Aliados pero no mucho

Por Antonio Rodríguez*

1 ano que o mundo se chocou.
1 ano que uma morte estampou jornais.
1 ano que sofrimento foi entretenimento.
1 ano que a mesma imagem em loop povoa mentes.
1 ano que o mundo descobriu que não respiramos.
1 ano que pareceu que o mundo ia mudar.

Sério mesmo
O momento de falta de lucidez
Em que eu creia que o mundo mudaria
O mundo não mudou nada eu sei
Mas parece que o mundo é outro
Apenas porque eu cresci o bastante
Para ver as coisas de outro plano.

É relativo eu sei
Quanto se andou depende do ponto de partida
Mas o ponto era nulo e hoje é negativo
Sinceramente
Alguém acha que avançamos.

Não é uma roleta russa
Não é como se tivéssemos só uma chance
Mas quando nós éramos manchete
Os jornalistas ainda são globais brancos.

Parece que regredimos
Abrir caminho para nos verem no topo
Abriu caminho para verem mais feridas expostas
E eles jogam ácido como se fosse a mesma piscina de 100 anos atrás.

Preto no branco
Branco no preto
Esclarecemos e escurecemos os fatos
Mudamos narrativas e alteramos metáforas
Tudo para que ficasse mais fácil
Pareciam um bom aliado para se ter ao lado
Mas tudo que fizeram
Foi questionar o que já construímos.

Eu disse
Está nas veias
Corre ao invés de sangue
É um pacto narcisístico
Além de qualquer estrutura
Além de qualquer trejeito que vocês carreguem no peito
Não é um copo de leite
Muito menos um WS
É simplesmente quem me fez cruzar o mar em um porão
Matou mais do que pode contar
Os que sobraram sofreram
Sofreram
E sofreram
E quando cansaram de sofrer
Ainda sofreram por mais 5 séculos
Sob a autorização da figura de Deus na Terra

Sob o jugo do poder divino representado em uma coroa
Sob os olhares dos chicotes que marcaram minha pele
E vocês juram que querem me ensinar a lutar?

Minha terra formou João Cândido
Dragão do Mar
Benedito Meia Légua
Anastácia
Dandara
Aqualtune
E eu poderia citar mais nomes do que segundos na história do mundo.

Vocês querem ensinar quem criou a música
O modo certo de tocá-la
Vocês querem ensinar a quem criou o mundo
O modo certo de tocá-lo
Sendo que o tocam a 2000 anos
Mas nenhum problema é culpa de vocês
Sempre há alguém para culpar
E quando nós não aceitamos a culpa
Nós somos ingratos

Vocês não nos ensinaram a andar
Quebraram minhas pernas quando eu comecei
E continuam colocando obstáculos no meu caminho
Mas o medo é crescente nesta civilização decadente
Seu maior medo está cada dia mais presente
Seremos África novamente
Reinaremos sem sermos coroados com oliveiras
Nem roubaremos ouro para construir nossos palácios.

É tão revoltante ver que o mundo parou para observar nossa morte de todos os ângulos possíveis e mesmo assim nada mudou.
A cada 23 minutos uma mãe preta ainda sela um tumulo sabendo que seu filho morreu sem ser nem lembrado.
A mãe de Miguel terá que estudar direito ela mesma para garantir o direito do seu filho de não ser desrespeitado após sua morte.
E quando pensamos ter algum aliado para poder falar o que nós falamos desde sempre, vocês decidem que não querem revolução.
Podem mudar o mundo, desde que não mexam em nada que já existe desde sempre. E por favor, deixem que eu não seja racista, mas…

*Antonio Rodríguez, 18, estudante e poeta nas horas vagas (e algumas ocupadas também). Apaixonado pela vida, faz o máximo para transformar tudo em poesia. Mantém o Instagram @a.poetizando.me

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