Os efeitos físicos e psicológicos da covid: ‘Parecia que o corpo estava minguando’

Pacientes que superaram a doença relatam os impactos em seus corpos e mentes; infectologista alerta para ineficácia do tratamento precoce e ressalta importância da vacina

Mariana Guerin

Foto em destaque: Pixabay

Até o último dia 15 de abril, o Brasil somava mais de 1,14 milhão de casos de covid-19 em acompanhamento pelo Sistema Único de Saúde (SUS). No total, até esta data, o País acumulava 13.746.681 casos da doença desde o início da pandemia em terras brasileiras, em fevereiro de 2020, sendo 365.444 mortos, segundo dados do SUS.

A região Sul, com uma população de 29,9 milhões de pessoas, registrou, de 27 de março a 15 de abril, data do último levantamento disponível no site do SUS, 12.774 novos casos da doença, acumulando um total de 2,6 milhões de casos desde o início da pandemia. Foram registrados 600 novos óbitos na região no período de 19 dias, somando um total de 55.193 mortes no Sul do País.

O Paraná, com uma população de 11,4 milhões de habitantes, já registrou 19.986 óbitos desde o início da pandemia. São 896.931 casos acumulados e 3.891 novos casos registrados pelo SUS de 27 de março a 15 de abril. Foram 271 mortes no período.

Um informe da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) atesta que a doença ainda é muito nova e, por isso, suas consequências são desconhecidas. “As infecções graves podem deixar um certo grau de fibrose pulmonar, da mesma forma que ocorre em outras pneumonias. Além disso, existem estudos sobre sequelas nos rins, coração e sistema nervoso central. Tais ocorrências se dariam em parte dos pacientes que passaram pela internação em UTIs. A maior parte dos casos, entretanto, evolui para uma melhora sem sequelas”, diz a nota.

Melhora sem sequelas não foi o que aconteceu com a comerciante Josiane Gardim de Melo, 55 anos. Depois de contrair o coronavírus em dezembro de 2020, ela passou dez dias de quarentena isolada em casa com o marido e os filhos, que também tiveram a doença. Mesmo sem precisar ser hospitalizada, ela ainda guarda no corpo as sequelas da covid-19.

“Eu havia feito a retirada de um nódulo da mama e com cinco dias da cirurgia eu comecei a ter os primeiros sintomas”, lembra Josiane. Moradora de Assis, no interior paulista, ela e o marido tinham viajado para Presidente Prudente, em dezembro, para a realização da cirurgia que constatou que o nódulo na mama não era câncer.

“Eu havia ido ao retorno médico em Prudente pela manhã e à tarde eu comecei a me sentir estranha. A impressão que eu tinha era que ao invés de estar me recuperando, eu estava voltando para trás. Começou com muito cansaço, que eu achei que era de ter ficado muitos dias de repouso e aquele dia eu tinha levantado, tinha saído, andado um pouco mais. Achei que era em função disso”, descreve.

“Começou com o cansaço, seguido de febre, dor de cabeça, muita dificuldade para respirar. Nos primeiros cinco dias, várias vezes eu acordava durante a noite e ficava sentada porque a dificuldade para respirar era muito grande. E uma sequência de outros sintomas, como ânsia de vômito, uma dor insuportável nas costas, dificuldade para engolir, perda de olfato e paladar. A sensação que eu tinha era de prostração, parecia que o corpo não respondia a qualquer tipo de estímulo, parecia que o corpo estava minguando, essa é a palavra.”

O casal Josiane e Antonio Melo. Foto: arquivo pessoal

Depois de seguirem os protocolos do SUS em casa, a família se curou da covid-19 sem precisar de hospital. Mas ainda sente a presença da doença rondando. “Inicialmente eu tive problema no globo ocular. A sensação que eu tinha ao acordar era que o globo ocular estava enorme e estava inchado. Cheguei a ir ao oftalmologista e ele me disse que esse era um sintoma pós-covid. Me deu um colírio, melhorou bastante, mas ainda tenho essa sensação do globo ocular bastante inchado quando acordo”, diz Josiane.

“Além de dor no corpo, eu não tenho mais paladar e olfato até agora. Tem dia que eu como e sinto um pouco do sal e do açúcar, tem dia que está muito doce, tem dia que eu não sinto nada, tem dia que a comida está azeda. É um negócio bem esquisito e uma sensação de corpo cansado constante”, completa.

