A despedida tem trilha sonora?

Por Carlos Monteiro*

“La poesia tiene una comunicación secreta con los sufrimientos del hombre. Amar es breve, olvidar lleva tempo.” – Pablo Neruda

Fico imaginando a despedida com uma trilha sonora. Aquela sensação de falha, de perda. A impressão de já ir tarde ou de que não devia ter vindo. Prenúncio de Odete Lara, de tristeza e falta inevitável e inefável.

Alguns poetas descreveram, musicalmente, esta vereda desarmoniosa. São canções que, em algum momento, “ouvimos” num background imaginário, junto com a lágrima fugidia que disfarçadamente enxugamos, mas que insistiu em permanecer marejando sofridamente nosso olhar.

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‘Enquanto eu tiver forças, continuarei lutando’

Atuando na acusação de crimes contra mulheres ou cometidos por policiais, a advogada londrinense Nayara Vieira vê no direito a ferramenta para criar uma sociedade mais justa

Por Mariana Guerin*

“Adolescente, eu era muito encrenqueira, gostava de resolver o problema alheio. Talvez aí já me via meio advogada.” Revisitando sua juventude, a londrinense Nayara Larissa de Andrade Vieira, 28 anos, define como se deu sua escolha profissional. Atendendo clientes em penitenciárias e cadeias e assistindo na acusação de crimes contra mulheres, a advogada representa o frescor que as causas humanitárias precisam para driblar o sistema.

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Primeiros passos

Por Antonio Rodriguez*

Completamos 521 anos ontem
Não sei se comemoramos
Não existem motivos sinceros
Nada real para ser comemorado.
Mas vocês ainda são brancos.

Se vocês não podem comemorar
Eu sequer consigo existir
Sobreviver diariamente
Sem temer a minha morte
E isso não tem a ver com pandemias.

Genocídio já não é uma pandemia
Nem uma epidemia
Sequer o apocalipse
É a nossa rotina.

Ver tantos corpos negros
Preenchendo mais covas do que existem
E os jornais sequer nos expõem
Nem sequer em notas de rodapé
Se dignam a escrever nossos nomes.

Com síndrome de vira-latas
Nos vimos tão felizes em comemorar a condenação
De um porco que já devia estar morto.

Parece tão importante
Tão relevante ver apodrecer
Detrás das grades que tantos de nós
Que foram injustamente condenados
Apodreceram também.

Mas se lembrar
Que apenas 1 hora antes de lágrimas de alegria rolarem
Muitas mais lágrimas de tristeza caíram
Mancharam o solo da nossa mãe Terra
Como ácido caindo de nossos olhos
Completamente fermentados de ódio.

E uma semana
E um mês antes
E um ano antes
E uma década antes
E um século antes
E meio milênio antes.

Porque nós choramos há 500 anos.

E depois de 521 anos de história
Nós ainda estamos dando os primeiros passos
Aqui, nos EUA e por todo o globo
Os brancos ainda estão dando os primeiros passos.

E eu antes de dar meus primeiros passos
Já carregava o RG no bolso
Já sabia responder a polícia
E já tinha noção da violência que permearia minha vida.
Antes dos primeiros passos.

A branquitude dá os primeiros passos ainda, e por isso eu tive que aprender
desde cedo que eu não ia poder dar os meus passos.
São tantos primeiros passos que se acostumaram a pisar em corpos e não
escorregar em tanto sangue que eles já derramaram.
Sangue que mancha mãos e gerações, mas vocês juram que não é culpa sua,
mesmo eu sabendo que enquanto eu escrevia essa coluna e você estava
lendo, mais dois corpos pretos preencheram covas e nós nem sequer
saberemos seus nomes.

*Antonio Rodríguez,18, estudante e poeta nas horas vagas (e algumas ocupadas também). Apaixonado pela vida, faz o máximo para transformar tudo em poesia. Mantém o Instagram @a.poetizando.me

Falas machistas de professor motivam criação de coletivo feminista em universidade

Coletivo Carolina Maria de Jesus nasce com intuito de politizar e ser rede de apoio a mulheres no ambiente acadêmico

Cecília França

Foto em destaque: Perfil do CMJ no Instagram

No início desta semana, viralizaram trechos de uma aula do curso de Direito de uma universidade do interior paulista em que o professor dá exemplos machistas sobre casos de estupro e violência doméstica. As cenas ganharam a internet e mobilizaram estudantes da universidade a reagir com a criação do Coletivo Feminista Carolina Maria de Jesus (CMJ). O episódio também levou o Centro Universitário de Ourinhos (Unifio) a afastar o docente Fábio Alonso de suas funções.

A paranaense M.P., estudante da universidade, foi aluno de Alonso e afirma já ter presenciado falas machistas do professor em outras oportunidades. Para ela, o afastamento promovido pela universidade não é o suficiente, mas apenas “uma conquista dentro dessa batalha”. “Pelo menos respostas do mínimo, conseguimos. Mas o ideal é a demissão. Apoiaríamos o simples afastamento no caso de uma devida retratação em tempo, com pedido de desculpas e anseio de melhorar e se desconstruir junto com os alunos. O que não ocorreu”, declara.

