Entidade alerta ONU sobre falhas do Brasil no enfrentamento a desaparecimentos forçados

Instituto Vladimir Herzog enviou informes sobre esvaziamento da investigação de crimes da ditadura, celebração do regime militar e interpretação da Lei de Anistia que tem gerado impunidade

Fábio Galão, especial para a Lume

Durante a 45ª Sessão Ordinária do Conselho de Direitos Humanos (CDH) da Organização das Nações Unidas (ONU), realizada virtualmente entre 14 de setembro e a última terça-feira (6), o Instituto Vladimir Herzog (IVH), de São Paulo, enviou informes para contribuir com o Grupo de Trabalho sobre Desaparecimentos Forçados ou Involuntários e a Relatoria sobre Justiça, Verdade, Reparação e Garantias de Não Repetição do organismo multilateral.

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‘Tais cenas nos obrigam a nos deparar com aqueles demarcados como não humanos’, diz psicóloga

Vídeo de idoso em situação de rua expulso da calçada de um restaurante são metáforas de uma sociedade opressiva salientada pela pandemia, avalia Flávia Carvalhaes

Cecília França

“A Covid- 19 se instaurou sem pedir licença e nos fez deparar com realidades que sempre existiram e que agora se precipitaram”, explica a psicóloga Flávia Fernandes de Carvalhaes, 42, dedicada ao trabalho e estudo com populações vulneráveis em Londrina. Na última década, Carvalhaes atuou junto a adolescentes em cumprimento de medidas socioeducativas e, por um período mais curto de tempo, com a população de rua.

Doutora em Psicologia pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), ela classifica cenas como a registrada na última semana, em que o proprietário de um restaurante joga água para expulsar um idoso de situação de rua da calçada, como “metáforas” da nossa formação social, pela qual alguns grupos e cidadãos são considerados sujeitos de direitos enquanto outros apresentam-se como inferiores.

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Mortes por covid-19 em setembro superam julho e agosto somados em Londrina

Mesmo com medidas mais restritivas que nos meses anteriores, cidade registrou 4,3 mil casos e 90 óbitos em 30 dias

Adriana Ito, especial para a Lume

No pior mês desde o início da pandemia de covid-19, Londrina lamentou a perda de três vidas por dia em decorrência da doença. De 1º a 30 de setembro, foram registrados 4.296 casos e 90 novas mortes no município.

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O resgate pela socioeducação

Atendimento humanizado e valorização da cultura periférica quebram paradigmas e fazem de Londrina referência no acolhimento a adolescentes em conflito com a lei

Cecília França

Foto em destaque: perfil Falando sobre Socioeducação no Instagram

Eu via esse lugar aqui como cadeia, não de educação. Hoje, como tô tendo várias atividades, já enxergo esse lugar como um projeto pra te ajudar a ser alguém na vida”. A frase dita por um adolescente em cumprimento de medida socioeducativa em Londrina resume bem o pensamento de parte da sociedade sobre o sistema e o que ele realmente é: uma possibilidade de resgate de adolescentes por meio da educação. Nos últimos anos, profissionais e autoridades judiciárias de Londrina tem se dedicado a resgatar a essência da socioeducação e, por consequência, vem ressignificando a vivência de adolescentes em conflito com a lei. Os trabalhos fazem da cidade referência para o Estado no atendimento socioeducativo (leia mais abaixo).

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Candidaturas de trans e travestis miram visibilidade

Representantes da população LGBTI+ concorrem a vagas nas próximas eleições municipais para que seja dada voz na vida pública a quem é historicamente silenciado

Fábio Galão, especial para a Lume

Com o início da campanha eleitoral no último domingo (27), os candidatos a prefeito e vereador deram a largada em uma disputa para ver qual voz falará mais alto nas eleições de novembro e na vida pública dos municípios pelos próximos quatro anos. Uma voz historicamente silenciada e perseguida no Brasil tenta se destacar: a da comunidade de transexuais e travestis.

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Ministro da Educação pode responder por declarações homotransfóbicas

Procuradoria-Geral da República sugeriu ao Supremo Tribunal Federal (STF) que Milton Ribeiro preste depoimento à Polícia Federal; ação atende a pedido de entidades LGBTI+

Da Redação

Foto em destaque: postagem no facebook do grupo Mães pela Diversidade

Declarações dadas pelo ministro da educação Milton Ribeiro ao jornal O Estado de S.Paulo podem levá-lo a responder no Supremo Tribunal Federal (STF) por crime de homotransfobia. A Procuradoria Geral da República acatou pedido de entidades representativas da comunidade LGBTI+ e pediu à Suprema Corte que apure o caso, sugerindo, inicialmente, que o ministro seja ouvido pela Polícia Federal.

