‘Mamãe é militante’

Elas aliam a difícil tarefa da maternidade à defesa pública de seus ideias de justiça e solidariedade, para que todas, todos e todes – inclusive seus filhos e filhas – possam vivem em um mundo mais igualitário

Cecília França

Foto em destaque: Ana Carolina com a filha Iara na Marcha das Vadias, em Londrina. 2016. Arquivo Pessoal

Ser militante exige disposição, disponibilidade, tempo. Aliar a militância ao exercício da maternidade, cujas exigências muitas vezes extrapolam os limites do corpo e da mente, é um desafio imenso que mulheres enfrentam em nome de um futuro melhor para o coletivo. Para Ana Carolina Franzon a causa de seu ativismo surgiu justamente na gravidez da filha, Iara.

“Me formei em jornalismo grávida da Iara. Comprei uns 12 livros sobre gestação e parto natural e fiquei me dedicando a isso. Sendo uma gestante brasileira de classe média, branca, altamente escolarizada, eu tinha grande chance de ser submetida a uma cesárea. Fui em busca de um médico que pudesse me acompanhar em um parto o menos medicalizado possível. No final das contas tive uma experiência de parto muito boa e comecei a estudar essa experiência no Brasil”, relembra.

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‘Só vou ficar bem se ajudar’

Ser mãe e pai é a herança familiar da rapper Rita de Cássia Lemos Barbosa, a MC Potyra, que canta a luta das mulheres amigas do Vista Bela em suas letras

Por Mariana Guerin*

Mãe de cinco, avó aos 34 anos, “mãe” dos gatinhos Polaca e Khal-El e do cãozinho Jughead. Voluntária que ajuda incansavelmente 40 famílias carentes do Residencial Vista Bela, em Londrina, mesmo com as dores constantes no corpo, resultado da fibromialgia. Rapper, pregadora, meio indígena, meio cigana. E dorameira nas madrugadas. Esta é Rita de Cássia Lemos Barbosa, a MC Potyra, de 38 anos.

Sua história em terras paranaenses começou aos nove anos, após a separação dos pais, que moravam em Salto, no interior paulista. “Foi uma mudança brusca. Viemos morar na casa da minha vó materna, eu, minha mãe e meus três irmãos. Meu irmão mais novo tinha apenas quatro anos”, lembra Rita, que estranhou o clima, o sotaque e a nova escola.

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‘Eles combinaram de nos matar, mas nós combinamos de não morrer’

Por Régis Moreira*

A necropolítica, a partir de minha livre interpretação das reflexões de Achille Mbembe, é instaurada e sistêmica contra corpos dissonantes: indígenas, afrodescendentes, idosos, crianças, pobres, latinos, pessoas com deficiência, mulheres, LGBTIA+, Queer… As políticas de extermínio matam esses corpos de diversas formas. As interseccionalidades de subalternização, quando somadas, sobrepostas, aumentam o potencial de vulnerabilização destes corpos. Assim nos matam com mais facilidade, com mais ódio. Os índices de violência dizem sobre isso. Quem são os inimigos internos e externos destes territórios devastados?

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Quantos corpos se vão, em vão?

Por Antonio Rodriguez*

Com o fuzil na mão
Apontado no rosto de uma mãe
Que quer saber
Onde deita eternamente em berço esplêndido
Seu corpo sem vida banhado em sangue.

25 famílias com um membro a menos
Preciso citar que a maioria era negra?
Acho que já se sabe
Não há mais como fechar os olhos
Fingir que não vê o plano genocida.

Não é uma pandemia
É uma pandemia
Tempo de vida estimado: 500 anos
Vírus causador: Racismo
Número de mortos: Incontáveis.

Não é como se fosse novidade
Mas a cada dia os números são maiores
Lágrimas não formam mais rios nem mares
São oceanos
Oceanos que lavam as ruas
Deixando-as livres de sangue.

A cada 23 minutos
Uma mãe preta chora em luto
Um corpo que se foi sem tributo
Da realidade, o soco é bruto
Dias das mães em enterros
Ou algum outro será diferente?

Quantos corpos se foram
Quantas vezes a lei natural foi quebrada?

