas e suas consequências pouco importam para essa parcela da população. O que não pode acontecer é alguém mostrar a ela o que ela é, sente e pensa, e como essa visão de mundo constrói um universo de pobreza e marginalização.

Nós, que escrevemos esta coluna, nada sabemos, pois nossa pele não é negra e não nascemos na favela. Mas o racismo estrutural somente deixará de ser assim, automático e institucional, quando todos fizermos um exercício de empatia, para parar as balas que matam todos os dias, que matam as Marielles e as Agathas, e tantos outros jovens negros e pobres por este país.

Enquanto isso, ouçamos quem sente e entende:

“Cê sabe o quanto é comum, dizer que preto é ladrão
Antes mesmo de a gente saber o que é um
Na boca de quem apoia a desova e se orgulha da honestidade que nunca foi posta a prova
Eu queria te ver lá, tiriça
Pra ver onde você ia enfiar essa merda do teu senso de justiça”

Que mais Emicidas nos ensinem que nosso mundo é uma ilusão…

Ação de Direitos Humanos arrecada doações em Londrina

Cecília França
Rede Lume de Jornalistas

O Movimento Nacional dos Direitos Humanos (MNDH) deu início a uma ação de arrecadação de doações para famílias vulneráveis moradoras de ocupações e assentamentos em Londrina. Além do caráter filantrópico, a ação visa conscientizar os londrinenses sobre o descarte de roupas, brinquedos, utensílios domésticos, móveis, eletrodomésticos e até alimentos em condições de serem reaproveitados por outras famílias.

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Sem dinheiro, sem trabalho e sem os filhos

Vivendo de doações, casal luta para reaver na Justiça a guarda dos filhos

Cecília França e Nelson Bortolin

*Atualizada em 02 de julho para inclusão de explicação do Conselho Tutelar

Quando saiu da sala de audiências, Sueli Santos da Silva, 35, caiu em um choro rápido e nervoso. Era a primeira vez que ela encarava um juiz e um promotor. O clima formal de depoimento, na segunda-feira, 24 de junho, intimidou a manicure em sua primeira tentativa de reaver a guarda dos filhos ao lado do companheiro, o pedreiro Wadislau César Teixeira Dória, 55. As crianças – um menino de 11 anos e uma menina de 2 – foram retiradas dos pais três dias após a chegada deles a Londrina.

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Carlos Enrique Santana: “A questão dos direitos humanos é negocial. Eu sento na frente de bandido e converso”

“Carlão dos Direitos Humanos” transita entre periferia, criminosos e estruturas do Estado com a mesma desenvoltura e o mesmo objetivo: garantir o direito à vida com dignidade para todos

Cecília França
Lume Rede de Jornalistas

Carlos Enrique Santana tem opiniões e posicionamentos bem firmados. Para alguns, pode soar verborrágico, mas o fato é que sua atuação de mais de 20 anos em direitos humanos o credencia a tratar de temas delicados, como falta de moradia e segurança pública, com propriedade. E não se trata de uma atuação indireta ou burocrática, o “Carlão dos Direitos Humanos”, como é conhecido, já passou horas negociando com detentos e policiais em rebeliões em presídios; articula com Ministério Público, Defensoria, e qualquer outra estrutura de Estado com a mesma desenvoltura; mora na periferia de Londrina e vê de perto as carências dos sistemas públicos de saúde e educação.

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‘Fake News’: pesquisadoras apontam formas de combater processo de desinformação

Em evento do Pint Of Science, doutoras da Universidade Estadual de Londrina falam sobre notícias falsas e suas consequências sociais

Cecília França
Lume Rede de Jornalistas

Quem atua no jornalismo ou no direito certamente conhece o Caso Escola Base, ocorrido na década de 1990, em São Paulo. Denúncias de abuso sexual praticados contra crianças de quatro anos nesta escola infantil foram amplamente divulgadas pela imprensa, sem qualquer prova, inflamando a opinião pública. Na época, notícias falsas sobre o suposto crime estampavam capas de jornais diariamente e destruíram a vida de ao menos seis acusados.

Este grande exemplo de fake news da era analógica poderia ter causado estrago ainda maior na era digital em que vivemos. Se antes o receptor da informação era passivo – ou seja, apenas recebia conteúdo dos meios de comunicação tradicionais, como televisão e rádio – com a internet ele se torna ativo e passa a replicar aquilo que lhe interessa. O problema é que nem sempre a razão determina estas escolhas, e sim, a emoção, que tende a prevalecer sobre a lógica.

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Monja Coen: “Têm sido regadas as sementes da raiva, da intolerância, do desrespeito”

Em entrevista à Lume, monja fala sobre como agir para criar uma cultura de paz em uma sociedade na qual a violência antes “escondida” ganha voz

Cecília França e Nelson Bortolin
Lume Rede de Jornalistas

A defesa dos direitos humanos é algo intrínseco ao budismo. A filosofia oriental entende que o direito à vida e ao acesso aos meios básicos de sobrevivência está intimamente ligado à construção de uma cultura de paz. Seria justamente a privação, violação ou ausência destes direitos básicos a causa de guerras e levantes violentos mundo afora.

Em passagem recente por Londrina, a Monja Coen – maior expoente do budismo no Brasil atualmente – tratou do tema. Na opinião da monja, preconceitos e desrespeitos não podem ser tolerados por quem busca construir uma cultura de paz.

“Quando eu vir algum pensamento contrário à condição sexual do outro, ou preconceituoso contra pessoas com necessidades especiais, eu preciso me levantar e dizer ‘Não admito isso’. Isto também é construir uma cultura de paz”, declarou na oportunidade.

