Se essa rua fosse minha II

Por Carlos Monteiro*

Uma fezinha no Barão de Drummond forma o bloco de logradouros animalescos: caminho dos Cachorros em Senador Camará, rua do Papagaio em Inhoaíba, beco das Sardinhas no Centro, rua dos Periquitos na Pavuna, travessa Jacaré no Jacarezinho, rua das Borboletas em São Cristóvão, rua do Pirilampo e da Fragata na Curicica, estrada do Focinho de Porco na Itaóca, rua do Pavão e do Avestruz em Campo Grande, rua Onça de Pitangui, da Onça Pintada e do Lagarto em Campo Grande, rua da Gaivota no Galeão e Inhoaíba, rua Gavião no Galeão, rua das Caravelas no Jardim Guanabara, rua do Colibri na Taquara e em Todos os Santos. Estrada do Biguá no Alto da Boavista, rua Ilha das Cobras nos Bancários e rua Galo Branco no Jardim Guanabara, ambas na Ilha do Governador, rua Galo da Serra na Cidade nova, rua Ilha do Veado em Piratininga, rua do Javali em Vilar dos Teles… é bicho que não acaba mais, um zoológico completo. No bicho do futebol, seria uma vaquinha.

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Se essa rua fosse minha

Por Carlos Monteiro*

Conversando com a minha querida Celina, que eu chamo, carinhosamente, “Dama Ramalhete”, viúva do saudoso e inesquecível cantor-poeta Tavito, que colhia a pimenta e o sal com magnitude gigantesca e plantou muitos amigos do peito e nada mais, sobre as músicas que ele compôs, seus significados, suas histórias, suas mineirices e fontes de inspiração, bem como minha curiosidade sobre alguns temas e porandubas. Papo foi, papo voltou alegremente, com histórias sensacionais de nosso amigo, ela me passou um depoimento, lírico e emocionante, do seu [Tavito] mais constante parceiro nas obras musicais, Ney Azambuja, sobre as narrativas de várias composições. Como nasceram, quem foi a musa inspiradora ou a fonte onde beberam, em que momento aconteceram, e por aí vai… Isso ficou parecendo abertura do “Globo Repórter”. Todas de muito sucesso, uma delas, “Rua Ramalhete”, Sem querer fui me lembrar/De uma rua e seus ramalhetes/ Do amor anotado em bilhetes/Daquelas tardes//No muro do Sacré-Coeur…”, uma volta a adolescência de todos nós, gravada em versão até para o japonês, ficou imortalizada na voz do próprio autor e em interpretações memoráveis de um número enorme de bardos. Um deles, Wando, e sua polêmica em relação aos Beatles virem ou não ao Brasil. Mudou a letra de “…será que algum dia eles vêm aí, cantar as canções…”, para “…pois sei que eles jamais virão aqui, cantar as canções…”. Wando, fogo e paixão, era um romântico-rebelde incurável.

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Sem papas na língua (final)

Por Carlos Monteiro*

Está tudo muito bom, está tudo muito bem, mas já “anda pela hora” concluirmos esta crônica, afinal estamos no quarto capítulo, ainda que exista uma infinidade de expressões, julgo, que “já deu o que tinha que dar“; meus fiéis onze leitores já estão fartos de tanto lero-lero, como disse certa vez, Vicente Matheus, quando estava presidente do Corinthians, referindo-se ao jogador Biro-Biro.

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Sem papas na língua III

Por Carlos Monteiro*

Sem mais delongas, continuamos com as explicações de Luís da Câmara Cascudo, o homem que estampou a nota de cinquenta mil cruzeiros ou, como era conhecido em Natal, “o homem que sabe tudo” – reconhecido merecidamente -, acerca das expressões que ouvimos diariamente, mas, na maioria das vezes, não temos noção de como se formaram ou por que parecem sem sentido dentro da lógica óbvia.

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Sem papas na língua (continuação)

Por Carlos Monteiro*

Só quando passamos a pesquisar as expressões brasileiras é que nos damos conta do quão vasto é este universo. Câmara Cascudo escreveu um livro com mais de 340 páginas sobre o tema – “Locuções tradicionais no Brasil”. Eduardo Salles Pimenta, em “A Casa da Mãe Joana”, decupou a temática em dois volumes que somados chegam a quase 550 páginas. São tantas que dá para separar por temas distintos. “Caminhemos, talvez nos vejamos depois”.

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Sem papas na língua

Por Carlos Monteiro*

Depois da crônica “Aforismos Gastronômicos”, nosso querido Romildo Guerrante, por meio das Cartas Modernas, suscitou a seguinte afirmação em um tom de reprovação: “Experimente ‘sopa no mel’ e depois me conte de onde pode ter saído essa esdrúxula expressão para significar algo muito bom…”. Realmente, não havia raciocinado a respeito; se ainda fosse mel na sopa… O contrário, realmente é algo bem exótico, estranho que causa uma certa repulsa. Isso para ser delicado com meus amados onze fiéis leitores.

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Delirius Manducare

Por Carlos Monteiro*

Dias atrás conversava com o jornalista e escritor Eduardo Reina. Ele se preparava para um exame e precisava ficar dois dias em completo jejum. Aquelas histórias que não sabemos exatamente se é uma auditagem corpórea, prova para faquir ou penitência pelos pecados cometidos em relação à gula. No dia seguinte, horas intermináveis, Reina me confessou que estava tendo delírios com comidas, sentia os aromas, aguava a boca e prendia o fôlego. Enxergava à sua mesa um belo filé à milanesa, acompanhado de salada russa, ali no Café Lamas, mesmo estando em São Paulo. Teve um delirium Manducare e assim ficou até conclusão da averiguação. Uma tortura.

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Antiguidade é posto

Por Carlos Monteiro*

Já fotografei a Cidade Maravilhosa de todos os ângulos, em todos os seus aspectos grandiosos, em todos os dias, horários e estações do ano. De cima, de baixo, de lado, de frente ou fundos, subaquático, como escafandrista e à flor d’água como ‘remador’. Dos céus, sobre a cidade, no topo dos prédios, lajes beirais e telhados, alpinista de pedreiras, montanhas, pedras e pedregulhos, dependurado em antenas, postes, árvores e tudo mais que deu para subir. No calor da imagem perfeita, é sempre tarefa fácil. Tripé nas costas, junto a mochila, mosquetões segurando a câmera ao peito para que não saia esbarrando em tudo e cause uma possível avaria vou eu. Nessas horas o medo não existe e a sensação é de vitória.  

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Janelas são espelhos d’alma

Por Carlos Monteiro*

Depois das portas abertas e fechadas e a saída definitiva daquele tapete maltrapilho e maltratado para não mais voltar, guardado em algum lugar do passado, obsoleto objeto adjeto a tantas lembranças que já são brumas. Após a limpeza das gavetas atulhadas de quinquilharias, tralhas, cacarecos, fundos falsos das ilusões perdidas. Pilhas e baterias, já sem carga, que não alimentam mais nenhum prazer e já não guarnecem aquele deleite noturno, nos alvos sudários imaculados, novos sugadores da agonia notívaga, noctâmbula paixão.

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