“Fico pensando o tempo todo que vou pegar essa doença de novo, que eu vou ter todos esses sintomas, que é difícil, e isso afeta a gente psicologicamente, quer você queira quer não”, lamenta a comerciante, que ficou um mês fora do trabalho. “Como a gente é autônomo, são 30 dias sem trabalhar. Eu tinha sido afastada para tratar do nódulo na mama e o possível câncer não deu em nada, mas você gasta com remédios, inalador, oxímetro, muda a alimentação, sempre tem gasto.”

Para o marido de Josiane, o engenheiro florestal Antonio Carlos Galvão de Melo, 57, a sequela psicológica é a pior. Ele acredita que o casal se contaminou em algum momento da viagem a Presidente Prudente. “Ficamos três dias lá para cirurgia e nessa de vai para uma clínica conversar com anestesista, em outra para fazer agulhamento, vai para hospital e hotel. Fiquei em hotel no primeiro dia. Nós pegamos em algum desses lugares, almoçando e jantando em restaurante antes dela ser internada.”

“Eu comecei a sentir dor de garganta. Sabe aquela sensação ruim na garganta quando você passa muito tempo na frente do ar condicionado? E eu comecei a suspeitar porque já fazia cinco para seis dias que a gente tinha voltado de Prudente, que naquela época era uma das cidades com mais casos de covid-19 na região. Se eu peguei lá era justamente o prazo. À noite eu já estava sentindo um pouco de febre. E também a Jô. Suspeitamos de covid por conta dos sintomas leves de dor de garganta”, recorda.

“Eu não precisei ficar em hospital. O principal sintoma que eu tive foi febre. Tive febre em nove dos dez dias. Era uma febre baixa. Mas bastante indisposição, aquela coisa do corpo ruim e por dois, três dias eu perdi o olfato”, conta Melo.

O tratamento realizado pela família foi o protocolo da rede pública, “inclusive um dos médicos me passou ivermectina”, comenta Melo. “O tratamento foi ivermectina, um corticoide para evitar a inflamação nos pulmões e um antibiótico. Ficar em casa, isolados. No final, ficamos nós quatro isolados porque todo mundo em casa pegou”, declara o engenheiro florestal, citando que a filha Marília, 32, e o filho Henrique, 30, que não mora na mesma casa, também adoeceram.

“De tudo, o pior para mim foi o psicológico. Com covid, se você tiver que ficar ruim, é lá pelo sexto dia. Era uma espada sobre a minha cabeça: eu pensava em mim e na minha família. Todo mundo cuidou um pouco um do outro, mas o psicológico vai muito para baixo. Você sempre pensa no pior. Eu acompanhava todo dia o relatório de UTI da prefeitura de Assis para saber como estava a situação. Como ia fazer se piorasse”, confessa.

Melo ainda tem alguma dificuldade para respirar. “Sinto como se meu pulmão ainda estivesse pequeno. Aos poucos vou fazendo exercício respiratório de ioga, voltei a andar de bicicleta devagar, sinto que estou melhorando. Mas tem quatro meses e ainda não tá 100%. Não fiz nenhum tipo de terapia, mas pensei em voltar num pneumologista por conta do pulmão, mas tá bombando de caso em Assis e eu quero ficar longe de hospital por risco dessa nova variante. Como devagar eu tenho me sentido melhor, estou em casa.”

Infectologista Joseani Pascual. Foto: Instagram pessoal

Segundo a infectologista Joseani Pascual, que atua nos hospitais Universitário e Evangélico, em Londrina, ter ou não sequelas depende do comprometimento pulmonar, do tempo que o paciente ficou acamado e se ficou em ventilação mecânica ou não. “Pacientes que ficam muito tempo acamados em ventilação mecânica ficam imobilizados, são apenas exercitados pela fisioterapia e geralmente saem do hospital com muita perda muscular. Muitas vezes, não conseguem sequer caminhar, sofrem atrofia dos membros, então tem que ter todo um trabalho de fisioterapia para essa recuperação”, sugere a médica.

“Muitas pessoas precisam até de uma enfermagem constante, de um atendimento domiciliar 24 horas à disposição, porque às vezes a pessoa não consegue tomar banho sozinha, se trocar, não consegue ir ao banheiro sozinha por perda de força. É uma doença muito triste.”

Além da fisioterapia, Josiane destaca a possível necessidade de um tratamento de fonoaudiologia para auxiliar o paciente na deglutição, pois muitos doentes saem do hospital sem conseguir engolir, ou até usando sonda nasoenteral. “Tem que ter todo um suporte assistencial e até mesmo psicológico porque alguns pacientes ficam deprimidos, entram numa tristeza profunda.”

