Cesta básica se aproxima dos R$ 500 e deve subir ainda mais

Preços da carne e do leite devem aumentar nos próximos dois meses dificultando ainda mais a alimentação adequada das famílias carentes

Cecília França

A cesta básica de alimentos custou R$ 495,06 para uma pessoa em Londrina no mês de maio, segundo pesquisa mensal realizada pelo Núcleo de Pesquisas Econômicas Aplicadas (Nupea). O resultado representa aumento de 1,9% em relação ao mês anterior e 19,25% frente a maio do ano passado. Para uma família de quatro pessoas o preço da cesta foi de R$ 1.485,17.

Dos 13 itens pesquisados, oito apresentaram aumento, especialmente açúcar (9,6%), leite (9,2%) e feijão (7,5%). A carne, que teve acréscimo de 3,7%, representou quase 50% do custo total da cesta em maio (49%). A carne pesquisada desde o início da série histórica, em 2003, é o coxão mole bovino, item que desapareceu das casas de muitas famílias de baixa renda.

Caso de Daniele Taveira dos Santos, 42, moradora do Vista Bela e mãe de cinco filhos, o mais velho de 19 anos e o mais novo de apenas 11 meses. A família vive com os R$ 398 do Bolsa Família, valor insuficiente para comprar alimento, roupas e pagar as contas da casa. “Você vai no mercado com 100 reais e volta com uma sacolinha pequena. Eu recebo ajuda da Amvibe (Associação Amigas do Vista Bela) ou cesta básica da igreja. Mas me aperta muito, na questão da bebê, por exemplo, preciso de fralda, leite. As crianças nem sempre tem uma bolacha, uma coisa diferente para comer”, relata.

Segundo Daniele, “carne ficou no passado”. “Quando sobra um dinheirinho compro uma coisa mais barata, um franguinho, mas carne vermelha faz tempo que não vejo”.

A dona de casa conta que um problema na coluna, há três anos, a fez parar de trabalhar e ela acabou não retomando as atividades por não com quem deixar os filhos. No ano passado, o Auxílio Emergencial do Governo Federal ajudou a família, possibilitando que ela comprasse o enxoval da bebê. A dona de casa vê a necessidade da manutenção de algum benefício semelhante para as famílias nesse momento.

“Como emprego está complicado, poderia ter algum benefício, alguma renda para estar ajudando. Tem muita gente sem renda nenhuma. Tem famílias que está o marido desempregado, esposa desempregada. Já aconteceu de eu dividir o pouco que eu tenho com essas famílias”, conta Daniele.

A atual rodada do auxílio emergencial será encerrada em julho e o valor do benefício este ano é mais baixo que no ano passado, variando de R$ 150 a R$ 375 por mês.

Rita de Cássia Lemos, ativista da Amvibe, auxilia inúmeras famílias desde o início da pandemia, mas ela mesma sofre a privação de alimentos. “Não tenho tido esse privilégio da carne vermelha, no máximo um frango e, quando muito, um porco. Na maioria das vezes são os legumes e, mesmo assim, nem para o ovo, que muitos desdenhavam, a gente está tendo”, comenta.

Novos aumentos

O economista Marcos Rambalducci, coordenador do Nupea, explica os aumentos do leite e da carne bovina. De acordo com ele, tanto o gado de leite como o de corte ficaram sem pastos antes mesmo do início do inverno, época de entressafra. “Esse gado teve, ou que ir para confinamento, ou receber suplemento alimentar a base de soja e milho. Com a alta nesses insumos, o custo para o produtor aumentou significativamente e por consequência, o repasse (ao consumidor)”, detalha.

Há, ainda, outros custos envolvidos na produção de leite e carne, os insumos importados. Segundo Rambalducci, 90% da vacina utilizada no gado, por exemplo, é importada e com o dólar a mais de R$ 5,20, isto também pressiona os custos.

“Por fim, no caso da carne bovina, a China continua demandando nosso produto, o que tem trazido impactos na oferta interna e consequente aumento”, adiciona. Para os próximos dois meses a previsão não é das mais animadoras. O economista prevê novos aumentos nesses dois produtos, o que pode levar a cesta a ultrapassar os R$ 500.

“Podemos, sim, esperar uma elevação maior para os dois próximos meses. E estes dois produtos serão protagonistas. A oferta de leite vai diminuir no mercado em função da menor produção – no frio o gado bebe menos água e produz menos leite. Situação semelhante acontece com o gado de corte”, explica.

“Neste mês a carne já foi responsável por 50% do custo da cesta. Um novo aumento vai aumentar o estrago”, finaliza.

Dados de maio

Em maio a cesta básica consumiu 44,9% do salário mínimo nacional. Dos 13 itens pesquisados, café e pão mantiveram estabilidade (variação inferior a 1%). Tiveram redução de preços o tomate (-11,4%), a banana (-2,5%) e a margarina (-2%).

Quando comparado com o valor da cesta básica de maio do ano passado, o aumento total foi de 19,25%. Naquele mês ela foi adquirida pelo valor médio de R$ 415,16. A inflação da cesta básica desde o dia 1º de janeiro apresenta redução de 1,97%, mas para o período de 12 meses está acumulada em 24%.

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