Noutras palavras

Por Carlos Monteiro*

Ainda em terras lusas, pelo menos no pensamento, me apercebi o quanto temos diferenças em nossa língua. Nossa pronúncia é a mesma que Pedro Álvares Cabral bradou: ‘terra a ’vissssta’. Quase um sotaque paulistano arrastado nos ‘esses’. Mantivemos um arcaísmo, embolorado para nossos pares além’ar. A ‘Flor de Lácio’ brasileira é uma mistura de línguas indígenas, dialetos vindos de África, trazidos por seres humanos escravizados e, obviamente, português, óh pá! A questão maior é que muitas palavras têm significados completamente diferentes nos países lusófonos, nomeadamente entre Brasil, Portugal e Angola. Parece que não, mas é possível não se entender patavina de uma conversa entre um português e um brasileiro e vice-versa.

Continuar lendo “Noutras palavras”

A despedida tem trilha sonora?

Por Carlos Monteiro*

“La poesia tiene una comunicación secreta con los sufrimientos del hombre. Amar es breve, olvidar lleva tempo.” – Pablo Neruda

Fico imaginando a despedida com uma trilha sonora. Aquela sensação de falha, de perda. A impressão de já ir tarde ou de que não devia ter vindo. Prenúncio de Odete Lara, de tristeza e falta inevitável e inefável.

Alguns poetas descreveram, musicalmente, esta vereda desarmoniosa. São canções que, em algum momento, “ouvimos” num background imaginário, junto com a lágrima fugidia que disfarçadamente enxugamos, mas que insistiu em permanecer marejando sofridamente nosso olhar.

Continuar lendo “A despedida tem trilha sonora?”

Enterra de cego quem tem um olho errei

Por Carlos Monteiro*

O pior cego é aquele que não quer ver e ler, não quer ouvir a voz da razão. Nem todo aforismo se faz visível nas bandas de cá. O senhor da razão parece viver uma certa magia entorpecedora do “Senhor dos Anéis” que se foram. E os dedos?

Talvez não seja o melhor momento para filosofar, mas parece que estamos, atualmente, vivendo mergulhados em uma miscelânia literário-filosófica. Um misto de Gabriel García Márquez em “Cem anos de Solidão”, Milan Kudera em “A Insustentável Leveza do Ser”, “Ensaio Sobre a Cegueira” de José Saramago e “A República” de Platão com toques de Jean-Paul Sartre e Friedrich Nietzsche. Parece loucura? Talvez seja.

Continuar lendo “Enterra de cego quem tem um olho errei”

Aleluiah

Por Carlos Monteiro*

Malhar o Judas – são muitos necessários atualmente, em todas as esferas – era uma diversão sem fim na minha adolescência. Passávamos a quinta-feira, no subúrbio carioca do Engenho de Dentro, Zona Norte da cidade, onde moravam meus avós, juntando trapos, calças velhas, sacos de estopa e aninhagem, material para enchimento e tudo mais que rendesse um bom boneco-representante de algum “desafeto”.

Continuar lendo “Aleluiah”

Gentileza gera mais amor, por favor

Por Carlos Monteiro*

O Profeta Gentileza e sua delicadeza em flores astrais, físicas e espirituais, distribuídas e semeadas, ao longo de anos, pela Cidade Maravilhosa e em terras de Araribóia, foi telúrico, metafórico e visceral. Mostrou ao Rio de Janeiro que, se quisermos “Celacanto não provoca maremoto”, não provoca sismos, não provoca guerras. Muito pelo contrário, a gentileza é agente provocadora de paz e gratidão… era José Agradecido e enobrecido, pura ternura.

Continuar lendo “Gentileza gera mais amor, por favor”

Os sons do silêncio, um amigo que nunca trai

Por Carlos Monteiro*

Antes da proliferação do ‘home office’, que, ao que tudo indica, veio para ficar, os sons nossos de cada dia se limitavam ao liquidificador-triturador, poderoso, da vizinha do terceiro andar. Moça faceira, extremamente simpática e gentil, daquelas que vai para academia diariamente, anda de ‘bike’ e é chegada a uma comida natureba, leia-se vegetariana saudável. Pontualmente às 6h, como um marcador de tempo compassado de amor, lá vinha o som. Com certo ritmo, tinha até uma melodia. Era, como me confessou um dia, o seu “detox matinal”, tomado em jejum. Uma ‘mistureba’ de ingredientes, alguns impronunciáveis, cuja receita fez questão de me ofertar, indicando uma vida mais saudável.

Continuar lendo “Os sons do silêncio, um amigo que nunca trai”

Trezentos e sessenta e cinco longos dias

Por Carlos Monteiro*

Foram 12 meses, 8.760 horas, 525.600 minutos ou 31.536.000 segundos de isolamento, após a determinação, no Rio de Janeiro, em 17 de março de 2020, da quarentena que deveria perdurar 15 dias – até nisso o Brasil é diferente -, decretada pelo então governador do estado.

Continuar lendo “Trezentos e sessenta e cinco longos dias”