Quantas mães choram
E vão chorar antes que chegue o dia
Em que elas seriam celebradas
Mas mesmo com 3 filhos
Não sobrou nenhum para rir com ela.

Caminhos cheios até o cemitério
Covas tão cheias
Em contraste a cartuchos vazios
Pessoas vazias comemorando mortes. 

Parece entretenimento
Todo dia um corpo preto morto
Estampando jornais
Corpos brancos sem direito a vida
Se regozijando com as manchetes.

Tudo se resume a um plano secular
Quanto menos de nós existirem
Melhor o mundo será para os outros
E é cansativo ainda estar vivo para ver tantos irmãos mortos.

Quantas famílias destruídas em vão? Quantos corpos empilhados sem motivo.
Parecia ser só mais um dia, só mais um dia de luta, mas já é comum para nós. Mas porra, é difícil pra caralho ver corpos iguais aos seus mortos, ruas lavadas de sangue, meu sangue, despejados nas ruas, provando qual o valor da minha carne.
A carne mais barata do mercado.
Como deitar a cabeça no travesseiro sabendo disso?

*Antonio Rodríguez, 18, estudante e poeta nas horas vagas (e algumas ocupadas também). Apaixonado pela vida, faz o máximo para transformar tudo em poesia. Mantém o Instagram @a.poetizando.me

Operação policial deixa ao menos 25 mortos no Rio de Janeiro

“Operação Exceptis” começou na manhã desta quinta (6) e se estende pela tarde. “Polícia e governador estão pouco se lixando para liminar do STF que proíbe ações”, diz coordenador da Iniciativa Direito à Memória e Justiça Racial

Conteúdo da Ponte Jornalismo

Beatriz Drague Ramos e Jeniffer Mendonça

Foto em destaque: reprodução de postagens de moradores nas redes sociais

Uma operação da Polícia Civil do Rio de Janeiro deixou ao menos 25 mortos na favela do Jacarezinho, na zona norte da capital fluminense, na manhã desta quinta-feira (6/5). Segundo o G1, o policial civil André Leonardo de Mello Frias foi baleado na cabeça e outras 24 pessoas morreram durante a ação. Ao menos dois policiais civis e dois passageiros que estavam dentro do vagão da linha 2, altura da estação Triagem do metrô, também foram feridas durante os disparos.

À Ponte, a MetrôRio informou que um passageiro foi atingido por estilhaços de vidro e outro atingida de raspão no braço, mas foram socorridos pelo Samu. Um dos moradores relatou que presenciou duas pessoas sendo mortas dentro da casa onde mora com a avó durante a perseguição policial e que houve invasão de residências. “O respeito com os moradores nunca tem, isso é uma população, mas acho que eles pensam que estão no Iraque”, disse ao G1. “Havia dois helicópteros que davam tiros”, disse um morador à Ponte, que saía da casa de um familiar no momento em que a ação começou. “A gente recebeu denúncias de moradores de corpos caídos em cima das lajes, os policiais não deixando serem retirados”, prosseguiu.

Imagem publicada no site Ponte.org mostra que um homem foi morto sentado em uma cadeira
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MC canta a dor de perder amigos, todos mortos pela Polícia

João Gabriel de Souza Francisco, o MC GS da Rima, defende protestos pacíficos e conscientização

Nelson Bortolin

“Hoje lágrimas cai, Londrina justiça implora.

Zona Norte se revolta e a favela toda chora.

Lucas Elias da Silva, mais uma vida cedida.

Podem falhar a justiça dos homens,

Mais sei que não falha a Justiça divina,”

Os versos são do jovem paulista João Gabriel de Souza Francisco, 22 anos, o MC GS da Rima. Durante um ano, ele morou na zona norte de Londrina, tempo suficiente para acompanhar a morte de vários amigos em supostos confrontos com a Polícia.

“Aí dona Drih. Sei que sua casa já não é como antes. Sei que, no Aquiles, as lembranças é constante. Saudades menor, eterno Gabriel Rodrigo Arantes.”

Por meio do funk, o MC vai homenageando amigo por amigo.

