Quando a arte é a própria vida

A documentarista Coraci Ruiz captou o processo de transição de gênero do filho Noah no filme “Limiar”, uma aula de diálogo e acolhimento ao diferente

Por Mariana Guerin*

Fotos: Arquivo Pessoal

Ela cresceu num ambiente de contracultura onde muitos comportamentos eram naturalizados e quando se tornou mãe, viu seu mundo ser virado do avesso pela geração do filho mais velho, que veio para quebrar paradigmas e teve a coragem de assumir sua identidade não-binária aos 16 anos. Esta é a história da doutora em Multimeios pela Unicamp Coraci Ruiz, 43 anos, fundadora da produtora audiovisual Laboratório Cisco, sediada em Barão Geraldo, em Campinas.

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Sabe o que dói mais?

Por Antonio Rodríguez*

Sabe o que dói mais?
Eu queria falar de amor
Escrever um poema mais doce
Dia dos Namorados tá aí
Não custava nada.

Ou melhor
Custava!
Custava não matar mais um preto?
Atire em um e mate dois
É a nova promoção do mercado
O preço da carne tá subindo
Mas o meu tá ficando cada vez mais barato.

E a desculpa dos jornais
É sempre a mesma
Era um suspeito
Em uma troca de tiros
E a bala foi perdida
A autópsia do Brasil me diz
É só procurar em um corpo preto
A bala nunca está perdida
Só não tem interesse em ser achada.

E isso me estressa
Me leva a cuspir palavras de ódio
Pintar as letras com sangue
Da minha garganta arranhada
Dos meus dedos cansados.

Eu queria falar de Eros
Mas ele anda no morro fardado
Suas flechas com ponta de coração
São cápsulas com ponta de metal
Em vez de voar pela Grécia
Ele anda de camburão pelo Brasil
Ambos procurando a próxima vítima.

E ela podia ser Afrodite
Deusa da beleza e do amor
Mas acho que no mito eles confundiram
Trocaram duas vogais
Alva virou Alvo
E a história virou estatística
23 minutos
E no tic tac do relógio
A gente vê a estatística invadindo mais uma vida
E a entregando nas mãos de Caronte.

Nem adianta dizer que a gente tá cansado de falar sobre isso, ou que nós podemos falar sobre milhares, milhões de outros assuntos.
Enquanto nos negam até o direito à vida, qualquer outra coisa parece banal, fútil e inútil. Nem nascer nós podemos mais.

A, e um Feliz Dia dos Namorados.

*Antonio Rodríguez, 18, estudante e poeta nas horas vagas (e algumas ocupadas também). Apaixonado pela vida, faz o máximo para transformar tudo em poesia. Mantém o Instagram @a.poetizando.me

Divina comédia humana, ou não

Por Carlos Monteiro*

O Rio está se tornando numa “Divina Comédia” de Dante Alighieri. Poesia dividida em trinta e quatro cantos cada – divisão usada em de longas odes e uma delas, exatamente ‘O Inferno’, tem uma a mais, que lhe serve de introdução – e três partes: ‘O Inferno’ é a primeira delas, sendo as outras duas ‘O Purgatório’ e ‘O Paraíso’.

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O vírus do autoritarismo

Por Paula Vicente e Rafael Colli*

O autoritarismo é uma doença. Um vírus que, como o coronavírus, entra pelas vias respiratórias do Estado, se replica e, célula por célula, toma todo o organismo governamental. Quando a sociedade se dá conta, o corpo social está internado, intubado, morto.

É assim. Tudo começa com uma ideia viral, fácil de se transmitir: um inimigo. Esse estereótipo de inimigo sempre permeou a sociedade – e normalmente são os mesmos. Os comunistas, a população negra, os estrangeiros, os “menos civilizados”. Uma vez forjado o inimigo, basta que se desenvolvam discursos simplórios, que também são facilmente transmissíveis, para legitimar a cura, o tratamento precoce, como poderíamos assim chamar: a violência estatal.

Com a institucionalização da violência como única forma de combate ao inimigo escolhido, o verdadeiro inimigo se fortalece e toma o sistema estatal por completo, levando ao fim já comentado.

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Amor, Amar

Por Antonio Rodríguez*

Você já disse eu te amo hoje?
Um eu te amo sincero
Do fundinho mais quente do coração?

Aliás, em meio ao caos
Você já se permitiu amar?

Pura e simplesmente amar
Sem ter medo em meio ao mundo de Phobos
Se permitir ser livre dentro do seu coração
Sem nenhuma quarentena para nos cercear.

Seja online
Ou dividindo o mesmo teto
Diga que você ama alguém
Declame seu amor pela janela
Como uma poesia aos céus
Afagando as saudades
E afogando sentimentos com doçura.

Se permita amar um pouquinho
Ou muito
Sem limites
Como a expansão do universo.

Apenas ame
Se ame
Ame o mundo
A natureza
Pois os humanos são difíceis
Mas ame.
Acima de tudo, ame.

Divida, com leveza, o peso de viver neste mundo
Compartilhe seu coração
Estenda as mãos ao amor
E se entregue por inteiro.

Abrace
Beije
Se entregue
Guarde seu amado dentro de uma caixinha
E desfrute eternamente de seu amor.