Monja Coen durante palestra em Londrina

Dias depois, a monja respondeu, por e-mail, questionamentos da Lume sobre direitos humanos e, mais uma vez, defendeu a dignidade de todos os seres humanos. Para ela, o atual momento que vivemos nos mostra o quanto a violência estava “escondida” em nossa sociedade e deve nos levar a pensar em como lidar com ela. “Como lidar com a violência sem nos tornarmos violentos”, propõe: “Treinamento de sabedoria e compaixão”.

A monja ainda aponta a educação como um dos instrumentos fundamentais para benefício de todos os seres humanos. “A educação que liberta e convida ao pensar pode ser instrumento importante para que possamos fazer escolhas que sejam benéficas ao maior número de seres“. E completa: “Podemos nos treinar, nos educar, nos questionar e através da Filosofia, da Sociologia, da Pedagogia, da Psicologia, das Ciências Exatas, da Medicina, da tecnologia, da Inteligência Artificial poderá haver expansão de consciência”.

Leia entrevista completa abaixo.

Lume: A senhora acredita que os direitos humanos estão sob ameaça no Brasil? Por que?
Monja Coen: É importante pensar no direito à vida de todos os seres. Espero que possamos manter os Direitos Humanos com dignidade neste país e no mundo.

L: A senhora publicou um livro recente em que aborda a Verdade (Verdade? Porque nem tudo o que ouvimos ou falamos é verdadeiro, 2019). Vivemos um tempo em que o conceito de verdade tem sido muito questionado, sendo sobreposto, em muitos casos, por convicções pessoais. A verdade pode ser relativa?
MC: Verdade? Será que refletimos sobre o que falamos e pensamos? Ou será que apenas repetimos jargões sem as analisar. O propósito do livro é provocar a reflexão.

L: A violência parece ter ganhado mais “voz” na nossa sociedade recentemente. Preconceitos antes velados contra as chamadas minorias têm sido explicitados e as reações contrárias são taxadas de “mimimi”. Estamos regredindo como seres humanos capazes de viver com respeito em sociedade?
MC: Tem sido regadas as sementes da raiva, da intolerância, do desrespeito. Somos seres sensíveis e as emoções prejudiciais são contagiantes. Talvez seja um grande momento de treinamento para respondermos às provocações do mundo invés de apenas reagir.

Isto exige treinamento. Não é regredir. É oportunidade de observar o quanto estava escondido e como lidar com a violência sem nos tornarmos violentas. Treinamento de Sabedoria e Compaixão.

L: Como lidar com pessoas próximas (amigos e familiares) que defendem temas controversos como redução da maioridade penal, ditadura militar e outras ideias autoritárias?
MC: Será que devemos odiar quem odeia? Será que temos que discriminar quem discrimina? Será que precisamos brigar com quem provoca brigas? Será que devemos nos rebaixar ou abusar de quem nos rebaixa e abusa? Conviver com pessoas que nos provocam por defender pontos de vista contrários aos nossos é uma arte. Invés de romper, brigar, gritar, odiar, podemos encontrar um caminho de diálogo, usar meios expedientes para expor seus pontos de vista sem ofender.
Compreender que quem agride, discrimina, prefere governos autoritários foi criado, educado e é resultado de uma cultura de violência. Como transformar uma cultura de violência em uma cultura de paz? Cada um de nós é co-responsável.

L: Ser bom é uma escolha?
MC: Se neurocientistas afirmam que só temos 5% de livre arbítrio, ou seja, de escolhas, esses 5% são importantes. Grande parte de nossas aparentes escolhas tem a ver com nossa herança genética e outra grande parte com as experiências pelas quais passamos, nossa educação, amigos, grupos sociais e assim por diante. A educação que liberta e convida ao pensar pode ser instrumento importante para que possamos fazer escolhas que sejam benéficas ao maior número de seres. Sair do controle do que Freud chamaria de “ego”- uma identidade separada e carente de atenção, afeto, poder. Quando transcendemos o “eu individual”‘ e nos percebemos “intersendo” com todas as formas de vida, se tivermos sido devidamente sensibilizados pela identificação e compaixão, teremos decisões adequadas para o bem de todos os seres.
Não apenas o bem pessoal, individual, ou de um grupo especial, mas o bem de todos os seres. Treinamento, atenção e votos. Podemos nos treinar, nos educar, nos questionar e através da Filosofia, da Sociologia, da Pedagogia, da Psicologia, das Ciências Exatas, da Medicina, da tecnologia, da Inteligência Artificial poderá haver expansão de consciência.

Entretanto, apenas conhecimento não é suficiente. É preciso desenvolver a sabedoria, ou seja, ações efetivas de transformação baseadas no discernimento correto, na ética para esta nova era.

Qual a sua escolha? Pense nisso: o que está escolhendo neste momento? Brigas, polaridades, insultos, gritos? Ou prefere o encontro, o diálogo, o respeito e a fala amorosa? A escolha de cada pessoa acaba se espalhando e pode ser elemento de transformação de uma cultura de violência para uma cultura de paz.

Acredito que processos meditativos tenham grande importância para transformações sociais, política e econômicas. Não apenas um conhecimento e bem estar pessoais, mas a percepção que somos a vida da Terra e de todos os seres.

Cuidar de todas as formas de vida com dignidade e identificação e respeitar a diversidade humana é uma escolha, que acredito se tornará uma realidade para a maioria dos habitantes do planeta Terra. O DNA humano quer sobreviver e só sobreviverá se cuidar do planeta e de cada célula, cada vida que o compõe.