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Noutras palavras

Por Carlos Monteiro*

Ainda em terras lusas, pelo menos no pensamento, me apercebi o quanto temos diferenças em nossa língua. Nossa pronúncia é a mesma que Pedro Álvares Cabral bradou: ‘terra a ’vissssta’. Quase um sotaque paulistano arrastado nos ‘esses’. Mantivemos um arcaísmo, embolorado para nossos pares além’ar. A ‘Flor de Lácio’ brasileira é uma mistura de línguas indígenas, dialetos vindos de África, trazidos por seres humanos escravizados e, obviamente, português, óh pá! A questão maior é que muitas palavras têm significados completamente diferentes nos países lusófonos, nomeadamente entre Brasil, Portugal e Angola. Parece que não, mas é possível não se entender patavina de uma conversa entre um português e um brasileiro e vice-versa.

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Feminicida de Sandra Mara Curti será julgado em agosto

Família vê com certo alívio celeridade do processo e espera condenação de Alan Borges com pena máxima

Cecília França

Texto atualizado em 05/05 às 13h15

Foto: Reprodução Facebook

Foi com certo alívio que Luiza Maria Curti recebeu a informação de que o julgamento de Alan Borges, feminicida de sua irmã Sandra Mara Curti, fora marcado para o dia 18 de agosto. Diante da lentidão do desfecho de outros casos semelhantes, ela vê como privilégio o rápido trâmite do processo.

“Em questão de outros feminicídios e tentativas foi o mais rápido até agora. Quando for o julgamento vai dar 1 ano e 1 mês que ele matou minha irmã. Me sinto aliviada por um lado, porque tenho certeza que vai ser feita justiça”, diz ela. Borges matou Sandra, sua ex-esposa, com 22 facadas no dia 6 de julho de 2020. O crime foi cometido na frente dos filhos do casal, de 12 e 8 anos na época.

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Rede de supermercados reconhece surto de covid-19 em loja de shopping

Muffato chegou a tratar como fake news informação sobre funcionários contaminados; Ministério Público recomendou retificação

Da redação

A direção do Super Muffato Aurora, localizado no Aurora Shopping, em Londrina, acatou decisão do Ministério Público do Paraná (MPPR) e retificou uma nota publicada em 26 de março, na qual negava a ocorrência de surto de covid-19 na unidade, atendendo recomendação da 24ª Promotoria de Justiça de Londrina e do Ministério Público do Trabalho (MPT).

A partir da Procuradoria do Trabalho no Município foi encaminhada recomendação conjunta ao responsável pela unidade para que “promova, urgentemente, a retificação da Nota de Repúdio ao uso de fake news, especificamente no ponto em que negou a ocorrência de surto de Covid-19” na loja do Aurora Shopping. A Vigilância Sanitária confirmou a ocorrência de surto no estabelecimento.

Segundo o documento, a retificação deve conter explicações sobre o teor da Nota Orientativa 55/2021, da Sesa (Secretaria de Saúde do Paraná), que preconiza que surtos da doença se configuram “pela ocorrência de pelo menos três casos confirmados de Covid-19 por RTPCR em tempo real associado a reuniões, coletividades e comunidades fechadas ou semifechadas, com vínculo temporal, ou seja, casos que ocorreram em menos de 14 dias entre eles”.

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Segunda dose da Coronavac em Londrina será com 28 dias

Cerca de 960 londrinenses já podem agendar segunda dose a partir de hoje; próxima etapa será vacinar portadores de comorbidades

Mariana Guerin

A Prefeitura de Londrina atualizou o prazo para cadastro dos londrinenses que devem tomar a segunda dose da vacina Coronavac de 21 para 28 dias, conforme previsto pela recomendação do Instituto Butantan. Segundo o secretário municipal de Saúde, Felippe Machado, o sistema municipal de cadastro havia sido interrompido durante o fim de semana para ajustes, mas foi liberado a partir das 5 horas desta terça-feira e já está funcionando para pessoas que atingiram os 28 dias de espera entre a primeira e a segunda doses da Coronavac.

“Estamos trabalhando com o estoque municipal, já que faz quatro semanas que a cidade não recebe doses da Coronavac. Como o Butantan já retomou a produção da vacina, esperamos receber novas doses até a próxima quinta-feira para dar sequência à vacinação na cidade”, comenta Machado.

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