Realidade, a pior das distopias

Por Paula Vicente e Rafael Colli*

Sim, nós avisamos. Avisamos que Bolsonaro era isso que ele se mostra hoje: fascista, e, portanto, naturalmente violento, autoritário e cruel; preconceituoso de carteirinha e opressor, em todo o seu ser, misógino, racista, homofóbico, xenófobo. Avisamos que se vencesse as eleições entraríamos no período mais sombrio de nossa história pós redemocratização.

E foi o que, de fato, ocorreu.

O ano de 2019, nesse sentido, segundo relatório apresentado pela Anistia Internacional em março de 2020, foi de evidente retrocesso dos direitos humanos no Brasil. O levantamento traçou um panorama das principais violações em nosso país, e foram muitas: crise ambiental na Amazônia, a escalada da violência policial, o aumento de invasão em terras indígenas, a violência contra ativistas, flexibilização do armamento, enfim, uma série de violações ocorridas por medidas diretas ou omissões do Governo Federal e da ideologia que ganhou com Bolsonaro – a ideologia da morte.

Achávamos que o pior havia acontecido até que, no começo de 2020, o mundo conheceu a pandemia do coronavírus. Já não bastava o Jair?

Fechamento do comércio, distanciamento social, Big Brother, lives, auxílio emergencial, auxílio às empresas, retorno gradual, muitas e muitas mortes. Festas, abertura do comércio, diminuição do auxílio emergencial, fim dos programas de assistência às empresas, mortes e mais mortes, festas, desespero, tristeza. Tudo isso acompanhado de muita zombaria de Bolsonaro e sua trupe, que se regozijaram com cada morte, cada pequena ou média empresa que quebrou, cada família que sofreu.

Não é preciso esforço demasiado para lembrar. Quando o Brasil se aproximava da marca de 10 mil mortos pela Covid, Bolsonaro decidiu passear de lancha. Se isso não é comemorar, o que seria? Enquanto milhares morriam por dia, Bolsonaro aparecia por aí sem máscara, gerando aglomerações (são tantas as notícias que essa serve apenas como exemplo). Enquanto o posto ipiranga de Bolsonaro promete salvar as grandes empresas, mais de 700 mil pequenas e médias empresas fecharam suas portas. São tantas atitudes contrárias ao que se espera de um líder, tantas atitudes desumanas, tantas atitudes contrárias ao que a ciência determina com relação ao combate da pandemia, que até parece que Bolsonaro joga a favor do vírus. Ou não joga?

Ninguém imaginou uma pandemia, mas nós imaginamos Bolsonaro. Imaginamos e avisamos sobre os males que ele traria.

Na quinta-feira (29/04), o Brasil atingiu a marca de 400 mil mortes por Covid-19. Quatrocentas mil pessoas. Quatrocentas mil famílias. E o presidente? Seguiu criticando o isolamento social e as medidas indicadas pela ciência e que foram utilizadas – e aprovadas – no mundo todo.

Nos lembramos que no começo de fevereiro, o advogado e professor de direitos humanos da FGV, Thiago Amparo, em sua coluna na Folha de São Paulo, escreveu, com ironia, uma visão distópica, mas com um fundo de realidade. No belíssimo artigo, Amparo previu, em uma análise futurista quase distópica, que 2022 traria, para além de uma nova disputa presidencial, com claras possibilidades de golpes Brasil afora, a triste realidade de 400 mil mortes em decorrência do coronavírus. Quando lemos lembramos que, por mais pessimistas que sejamos com relação a tudo que vem desse Governo, pensamos que ele estava errado, de fato exagerando para demonstrar um ponto específico de seu artigo. Era pura ingenuidade – nossa, claro. Menos de um ano antes da realidade fictícia – que parece ter mais de realidade do que ficção – o país já atingiu essa penosa marca.

O gosto que deixa é de desânimo, desesperança, cansaço. Pois mesmo imaginando o pior, nem nossas piores distopias previram a catástrofe que é Bolsonaro no Poder.

Pensando bem, ele e o vírus têm muito a ver. Se instalam no sistema, sugam-lhe tudo que tem melhor e, ao final, destroem-lhe, parte por parte, órgão por órgão. Basta sabermos se vamos nos vacinar – contra o coronavírus e contra Bolsonaro – ou se vamos internar nossa Democracia. Será que existe um SUS para nosso doente Estado Democrático?

*Paula Vicente e Rafael Colli são advogados especializados em causas de Direitos Humanos, minorias políticas e Direito Penal em Londrina.

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