‘O espontâneo é a minha linguagem’

A maternidade levou a jornalista e fotógrafa Fernanda Bressan a trocar os textos pelas imagens para seguir contando histórias reais

Por Mariana Guerin*

Fotografar crianças sorrindo espontaneamente é muito mais do que um trabalho para a brasiliense radicada em Londrina Fernanda Bressan, 41 anos, mestre em comunicação visual. Com um olhar apurado pela maternidade, que lhe trouxe a filha Laís há sete anos, ela trocou o jornalismo diário pela fotografia e hoje é responsável por construir memórias de dezenas de famílias londrinenses.

“Eu sempre fotografei, sempre tive minha câmera desde que me formei, em 2000”, comenta Fernanda, graduada em Jornalismo pela UEL (Universidade Estadual de Londrina). Ela conta que quando a filha nasceu, em 2014, um amigo fotógrafo lhe deu um conselho que ficou martelando em sua cabeça. “O Marinho me deu o estalo ao dizer ‘por que você não fotografa recém-nascido? É a sua cara’. Três meses depois desta conversa eu já estava em Curitiba fazendo meu primeiro curso de fotografia newborn e não parei mais de estudar e me aprofundar neste universo dos bebês”, rememora.

Fernanda mostra algumas de suas fotos. Fotos: arquivo pessoal

A partir dos conhecimentos em newborn, Fernanda decidiu abraçar também a fotografia de partos, gestantes e de famílias inteiras. “Conto histórias das famílias com as fotografias. O espontâneo é a minha linguagem, gosto de ensaios interativos, em que converso e brinco com as crianças para tirar delas o sorriso mais verdadeiro, a expressão mais real”, justifica.

Em sua página na rede social é possível acompanhar exemplos de ensaios fotográficos diversos, pensados detalhadamente e compostos por cenários coloridos ou clássicos, que quase parecem saídos de um livro de contos de fada. E a espontaneidade está presente em todos os cliques, desde o ensaio das futuras mamães ao parto mais exaustivo. Desde os primeiros olhares dos recém-nascidos até as combinações de poses de pais e filhos. Desde à caçada aos ovos de Páscoa, os bailes de Carnaval até a chegada do Papai Noel. E o trabalho não parou na quarentena. Todo mundo quer registrar momentos importantes da história da família.

Minha fotografia é viva, traz emoção, busco isto para que ela se torne um verdadeiro gatilho da memória para as pessoas. Ao ver fotografias, voltamos no tempo. Escrevemos a história com estas imagens, então não gosto do posado, do sorriso forçado. Tem que ter verdade. Registrar momentos marcantes é um presente”, define.

Nascida em Brasília, Fernanda mudou-se para o interior paranaense em 1990. “Minha infância foi lá na capital, no Plano Piloto, brincando debaixo do prédio com as crianças da quadra e minhas irmãs, Viviane e Marisa. Tínhamos muita liberdade para ficar pela quadra brincando de boneca, pique esconde, pique bandeira, fazer piquenique e tudo quanto é tipo de pique. Liberdade que nem consigo imaginar hoje, principalmente pensando que morava na capital do Brasil”, descreve a fotógrafa, para quem aqueles dias brasilienses foram “tempos muito felizes”.

A mudança de Brasília para Londrina certamente foi um marco na adolescência da jornalista. “Eu tinha 11 para 12 anos, ia começar a sexta série e estava vindo para uma cidade onde todos davam risada do meu ‘r’. Não conhecia ninguém, era tímida e tive que encarar a nova escola com novas pessoas. Parece pouco, mas é um grande desafio entrar em uma sala de aula nesta fase de início da adolescência sem ter nenhuma referência”, observa.

“Talvez isso tenha sido um dos fatores que me levaram a ser adaptável hoje. Eu já trabalhei em vários lugares, larguei o jornalismo convencional para me tornar uma fotógrafa de família sempre sem deixar que o receio do novo me impedisse de desbravar novos caminhos. Na verdade, eu não gosto da mesmice. E também não fico em lugares onde não me sinta bem. Tenho tranquilidade para mudar de rota sempre que precisar”, avalia.

