Sem certezas sobre o futuro, famílias despejadas de fazenda em Lerroville iniciam reconstrução de barracos

Cerca de 500 pessoas do acampamento Quilombo de Palmares estão abrigadas no Centro Social do assentamento Eli Vive e precisam de doações

Cecília França – Rede Lume de Jornalistas

*Atualizada em 02/08 para inclusão da nota da CNBB

As últimas dez famílias que ocupavam uma propriedade em Lerroville, distrito rural de Londrina, deixaram hoje as terras, após ação de reintegração de posse executada pela Polícia Militar na última terça-feira (30). A fazenda, pertencente à família do ex-deputado José Janene, já falecido, estava ocupada desde 2015 por 166 famílias do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST).

Surpreendidas pela ação de despejo, as famílias foram abrigadas pela coordenação do movimento no Centro Social do assentamento Eli Vive, também em Lerroville, e precisam de doações de colchões, roupas e alimentos. De acordo com José Damaceno, coordenador do MST, existia uma ação de reintegração de posse tramitando desde 2015, mas o movimento foi surpreendido pela execução.

“Tudo agora é imprevisível. Vamos conversando à medida que as famílias se alojarem”, explica. Sandra Aparecida Costa Ferrer, coordenadora politica do assentamento, contou à Lume que as famílias estão montando seus barracos com bastante dificuldade, pois “na correria do despejo, com prazo curto imposto pelas autoridades, ficou muita coisa para trás”.

“Muitos não conseguiram tirar seus barracos para reaproveitar…as lonas, uma grande parte danificada…enfim…começar do zero. Perderam suas roças, que estavam todas plantadas, não tiveram tempo de colher seus alimentos. Os animais se extraviaram na correria, um cenário desolador”, descreve.

Parte dos pertences das famílias ao relento. Fotos: coordenação do MST

Parte dos pertences que os moradores conseguiram manter está abrigado no Centro Social do assentamento, porém, não há espaço para tudo e cadeiras, camas, Sobre o futuro, Sandra diz que será “construído dia a dia”. Segundo ela, a solidariedade de moradores da zona urbana tem surpreendido.

Ato de apoio

Neste sábado, 3, será realizado um ato inter-religioso em apoio aos despejados da ocupação Quilombo de Palmares. Será a partir das 1oh, no Calçadão de Londrina, em frente ao Banco do Brasil. Doações de alimentos e roupas estarão sendo coletadas na oportunidade.

Bispos se manifestam

Bispos da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) da Regional Sul 2 – que abrange o Paraná – divulgaram nesta sexta-feira (2) uma nota de repúdio à reintegração de posse ocorrida em Lerroville.

Na nota, os bispos afirmam esperar a reversão de todas as desapropriações realizadas no Estado, “tendo em vista que essas famílias estão há muitos anos trabalhando, produzindo agricultura de subsistência, educando os filhos e construindo comunidade em áreas pertencentes a grandes devedores da União ou do Estado que eram tidas, anteriormente, como improdutivas”.

Outras três reintegração de posse já ocorreram no Estado este ano, segundo o MST.

Para a CNBB, é urgente que os órgãos responsáveis, em especial o INCRA, possam promover a reforma agrária “como meio de paz no campo e promoção da agricultura familiar de subsistência”. Na avaliação dos bispos, o momento de polarização e intolerância vivido no Brasil “exige diálogo até a exaustão, na busca de soluções pacíficas, seja condição irrenunciável”.

Assinam a nota Dom Geremias Steinmetz, Arcebispo de Londrina; Padre Valdecir Badzinski, Secretário Executivo da CNBB Regional Sul2; Dom Amilton Manoel da Silva, bispo auxiliar de Curitiba; e Dom José Antônio Peruzzo, Arcebispo de Curitiba.

“Eu posso sair de casa de mãos dadas com alguém, mas na rua tenho que soltar”, diz Luana Cossentini sobre LGBTfobia

Idealizadora da Parada LGBT de Londrina comemora a criminalização pelo STF, mas teme retrocesso social

Cecília França
Rede Lume de Jornalistas

Quando cursava o mestrado em Londrina, a biomédica Luana Aparecida Cossentini, 27, procurou o serviço de saúde da universidade para uma consulta de rotina com um ginecologista. Ao entrar no consultório, relatou ao médico que se relacionava com mulheres. Foi o suficiente para que a consulta terminasse.

“Ele ficou comigo duas horas tentando mudar minha orientação sexual e, na época, eu só achei que ele era louco. Hoje olho para trás e penso quanto coisa eu poderia ter feito e não fiz por não saber que era crime ou não pensar em como poderia me influenciar no futuro”, contou ela à Lume, na segunda entrevista do nosso Especial LGBTfobia.

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“Nunca tivemos o fascismo longe das nossas vidas”, declara atriz e produtora cultural Mel Campus

Ativista dos direitos das travestis espera que a criminalização da LGBTfobia permita denúncias de agressões e violências

Cecília França
Rede Lume de Jornalistas

Mel Campus é uma força da natureza. Os gestos rápidos e a fala assertiva da atriz e produtora cultural foram construídos sobre uma história de dor e apagamento que ela reverteu em militância. A entrevista com ela inaugura o nosso Especial LGBTfobia.