Quebre a cara
Se iluda um pouquinho
Sonhe acordado numa manhã de sexta-feira
Viva em um mundo dos sonhos
Onde perfumes guiam caminhos
Toques levam a loucura
E o desejo é o único guia.

Afinal
Se eu amo
Tu amas
Ele ama
Nós amamos
Vós amais
E eles amam.

Vamos amar um pouco, acho que todo mundo precisa se lembrar disso de vez em quando em meio a esse caos chamado Brasil.
Mas me promete, depois de ler essa coluna, que você vai falar que ama alguém?
Porque eu, você e o mundo precisamos de um pouco (MUITOOOOOO) mais de amor.

*Antonio Rodríguez, 18, estudante e poeta nas horas vagas (e algumas ocupadas também). Apaixonado pela vida, faz o máximo para transformar tudo em poesia. Mantém o Instagram @a.poetizando.me

Mês do orgulho LGBTIA+: Basta de genocídio! Parem de nos matar!

Por Régis Moreira*

Junho é o mês em que se convencionou chamar de Mês do Orgulho LGBTIA+ (Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis, Transexuais, Intersexuais, Assexuais e outres mais). Desde a revolta de Stonewall, que ocorreu em 28 de junho de 1969, em que um grupo liderado pelas travestis Marsha P. Johnson e Sylvia Rivera lideraram um levante contra os regimes de opressão, em Nova York, nos Estados Unidos. O levante de Stonewall não foi exclusivamente LGBT, mas reuniu pautas fundamentais de luta como o Movimento Sindical, os Panteras Negras, o Movimento Contracultural, entre outros. Uma ampla aliança política por aqueles que vinham sendo mortos e oprimidos pelo capitalismo necropolítico de extermínio. Não dá para pensar em avanços das pautas LGBTIA+, sem considerarmos as interseccionalidades das pautas que atravessam os corpos, os direitos, as vidas, as políticas. Os processos de higienização e extermínio, calcados nos padrões colonizadores, estigmatizadores, higienizadores.

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Aforismos Premonitórios

Por Carlos Monteiro*

Os bons conselhos, em forma de frases ou expressões, são desde sempre usados para exemplificar atitudes e possibilidades, mas, será que na realidade, são de fato úteis? Será que na hora do pega pra capar, na casa do ferreiro, o espeto é mesmo de pau? Melhor que seja; ferimento de ferro deve ser bem dolorido. Esperar é sinônimo ou antônimo de alcançar? Nessa espera o tempo tem sido mesmo o senhor da razão? Andam dizendo que todos os caminhos levam a Roma, mas, para chegar até ela, não é necessário ter boca ou devemos vaiá-la? Bons provérbios espalham ramas pelos chãos? E os burros; devemos correr, até onde o Judas perdeu suas botas, ao vê-los fugidos? Toda obra de arte deveria ser esculpida em Carrara? Quem não chora, não mama, mas, e se o leite estiver derramado; reclamamos com o Papa ou com o Bispo. No Rio de Janeiro, é melhor ir ao Vaticano, afinal, dizem que santo de casa não obra milagres.

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‘Sem cultura, as pessoas são como vírus soltos no mundo’

Aposentada, a técnica em química Silvia Borba realiza o sonho de se tornar cantora e realiza lives para captar recursos para gravar seu primeiro CD

Por Mariana Guerin*

Ouvir Silvia Borba cantar é reconhecer em si uma humanidade guardada a sete chaves. É desnudar lembranças e ressignificar tristezas do passado pela melodia. Não à toa, suas interpretações de clássicos do cancioneiro nacional nos fazem parar e admirar. Estar presente para refletir e só depois retomar a dura rotina.

Viúva, mãe de três filhos, um deles morto aos 19 anos, Silvia Borba cresceu em Recife há 58 anos, em uma família de muitos filhos: ela tem três irmãos por parte do pai e sete por parte da mãe. “Minha infância foi muito sofrida, de muitas privações e muita necessidade”, lembra a técnica em química, que sempre viveu no bairro Mangueira, na periferia da capital pernambucana.

Por conta da dureza da realidade, o relacionamento familiar nunca foi muito bom. E hoje, morando em Londrina, ela se vê ainda mais afastada dos irmãos depois da morte da mãe. “Meus irmãos não falam comigo porque minha mãe escolheu vir morrer comigo”, confessa.

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Quem conta um conto conta dois

Por Carlos Monteiro*

Atualmente, como também comentou a querida jornalista Cecília França da Rede Lume de Jornalistas, contamos os contos de réis, de reais e os vinténs, contamos até os centavos do porquinho.

Aos sons dos bandolins e das gargalhadas. Tenho um amigo engenheiro, dono de uma pequena construtora soteropolitana. Amizade feita em nossos tempos de Ceará. Ele baiano, eu carioca. Surtia bom papo nos bares que frequentávamos. Tínhamos um grupo, às quartas à noite, que se encontrava no Boteco da Antônio Sales, xadrez de azul bebê e branco nos azulejos,  para uma conversa fora e um chope dentro, tudo regado a rodadas de deliciosas empadas de palmito, que voavam sobre nossas cabeças, oferecidas pelos garçons. Uma espécie Belmonte, aliás, creio que o de cá copiou o de lá.

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