Fernanda sempre foi estudiosa, “daquelas da primeira fila mesmo”. “Ir à escola era um prazer, nunca imaginei matar aula”, brinca a fotógrafa, que não foi namoradeira: “Sempre tinha os paquerinhas da própria sala de aula, ia às festinhas, mas nunca fui do grupo das populares”.

“Desde os 13 anos participava de grupo de oração na igreja, depois fui para o ministério de música e minha adolescência, de fato, se passou muito neste ambiente, entre músicas, amigos, missas e Pastel Mel (restaurante tradicional em Londrina) aos domingos à noite, depois que a missa terminava. Nunca passei por grandes desafios nem grandes perdas. Acredito que o fato de ter vivido desde sempre no ambiente de grupo de oração me permitiu ter convivências mais tranquilas.”

Segundo Fernanda, a vontade de ser jornalista a acompanha desde a infância. “Não sei bem ao certo por que, mas o fato é que contar histórias reais me encanta. Amo escrever, as palavras brotam na minha mente e se materializam no papel com facilidade. E hoje, veja só, aprendi também a escrever com a luz, pela fotografia. Sigo contando histórias com as imagens, e as imagens reais da vida”, compara.

A maternidade era o maior sonho da jornalista e contribuiu para definir os rumos de seu atual trabalho. “Ser mãe com certeza era o maior dos meus sonhos, já realizado. Já plantei árvore, já escrevi livro, já fui à Europa e também conheci a neve (e não vejo a hora de poder realizar viagens novamente). Sou muito grata pelo meu trabalho, amo o que faço e isso não tem preço.”

Para Fernanda, “a maternidade é o maior desafio da humanidade”. “As crianças, de verdade, nos ensinam dia a dia, nos desafiam dia a dia, nos mostram nossa fragilidade dia a dia. Com a pandemia e escolas fechadas, isso tem sido ainda mais insano. Muita coisa muda quando nos tornamos mãe, quando enfrentamos a primeira birra, quando a criança diz que não vai comer o que você quer, enfim, quando você descobre que não é tão simples como parecia ao ver os filhos do outros”, afirma.

“Penso muito em todas as mudanças que passamos nesta última década, a luta das mulheres pelo espaço de igualdade, de não violência, de não imposição. Quero muito que minha filha viva em um universo mais humano, mais leve, o mais distante possível dos preconceitos, que só envenenam o coração. Que ela busque o que traz felicidade, saiba que pode fazer tudo o que quiser e ser o que quiser. A escolha será dela e só dela.”

Nas horas vagas, Fernanda se dedica à leitura de histórias reais, “livros que me trazem conhecimento de vida”. Uma das autoras que fazem parte da sua mesa de cabeceira atualmente é Brené Brown, expert em vulnerabilidade. “Sou eclética quanto à música, vou desde as músicas gospel e MPB até jazz e moda de viola. Assisto muito pouco tevê. Desde que me tornei mãe, a televisão virou artigo de luxo. Em geral, ela está é no desenho mesmo”, diz a fotógrafa, que tem na fé sua luz para seguir.

“Sempre cantei nas missas, participei de grupos de oração. Minha fé é minha luz, meu guia, minha força. Em tudo o que faço, penso em Deus, agradeço, peço, imploro quando preciso. Deus está na minha luz e na minha sombra e, como católica, trago Maria sempre por perto, que me acalma o coração”, completa.

Para a brasiliense, que mesmo depois de tantos anos no interior paranaense ainda guarda seu sotaque do centro-oeste, que se aventurou no jornalismo apesar da timidez e mergulhou nos contrastes de luzes e sombras da fotografia para seguir contando histórias, mesmo em tempos de pandemia, a vida é rica de possibilidades. “Sou uma pessoa em constante construção. Não dá para ser uma coisa só.

*Mariana Guerin é jornalista e confeiteira em Londrina. Adoça a vida com quitutes e palavras.

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