Ativista dos direitos das travestis, Mel serve de inspiração para uma das populações mais privadas de direitos básicos entre os LGBT. Aos 43 anos, já superou em quase uma década a expectativa de vida desta população no Brasil, que se mantém em baixíssimos 35 anos. Tornar-se pública foi a saída encontrada por ela para reverter a violência que parece empurrar estes corpos dissidentes para a rotina de perigo e violência da prostituição.

“Independente de esquerda ou de direta, nunca tivemos o fascismo longe das nossas vidas”, declara Mel sobre as políticas pensadas pelos governos para as populações trans. E o apagamento começa dentro do próprio movimento, além de todos os estigmas sociais e da produção escassa de informação de qualidade sobre e para essas pessoas.

“Esta estrutura preconceituosa e excludente não nos aceita enquanto pessoas cidadãs. A não aceitação interfere muito na qualidade de vida, na saúde integral, no direito à família, à educação, segurança, cultura, e uma série de questões que nós sentimos a privação enquanto pessoas”, detalha.

A violência cotidiana enfrentada pelas travestis é muito maior quando comparada, por exemplo, à sofrida pelos homossexuais. Isso porque os corpos trans são tidos como fora do padrão aceitável socialmente. Mel relata uma situação ocorrida recentemente, no centro de Londrina, em que ela fazia uma performance na faixa de pedestres quando o semáforo fechava. De repente ela e sua produtora ouviram de um senhor “Podia abrir o sinal e passar um carro por cima pra matar isso daí”.

Situações como esta já feriram a atriz. Hoje, ela só lamenta pela falta de empatia e acredita que a criminalização da LGBTfobia pelo Supremo Tribunal Federal (STF) será benéfica. “Vai conter esse tipo de atitude, porque eu vou poder dizer ‘você está errado, eu tenho direito de viver, de existir, de trabalhar… O mesmo direito que você tem enquanto ser humano e como cidadão’”, defende.

A partir da criminalização Mel também enxerga maior possibilidade de denúncia formal por parte da população trans. “A gente vai poder fazer um B.O. (boletim de ocorrência) sem ser questionada, vai poder denunciar uma relação abusiva, um assédio moral na empresa. Vai poder denunciar um estupro e dizer ‘eu não queria ser estuprada’. Eu já sofri inúmeras violências que foram naturalizadas pelo fato de eu ser travesti”, lamenta.

Assista vídeo da entrevista

Mel em cena na peça Grazy Ellas. Foto: Eduard Fao

Vida noturna
Para que possamos mensurar o nível de violência a que as travestis sempre foram submetidas basta lembrar que elas começaram a andar na rua durante o dia em Londrina a partir da aprovação da Lei 8.812/2002, que passou a penalizar estabelecimentos e pessoas que constranjam ou ofendam outras em função de sua orientação sexual.

Por muitos anos, Mel andou com a lei impressa na bolsa e precisou usá-la para garantir sua permanência em lojas e outros estabelecimentos. Antes da lei travestis não tinham liberdade sequer para fazer compras sem sofrer constrangimentos e agressões.

“Essas pessoas que são excluídas do dia vão automaticamente viver a noite. Então esse universo em que as travestis são jogadas é muito particular, porque ainda existe esta exigência de enquadrar este corpo dissidente”, explica Mel.

Toda essa conjuntura restringe, ainda, o acesso ao mercado de trabalho formal. “Temos uma sociedade que questiona o universo da prostituição, que mata travestis por estarem lá, mas que fecha totalmente as portas para essas pessoas”.

Patologização
Apesar de a homossexualidade não ser considerada doença pela Organização Mundial da Saúde (OMS) há quase três décadas, a transexualidade só deixou de ser classificada como uma patologia, oficialmente, em 2018. No Brasil, ainda há projetos no Congresso que pretendem permitir a “cura” destas pessoas – algo defendido também por alguns psicólogos e que pode ser intensificado diante de um governo federal conservador como o atual e um presidente claramente homofóbico.

Nascida na década de 1970, quando o entendimento sobre a transexualidade ainda era mínimo, Mel sofreu com a patologização, tendo sido internada ainda na adolescência. Aceitar-se travesti foi, nas palavras dela, uma libertação.

“A autoaceitação é algo muito particular. Enquanto pessoa trans eu sempre soube quem eu não era, que aquele determinado papel dirigido às masculinidades não me pertencia. O que eu era não me era muito claro, porque eu não tinha informação sobre a transexualidade e as questões das identidades de gênero naquele momento”, relembra.

Mel Campus. Foto: Acervo pessoal

O estranhamento começou ainda na infância, quando ela não conseguia se enquadrar dentro de comportamentos esperados pela família. Com isso, surgiam afirmações como “Tem algo errado com esse menino”. “Eu sempre me entendi como uma pessoa e não como um menino”, explica Mel.

Já na vida adulta e ciente de sua travestilidade, Mel reuniu todo o aprendizado de uma vida forjada no apagamento para se tornar a ativista de hoje.

“A transfobia me fez militante; minha indignação de encontrar tanta gente disposta a dizer o que eu era, mas sem querer escutar o que eu tinha para dizer. Eu acabei entendendo que meu protagonismo era fundamental para questionar essa imagem das pessoas trans em Londrina e criar uma outra imagem dessa travesti, que é empoderadora, de beleza, de potencial. Quando a gente se coloca nesse processo de representatividade a gente cria acessos entre esta população e o restante da sociedade. Isso desmistifica, aproxima, faz compartilhar”, conclui.