Vídeo-poema e rap alertam para prevenção da violência infantil

Ações marcam o Dia Nacional de Combate ao Abuso e Exploração Sexual de Crianças e Adolescentes, celebrado em 18 de maio

Mariana Guerin

Josileide Aparecida Oliveira Baptistella, 40 anos, trabalhou por um ano e seis meses como conselheira tutelar em Londrina. Neste curto período, atendeu mais de 1,3 mil casos de violência contra crianças e adolescentes na cidade. Como forma de conscientizar as famílias sobre a importância de observar mudanças no comportamento dos jovens e ouvi-los com atenção quando relatam alguma reclamação, Josileide escreveu o “Poema-Revelação”, que está no vídeo editado em parceria com o departamento de comunicação do 5 Batalhão da Polícia Militar de Londrina para marcar o Dia Nacional de Combate ao Abuso e Exploração Sexual de Crianças e Adolescentes, celebrado em 18 de maio.

“O abuso ou estupro, ao ser informado, não deve ser questionado, com a fala de que a criança inventou. Aprenda que criança e adolescente não mentem quando contam dolorosamente sobre tudo que passaram. Nesse momento, cabe a gente denunciar imediatamente ao órgão protetor”, diz o poema.

Segundo Josileide, a inspiração para a poesia veio dos atendimentos como conselheira, “que eram como um soco na boca do estômago”. “Em muitos casos, a violência parece tirar a alma da criança. Mas um dos casos que mais me marcou foi de uma menina que sofreu um abuso no contexto familiar, que terminou em gravidez. Me tocou a resiliência dela em aceitar com felicidade que seria a referência de proteção de seu bebê, que não tinha culpa de quem era seu progenitor. Essa história me ensinou sobre esperança”, comenta a conselheira, que deixou o cargo para se dedicar à conclusão da graduação em serviço social. “A assistência me motiva, eu quero fazer a diferença na vida das pessoas.”

Ela tem um profundo respeito pelo trabalho do Conselho Tutelar e acredita que no Serviço Social poderá ajudar ainda mais de perto as famílias vítimas de violência. “O abuso não vê classe social. Apesar da periferia ser estigmatizada, a violência está em todas as esferas, até na igreja. Nosso trabalho é ensinar a criança a se proteger”, comenta Josileide, que já viveu situações violentas na pele e transformou sua dor em trabalho e arte.

“Eu nunca pensei em escrever, os poemas vieram da minha necessidade em transmitir o que eu sinto e dar voz ao meu passado, na esperança de algo melhor para quem está passando pelo que passei. É uma forma de prevenção”, justifica.

Ela reforça que apesar de a violência estar mais ligada à figura masculina, “é importante destacar que mulheres também abusam”. Pela experiência dela, os casos de abuso cresceram, em média, 200% durante a pandemia em Londrina.

A conselheira tutelar da região Sul Ellen Luz informa que um levantamento prévio informal realizado pelas unidades do Conselho Tutelar londrinense soma 216 casos de violência sexual e 373 de violência física e psicológica na cidade entre janeiro e maio de 2021. “As fichas de comunicação interna da rede de atendimento dobraram, é um crescimento significante”, opina.

Conforme Ellen, além da divulgação do vídeo-poema nas redes sociais do Conselho Municipal dos Direitos da Criança e do Adolescente (CMDCA), o Dia 18 de Maio será marcado, na Zona Sul, por uma blitz educativa na Avenida Inglaterra e uma carreata no bairro Cafezal, com cartazes produzidos pelas professoras mediadoras das escolas municipais da região. Ela conta ainda que adolescentes atendidos pelo Cense II (Centro de Socioeducação) gravaram um rap reforçando a necessidade de denunciar a violência contra menores de 18 anos.

Na letra, os jovens cantam “violência infantil não é bonito. Se souber, denuncie. O número é 125. O abuso infantil não gera, se souber denuncie, temos que proteger elas”. Eles também alertam que “criança é amor, bondade e inocência e nasceu para ser cuidada e não para sofrer violência. O abuso infantil acontece em várias maneiras, num abraço, num toque ou numa simples brincadeira”. E mandam o recado: “Nós aqui do Paraná não aceita violência com criança não, tem que denunciar, não há o que pensar, tem que ligar 125 e não precisa identificar.” Confira a música:

Josileide Baptistella recorda que o 18 de maio foi instituído para marcar um crime que chocou o Brasil, em 1973, quando Araceli Cabrera Sanches, de 8 anos de idade, foi sequestrada, drogada, espancada, estuprada e morta por membros de uma família tradicional do Espírito Santo. O crime ficou impune.