Sobre os sintomas mais comuns da covid-19 Joseani destaca que são os gripais, como febre, dor de garganta, coriza, espirro, dor no corpo. “A gente sabe que grande parte da população não tem sintoma nenhum e é portador do vírus e disseminador da doença”, alerta a médica, ressaltando que em torno de 30% dos pacientes com covid apresentam perda do paladar e olfato.

O momento certo para buscar ajuda médica é quando a pessoa sente os primeiros sintomas. “Faz o exame, dá positivo, então é sempre bom procurar um médico para acompanhar a evolução da doença. Porque existem os exames e orientações necessárias para o acompanhamento. Como é uma doença bastante traiçoeira, não sabemos como será essa evolução do paciente.”

Para Joseani, é difícil prever o tempo médio de internação de pacientes que necessitam de oxigênio. “Normalmente, a gente pede para que os pacientes comprem o oxímetro, que é o medidor da saturação de oxigênio, e vai depender dessa saturação para avaliar qual o momento para internar ou não”, revela a médica, explicando que pacientes com saturação abaixo de 94% precisam de cateter de oxigênio.

“É possível monitorar a saturação no internamento domiciliar, desde que o paciente evolua de forma estável, ou então em internamento hospitalar. A partir do momento em que o paciente é internado não tem como saber quanto tempo ele vai demorar para se recuperar. Depende de cada organismo.”

Segundo a infectologista, é comum ao paciente internado em UTI adquirir alguma infecção hospitalar. “Essas infecções hospitalares acabam sendo complicações da covid, o que torna o tempo de internação imprevisível.”

A ineficácia do tratamento precoce

De acordo com a infectologista Joseani Pascual, ainda não se encontrou um tratamento eficaz contra a covid-19 além da vacina. “O tratamento precoce não é recomendado. Todos os protocolos mundiais falam contra ele. Seguimos os protocolos da Sociedade Brasileira de Infectologia, Sociedade Brasileira de Pneumologia, das sociedades de infectologia americana e europeia, da Organização Mundial da Saúde. É um protocolo mundial que fala contra a cloroquina e a ivermectina, que são medicações que realmente não funcionam.”

“O início da pandemia foi muito difícil e a gente prescrevia esses medicamentos porque a gente não sabia nada. Não havia nem testes. Os pacientes internavam e a gente suspeitava que era covid por conta dos sintomas e através das imagens da tomografia, que são bem características. No começo, era o que se tinha para fazer. Atualmente, por meio de diversos estudos sérios, claros e confiáveis, já se sabe que o uso dessas medicações não diminui mortalidade, não diminui evolução da doença e nem previne a doença”, comenta Josiane, lembrando que esses tratamentos podem ter efeitos colaterais. “Para que você vai tomar remédio se não precisa?”, questiona.

Ela cita que o uso de antibióticos no tratamento da covid-19 também tem diminuído conforme a divulgação de novos estudos sobre a doença. “A gente viu que não tinha porque usar antibiótico, uma vez que ele é para bactéria e não para vírus. Hoje em dia tem o corticoide, que a gente usa quando o paciente começa a dessaturar, quando a oxigenação do sangue cai abaixo de 94%, para diminuir a infamação pulmonar. Não é indicado usar o corticoide no início da doença porque é um medicamento imunossupressor e se a doença evoluir para um estágio mais grave, o paciente já vai estar mais debilitado porque o corticoide diminui a imunidade do organismo”, detalha.

A médica lamenta que apesar de todo o horror vivido na pandemia, ainda existam pessoas aglomerando. “Muitos não estão preocupados e isso gera muita angústia na gente porque estamos perto, vemos como essa doença pode ser grave e não escolhe idade, evolui do dia para a noite. A mensagem é que as pessoas não aglomerem porque não é brincadeira.”

Para Josiane, quem é pego aglomerando em festas deveria ter como “pena” algum serviço comunitário dentro dos hospitais. “As pessoas só tomam consciência quando veem alguém da família ou alguém muito próximo ficar doente e infelizmente alguns casos levam à morte. Enquanto isso, a ficha não cai.”

Para ela, apenas a vacina vai “segurar” o vírus. “Espero que tenhamos um ano que vem melhor porque esse ano ainda será muito difícil”, prevê.