Em uma das falas que gerou a reação dos grupos pela diversidade o ministro classificou a homossexualidade como opção – quando o correto seria orientação -, disse que ela seria fruto de “famílias desajustadas” e usou o termo obsoleto “homossexualismo” (o sufixo “ismo” refere-se a doença e a homossexualidade deixou de ser considerada uma patologia pela Organização Mundial da Saúde em 1990).

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‘Resistência traz potência’

Mãe de três meninas, educadora e mobilizadora, Luana Oliveira é o Conexões Londrina, projeto que é ponte entre recursos e favela em Londrina

Por Mariana Guerin, jornalista e confeiteira em Londrina. Adoça a vida com quitutes e palavras

Lua: satélite que reflete a luz do sol, iluminando a escuridão, dando norte a quem está perdido. Um apelido carinhoso que bem representa a alma da carioca radicada em Londrina há 18 anos, Luana Gomes Maciel Oliveira. Ela iniciou um trabalho de ações comunitárias no município que se tornou fundamental para muitas famílias carentes durante a pandemia do novo coronavírus: o Conexões Londrina.

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A dramática relação entre abuso sexual infantil e suicídio

Pesquisas comprovam maior ocorrência de comportamentos autodestrutivos entre vítimas de violência, uma realidade dolorosa que precisa ser enfrentada

Cecília França

No dia 7 de setembro, a psiquiatra forense Mariana Almeida fez uma postagem em seu Instagram intitulada “Violência sexual na infância e suicídio: qual a relação?”. A postagem ocorre no Setembro Amarelo, mês de conscientização sobre o suicídio, e une duas temáticas extremamente sensíveis. No texto, a profissional cita duas pesquisas que comprovam esta triste relação. Uma delas mostra um acréscimo de 67% no risco de tentativas de suicídio entre as vítimas de abuso na infância.

“Os maus tratos na infância, incluindo o abuso sexual, configuram um importante fator de risco para transtornos mentais, como a depressão maior, transtorno de estresse pós-traumático, transtornos de ansiedade e transtornos relacionais a abuso de álcool e drogas. Consequentemente, o índice de suicídio aumenta”, diz a postagem da psiquiatra. Este estudo, intitulado Adverse Childhood Experiences (Experiências Adversas na Infância), de 1998, é considerado robusto, envolvendo mais de 13 mil participantes.

Em entrevista à Lume, Mariana explica que outro estudo coloca o abuso sexual infantil como fator de maior risco para suicídio que o histórico familiar. O artigo, publicado em 2019, é intitulado Differential impact of child sexual abuse and family history of suicidal behavior (Impacto diferencial do abuso sexual infantil e histórico familiar de comportamento suicida em pacientes suicidas de alto risco).

Perita oficial do estado do Rio Grande do Sul, Mariana detalha quais impactos os abusos podem causar no cérebro de crianças e adolescente. “Pesquisas mostram que acontecem mudanças neste cérebro em formação. Quando forem adultos eles vão entender qualquer estímulo diferente como nocivo, vão ficar na defensiva. Se não for feito um trabalho, se passar batido na época, há muita mais propensão a ter quadro de ansiedade, a ter ações suicidas já adultos, ficam mais vulneráveis a ter transtornos mentais…”, relaciona.

Em seus atendimentos, Mariana recebe casos de violência em geral, mas 90% se referem a abusos sexuais. Nas conversas aparecem os relatos de autoviolência. “É muito comum relatos de automutilação. Entra a questão do abuso e, às vezes, entra outros aspectos porque eles estão numa situação de desamparo muito grande. Já peguei casos de adolescentes dizendo que tinham pensado em suicídio, alguns que tinham cometido tentativas”, relata.

“A gente nota esse sofrimento muito intenso e muitas vezes a fala é ‘Queria dar um jeito de acabar com aquilo’.”

Mariana Almeida, psiquiatra

Como normalmente os abusos vêm acompanhados de ameaças, muitas vítimas acabam por não relatar as violências na época. A profissional defende que pais ou responsáveis mantenham um diálogo aberto com os filhos e estejam atentos a quaisquer mudanças de comportamento.

“As mudanças podem ser sutis e as pessoas podem atribuir a outras coisas. A criança ou adolescente começa a ficar mais irritado, mais arredio, às vezes mais sensível, choroso. Na escola começa a ficar com dificuldade de relacionamento com colegas e professores; podem aparecer brincadeiras mais sexualizadas, começar a fazer xixi ou cocô nas calças. São mudanças que podem sinalizar qualquer tipo de maus tratos, porque, infelizmente, não tem um quadro específico de abuso”, orienta.