Ela reforça que em caso de mudanças no comportamento do jovem, como tristeza no olhar, falta de alegria e de animação para brincar e medo ou até se perceber que a criança pode estar guardando um segredo, o adulto deve chamá-la para conversar. Na suspeita de ocorrência de violência ou abuso, o adulto deve ligar para o Disque 100 ou Disque 125. A ligação é gratuita e anônima. O serviço funciona 24 horas por dia. “Muitos casos deixam de ser registrados porque as crianças ainda são desacreditadas, mas criança não mente, não tem maldade. Cabe ao adulto observá-la e perguntar quando sente algo errado. Quem se cala é conivente”, completa Josileide.

Prevenção

No dia 13 de maio, o Conselho Municipal dos Direitos da Criança e do Adolescente (CMDCA) realizou uma plenária especial para debater o abuso e a exploração sexual de crianças e adolescentes em Londrina. O encontro virtual contou com a participação de mais 90 pessoas e teve como objetivo discutir a importância da criação e execução de políticas públicas que visam o acolhimento, a proteção e a segurança das vítimas de violência e tratar sobre as medidas preventivas necessárias para a diminuição do número de casos de abuso e de exploração infantil.

Segundo a secretária municipal de Assistência Social, Jacqueline Marçal Micalli, a maioria dos casos de exploração sexual e violência contra as crianças e os adolescentes no Brasil acontece dentro de casa e é protagonizada por parentes, familiares e amigos da família.

Nos últimos anos, a política de assistência social tem passado por um reordenamento, em especial os serviços desenvolvidos pelos Centros de Referência Especializado de Assistência Social (Creas). Nestes, são atendidas as crianças, adolescentes e as famílias que estão em situação de risco social ou que tiveram seus direitos violados.

Entre elas, as vítimas de violência física, psicológica e de negligência; violência sexual; afastamento do convívio familiar devido à medida de proteção de urgência; situação de rua; abandono; trabalho infantil; discriminação por orientação sexual ou etnia; cumprimento de medidas socioeducativas em meio aberto de Liberdade Assistida e de Prestação de Serviços à Comunidade por adolescentes, entre outras.

“A Secretaria de Assistência Social tem buscado proteger as crianças e acolhê-las, para que esse ciclo possa ser rompido e as crianças sejam protegidas. Nós estamos à disposição para ajudar no fortalecimento do Núcleo de Proteção à Criança e ao Adolescente Vítimas de Crimes (Nucria), para que ele tenha sua equipe própria, porque sem profissionais não há serviço e, hoje, a psicóloga do núcleo é uma servidora municipal”, declara a secretária.

A juíza da Vara da Infância e da Juventude, Camila Tereza Gutzlaff Cardoso, reforça que os registros de abusos e violências contra os menores de 18 anos aumentaram durante a pandemia e que há subnotificação. Para ela, é preciso focar na prevenção. “É importante informar a população sobre como denunciar, para protegermos as crianças, caso contrário, essas situações poderão se perpetuar por toda a vida”, pontua.

Como forma de conscientizar a população, o CMDCA convidou as instituições que compõem a rede de serviços de atendimento à criança e ao adolescente para gravar vídeos, somando 16 produções audiovisuais. Todos os vídeos serão divulgados nas redes sociais do CMDCA. Eles tratam sobre o serviço realizado pela instituição; passam orientações para a comunidade e para as crianças e adolescentes; abordam os direitos das crianças e adolescentes e chamam a atenção para o tema da violência infantil de forma lúdica, por meio da música, dança, teatro, fantoches, poemas e outras formas de cultura e arte.

Além do vídeo-poema produzido pela Josileide com o 5 BPM, enviaram vídeos a Associação Mãos Estendidas, o Centro de Educação Jorge Dib Abussafi, o Centro de Integração Empresa-Escola (CIEE), Creas, Hospital do Câncer de Londrina, Instituto ADAMA, Centro de Educação Infantil Irmãs de Betânia, Núcleo Espírita Irmã Sheila, Pequena Missão para Surdos, entre outros.

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