!3 de Maio

Por Antônio Rodríguez*

Todo dia que eu sento para escrever
A caneta sente o peso das palavras
De transformar sentimentos em frases
Versos que fazem mais sentido no papel
Do que minha cabeça em parafuso
Rimas em fuso, um furacão de inspiração
Ideias que caíram em desuso
Tudo fluindo como se fosse o Amazonas
E no final terminam nas mesmas lágrimas
Que hoje formam o oceano Atlântico.

Tenho medo de repetir ideias ou frases
Mas eu moro no Brasil
E ele tá repetindo a mesma fase
Desde que Cabral aportou.
Aportou e se encantou, trouxe tantas doenças
Que o Brasil apodrece até hoje doente
Quem fala que a doença vem da China
Se recusa a ver que ainda tá infectado de Europa.

O Novo Mundo é o Velho Continente
Me diz em que linha do tempo que a gente andou pra frente
A evolução é intermitente
Parece ser suficiente dar dois passos pra frente e 40 para trás
E a gente continua se achando sagaz
Culpando os outros por sermos nosso próprio capataz.

O barco tá afundando
E não tem Dragão do Mar que salve
Dependemos apenas de Isabel
E a corda ficando mais apertada no pescoço
Tá osso
Estamos como comparsas de Tiradentes
Cansados, estirados, de cabeças cortadas
Posando no formato do país,
Mártires heroicos sem nomes na história
Isabéis posando com uma caneta
Dizendo que salvaram o planeta
Sendo que só aumentaram a treta
E botaram meus sonhos na gaveta.

Apoio a cabeça no travesseiro
E me perguntam como eu ainda sonho
Quando o pesadelo é a realidade
Até a morte é complacente
Um inferno um pouco mais decente
E a cada dia a história de Machado parece mais real
Preto como a noite
Mas vão me pintar como branco assim que eu morrer
Ou como Luiz Gama
Padecer no anonimato
Patrono do direito, aos pretos, sonhar deu o direito
Mas as faculdades ainda parecem uma tela em branco
Tão sem investimento que vai fechar
Cair no esquecimento porque não tem Censo
Mais uma das medidas medidas com falta de senso
Que nem o lenço seca as lágrimas de quem chora
Chora por quem se foi,
Se foi e ainda podia estar aqui.

Mas estar aqui pra quê?
Chorar mais mortes?
Sofrer mais pela rotina?

Quando eu disse que a dor me acompanhava
Eu não tava brincando
Carregando o fardo há 500 anos
E vocês não aguentam nem 500 dias.

Quando minha dor foi chacota
E cruzar um oceano pra sofrer a dor dos outros
Era mais real do que parar pra ver a minha
Vocês continuaram rindo e debochando
Holocausto brasileiro é Barbacena
Como se somente nos Navios
Vocês não tivessem matado mais que uma Auschwitz inteira.

Hoje eu escrevo dizendo que sou da realeza
Mas sua descendência vale uma cidadania
A minha sequer vale um sobrenome.
O genocídio não começou ontem
Muito menos o ponto final é pintado em tinta preta
Quando ele acontecer vai ser pintado em sangue
Porque a bandeira que não é vermelha
Já não tem mais mata para ser verde
O céu é tão cinza que faz mais sentido imprimir em preto e branco
E todo o ouro que me pertencia foi roubado
E o pouco que sobrou, paga 3 bilhões
Pra matar uma cidade inteira em um teste acientífico.

Quebrei 3 canetas desabafando
O computador travou com o peso das palavras
Mas eu sou obrigado a continuar vivendo normalmente
Com o peso dos meus próprios medos em versos
Criei diversos universos
E em todos eles eu ainda destruo a história
Quando eu boto minha língua pra treinar oratória
Como uma faca ela se afia na minha trajetória
Não é expedição exploratória, eu sei o que eu vim buscar
Não é a glória, nem mesmo marcar meus nomes na história
É apenas garantir que nenhum outro nome
Escape a sua devida glória
Até mesmo aqueles que desprezaram o que eles chamaram de escória.

A coluna de hoje é apenas um desabafo, um desabafo que carrega o peso de 500 anos de história apagada, modificada, reinventada para que o Branco sempre parecesse o herói, mesmo que ele continue nos matando pra manter essa narrativa.
Dia 13 de Maio, o dia da princesa Isabel, o dia da “heroína que salvou os escravos”.
Em que mundo vocês vivem eu não sei, porque meu alvará de liberdade ainda não foi assinado e embora as correntes não sejam mais de ferro elas ainda me impedem de avançar.

*Antonio Rodríguez, 18, estudante e poeta nas horas vagas (e algumas ocupadas também). Apaixonado pela vida, faz o máximo para transformar tudo em poesia. Mantém o Instagram @a.poetizando.me

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