Apenas a vacina vai acabar com a pandemia, alerta infectologista

‘Maior sequela ainda não aconteceu, a emocional’

Ilana Stride. Foto: arquivo pessoal

A enfermeira Ilana Mudeh Stride, 35, está na linha de frente no combate à covid-19 desde quando a pandemia começou no ano passado. Trabalhando em dois hospitais da rede particular em New Jersey, nos Estados Unidos, ela relata que quando se ouviu falar da presença do coronavírus no país, “os hospitais ainda não davam máscara e equipamento de proteção”.

“Teoricamente, a gente não tinha nenhum caso no hospital em que trabalho então, de acordo com a administração, eles queriam ‘salvar’ os equipamentos para quando a gente realmente precisasse”, comenta. “Foi uma coisa que eu falei muito na época: se eles nos protegessem desde o começo, aí sim o contágio, ou as chances de contágio, seriam menores.”

Ela lembra que, na época, testar pacientes era uma luta. “Eu lembro que um dos meus pacientes tinha todos os sintomas, menos falta de ar. E o hospital se negou a testar porque ele não tinha falta de ar. No outro dia, sete pacientes estavam com sintomas.”

Em fevereiro de 2020, Ilana trabalhava em dois hospitais. “Num deles eu tinha essa paciente super velhinha, uma graça. Ela tinha uma tosse super estranha. Só isso. Nenhum outro sintoma. Aí eu falei com o médico e ele pediu para testar. Três dias depois ela voltou positiva. Foi o nosso primeiro caso confirmado no hospital. Se ela tinha, eu sabia que eu tinha também. A partir daí eu fiquei em casa para não passar para ninguém. Fui testada, até então sem sintomas. E no dia 30 de março eu recebi os resultados e comecei a ter sintomas.”

Ilana sentiu os sintomas da covid-19 por cerca de três semanas. Teve febre alta, muita dor no corpo, principalmente no final da tarde e à noite. Dor nas costas, na área do rim. Sua urina ficou muito escura, além de registrar vômitos e diarreia. Ela perdeu a sensação de gosto e cheiro e sentia dores de cabeça. “Tive falta de ar, mas não foi constante. Ia e vinha. Não fui para o hospital. Para te falar a verdade, não sei se iria naquele momento. Hoje sim.”

Em casa, ela tratou os sintomas: se hidratou bastante para repor o líquido que perdia. “Descansava, mas também fazia exercício de respiração. Tomava remédio para dor, mas não adiantava. Tenho muita sorte. Minha irmã trazia comida. Minhas amigas mandaram comida também. E as minhas amigas enfermeiras estavam à disposição se eu precisasse de qualquer coisa médica”, cita Ilana.

Ela garante que não precisou de nenhuma terapia pós-covid, mas até hoje não sente cheiro de nada. “Sinto gosto das coisas, mas não como antes. E ultimamente eu tenho sentido o mesmo gosto para tudo.”

“Para ser bem honesta, acho que a maior sequela mesmo ainda não aconteceu, que é a emocional. Não é normal da noite para o dia você ver tanta gente morrer enquanto você segura um celular para a família falar tchau. Não é normal você explicar para uma senhorinha de 90 anos que tem Alzheimer que ela tem que ver a família dela de longe. Não é normal você segurar a mão de uma pessoa, esperar ela morrer, correr para segurar a mão da outra e rezar para que ninguém morra sozinho. Eu tive que ligar para as pessoas para falar que o pai, a mãe, o marido, quem quer que fosse, tinha morrido e, algumas vezes, eles me pediam para descrever”, desabafa a enfermeira.

Solteira e morando sozinha, ela recebeu as duas doses da vacina e hoje se encontra “bem”. “Nesse momento eu estou bem mais ‘fria’, mais ‘lógica’, não sei se faz sentido. Acho que mecanismo de defesa. Minha irmã pegou covid há umas semanas atrás e eu parecia uma mamãe urso com ela.”

“Acho que um ponto super positivo de tudo isso foi o reconhecimento que as pessoas tiveram com a profissão de enfermagem. Não tinha médico nenhum que pisava no hospital. Todo mundo com medo. Mas as pessoas trataram as enfermeiras aqui com muito respeito e gratidão”, declara a brasileira, que foi aos Estados Unidos em um programa de intercâmbio em 2006 para estudar inglês e ficou. “Estou aqui há 15 anos e há quatro me formei enfermeira e trabalho na saúde desde então.”

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