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Mobilização nacional contra taxação do livro

Viradão da Leitura propõe 24 horas de leitura nas redes sociais

23 de abril é um dia muito importante para a área do livro e da leitura, pois é quando comemoramos o Dia Mundial do Livro e do Direito do Autor. Por isso, a data foi escolhida pelo “povo do livro” para uma mobilização de 24 horas de leitura nas redes sociais.

O objetivo é mostrar que nós, brasileiros de diferentes regiões e classes sociais, lemos e precisamos de mais investimentos do poder público para a área. Trata-se de uma mobilização nacional, um posicionamento da sociedade civil contra a proposta de reforma tributária do ministro Paulo Guedes, que prevê uma alíquota de 12% sobre os livros.

Na justificativa, o governo diz que o livro é um produto de elite, e que essas pessoas podem pagar mais caro. No entanto, como mostra a pesquisa Retratos da Leitura no Brasil, a classe C, além de leitora, é também consumidora de livros. Para se ter uma ideia, 27 milhões de brasileiros enquadrados nesse estrato social se declaram leitores.

A ideia do Viradão da Leitura surgiu em uma conversa entre a escritora e idealizadora do Projeto Kombina, Christina Dias, e o escritor e idealizador do Instituto de Leitura Quindim, Volnei Canônica. Já a identidade visual da mobilização e a frase “TODOS os brasileiros querem ler” foram criadas pela premiada ilustradora Mariana Massarani.

Clique aqui para ver o passso a passo de como participar do Viradão da Leitura:

Cai pela metade número de infrações cometidas por crianças e adolescentes em Londrina

Índice compara os anos de 2019 e 2020; em todo o Paraná também houve queda, de 27%, nos registros

Cecília França

O número de infrações cometidas por crianças e adolescentes em Londrina caiu pela metade em 2020, quando comparado a 2019. No ano passado foram 554 atos infracionais, enquanto no ano anterior haviam sido 1.103. O ritmo verificado na cidade supera a queda estadual, de 27% nos registros. Em todo o Paraná foram 13.342 infrações em 2020 contra 18.264 em 2019.

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Enterra de cego quem tem um olho errei

Por Carlos Monteiro*

O pior cego é aquele que não quer ver e ler, não quer ouvir a voz da razão. Nem todo aforismo se faz visível nas bandas de cá. O senhor da razão parece viver uma certa magia entorpecedora do “Senhor dos Anéis” que se foram. E os dedos?

Talvez não seja o melhor momento para filosofar, mas parece que estamos, atualmente, vivendo mergulhados em uma miscelânia literário-filosófica. Um misto de Gabriel García Márquez em “Cem anos de Solidão”, Milan Kudera em “A Insustentável Leveza do Ser”, “Ensaio Sobre a Cegueira” de José Saramago e “A República” de Platão com toques de Jean-Paul Sartre e Friedrich Nietzsche. Parece loucura? Talvez seja.

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Encontro da quarentena

Por Régis Moreira*

Quando cai a noite
Ela aparece pro nosso encontro
Tira-me do isolamento
Coloca-me em órbita
Dimensionando minha pequenez
Diante da sua grandeza
Meus breus
Perto de sua luz prateada
Meus vazios
Se comparado à sua fase cheia
E me enche de novos possíveis
Outros esperançares
Na renovação que me ensina

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Série: Ser professor na pandemia

Por Cecília França

Desde março de 2020 as escolas das redes públicas estão fechadas em Londrina como medida de contenção da pandemia da covid-19. O ensino remoto trouxe uma nova dinâmica à rotina dos professores, que precisaram se adaptar a novas tecnologias.

Nesta série, a Lume ouviu docentes das redes estadual e municipal de ensino sobre suas angústias, ansiedades e frustrações. No quarto vídeo, a professora Vanessa Cretuchi, que adentrou a um universo online criativo para atender seus alunos da melhor forma possível.

Acompanhe.

Os efeitos físicos e psicológicos da covid: ‘Parecia que o corpo estava minguando’

Pacientes que superaram a doença relatam os impactos em seus corpos e mentes; infectologista alerta para ineficácia do tratamento precoce e ressalta importância da vacina

Mariana Guerin

Foto em destaque: Pixabay

Até o último dia 15 de abril, o Brasil somava mais de 1,14 milhão de casos de covid-19 em acompanhamento pelo Sistema Único de Saúde (SUS). No total, até esta data, o País acumulava 13.746.681 casos da doença desde o início da pandemia em terras brasileiras, em fevereiro de 2020, sendo 365.444 mortos, segundo dados do SUS.

A região Sul, com uma população de 29,9 milhões de pessoas, registrou, de 27 de março a 15 de abril, data do último levantamento disponível no site do SUS, 12.774 novos casos da doença, acumulando um total de 2,6 milhões de casos desde o início da pandemia. Foram registrados 600 novos óbitos na região no período de 19 dias, somando um total de 55.193 mortes no Sul do País.

O Paraná, com uma população de 11,4 milhões de habitantes, já registrou 19.986 óbitos desde o início da pandemia. São 896.931 casos acumulados e 3.891 novos casos registrados pelo SUS de 27 de março a 15 de abril. Foram 271 mortes no período.

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