Para a perita, as escolas são um espaço propício para se ensinar às crianças defesa corporal e como identificar abusos, encorajando-as a relatar a pais e responsáveis. Sobre a idade apropriada para se ter esta conversa, ela defende: “Não tem idade, mas linguagem adequada. Ensinar que o corpo não deve ser mexido, que não é qualquer tipo de carinho que é bem vindo, acho que tem como adequar para crianças pequenas, mesmo porque elas são vítimas também”.

Superação da dor

Em sua experiência clínica, o psicanalista Sylvio do Amaral Schreiner, de Londrina, vê o reflexo da violência sexual na infância destruir a vida de vítimas já adultas. “A gente vê que todas as pessoas que foram sexualmente abusadas têm comportamentos autodestrutivos, pode ser o suicídio, mas também pode ser de outras formas; a pessoa vai tendo uma insatisfação na vida. Ela pode fazer escolhas que vão fazer com que ela se sinta sempre para baixo, inadequada, inapropriada. Ela pode ter comportamentos compulsivos, como vício por álcool e drogas. Elas não estão mais vivendo. Apesar de hoje já não serem mais abusadas, estão se autodestruindo”, explica.

O psicanalista explica como uma criança, sendo um ser em formação, absorve um abuso. “Nossa mente não funciona de maneira lógica. Uma criança abusada não vai entender racionalmente que aquilo é um abuso, mas vai sentir na pele, vai ficar assustada, e geralmente o abusador vai ameaçá-la com frases como “Ninguém vai acreditar em você, ninguém liga para você”. E a criança vai acreditando que não vale nada e todas as ações dela no futuro serão para dizer ‘eu sou assim’. Para ela sair dessa posição ela precisa começar a ter uma nova identificação, encontrar pessoas que a tratem com respeito. Uma criança que foi abusada não foi tratada com respeito e a gente só aprende o que nos foi dado”.

“Tem que ser tratado. Essa marca tem que ser tirada dela. Uma ferida tratada logo vai se curar muito mais rápido do que uma que você deixa gangrenar”

Sylvio Schreiner, psicanalista

O fato de muitas vítimas esconderem os abusos por anos a fio se justifica como um mecanismo de defesa. No entanto, quanto mais cedo o fato for encarado, tratado e superado, maiores as chances da vítima reconstruir sua vida de forma digna. “Se for tratado ainda quando criança a reação dela vai ser muito mais rápida e eficiente. A criança vai entender que aquilo foi algo alheio a ela, que ela tem que se desapegar disso, com uma pessoa competente, que saiba ouvi-la, ela vai ter muito mais chance de carregar esse fardo por menor tempo”, finaliza.

Aos 30 anos, Código do Consumidor precisa entrar na era digital

Especialistas apontam que inserção de itens específicos sobre compras online é maior necessidade de atualização da norma

Fábio Galão, especial para a Lume

Norma que revolucionou a relação entre quem oferece e quem compra produtos e serviços no Brasil, o Código de Defesa do Consumidor (CDC) completa 30 anos com o desafio de entrar na era digital. Especialistas são unânimes em apontar como principal demanda a inclusão de itens específicos sobre o e-commerce, modalidade de varejo que não existia em 11 de setembro de 1990.

Um estudo do Movimento Compre&Confie em parceria com a Associação Brasileira de Comércio Eletrônico (ABComm) mostrou que o faturamento do comércio online cresceu 56,8% de janeiro a agosto deste ano no Brasil na comparação com o mesmo período em 2019 e chegou a R$ 41,92 bilhões, reflexo direto da pandemia de covid-19.

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Brava gente

Imigrantes de países em colapso econômico buscam no Paraná uma vida nova de oportunidades e de paz

Olga Leiria, de Curitiba

Estamos em constante movimento, nos mudando, procurando uma nova casa, um novo bairro, uma nova cidade. Mas alguns se mudam pelo sofrimento político e econômico de seu países. Homens e mulheres que deixam sua terra natal, suas famílias, seus pertences, para começar uma nova vida e realizar seus sonhos. Viajam milhares de quilômetros para encontrar oportunidades, alegria e paz.

O Brasil sempre foi uma terra de oportunidades para imigrantes. Somos uma nação formada por portugueses, espanhóis, italianos, poloneses, ucranianos, japoneses, judeus, turcos, libaneses, alemães. Mas, nos últimos 10 anos, uma grande quantidade de imigrantes chegaram ao país, e também ao Paraná, vindo de outras terras, entre eles haitianos, sírios e venezuelanos. Em Curitiba, no bairro do Umbará (zona sul), a paróquia de São Pedro dispõe de um espaço destinado ao atendimento deles: a Pastoral do Migrante.

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