‘Minha meta é sobreviver à pandemia’

Em um ano de crise sanitária e econômica, Mariana Guerin se reconectou com seus ideais, abandonou um negócio novo e retomou a produção caseiras de bolachas artesanais para se manter mais segura: “decidi dar um passo para trás”

Cecília França

A pandemia tem sido um momento desafiador em muitos sentidos. Também tem nos levado a repensar hábitos, atitudes e – por que não – a vida profissional. Para 76% dos brasileiros este tem sido um momento para revisar a carreira*. Mariana Guerin, 40, fez mais que isso. Não apenas repensou, mas transformou em ação sua necessidade de viver de um negócio que lhe proporcionasse ao mesmo tempo segurança contra a infecção e realização pessoal.

Jornalista e confeiteira, ela passou a se dedicar inteiramente à produção caseira de bolachas artesanais, negócio que ficou pausado durante seu período de atuação como dona de cafeteria. Mariana também resgatou seu dom para a escrita e passou a assinar uma coluna quinzenal aqui na Lume.

Sem grandes planos para 2021 além de “sobreviver à pandemia”, ela relata nessa entrevista sua trajetória nesse período conturbado da história.

A pandemia se instalou em Londrina há cerca de 1 ano. Qual foi o impacto imediato na sua vida?

Eu era dona de uma cafeteria em um prédio comercial na Gleba Palhano há nove meses quando a pandemia fechou o comércio em Londrina pela primeira vez. Eu comecei trabalhando sozinha na cafeteria, onde fazia tudo, desde administrativo até atendimento ao público. Em janeiro de 2020, eu havia contratado uma funcionária por meio período para me ajudar e estava começando a entender melhor meu negócio e fazer planos para ele, quando o medo da doença me paralisou. Antes mesmo do decreto do prefeito, obrigando o fechamento do comércio por 15 dias, eu decidi fechar as portas da cafeteria e mandei a funcionária para casa. Asmática, ela fazia parte do grupo de risco. O impacto imediato foi medo de não conseguir pagar as contas. Corri atrás do auxílio emergencial para MEI e da suspensão do contrato da funcionária, que passou a receber o salário pelo governo. Mesmo podendo reabrir, eu decidi que iria aguentar em casa até quando fosse possível e mantive a cafeteria fechada por três meses. Tentei fazer um acordo com o proprietário do imóvel, que depois de dois meses de cafeteria fechada me permitiu pagar metade do aluguel por seis meses. E fui usando minhas reservas para pagar as contas da cafeteria fechada e de casa. O impacto emocional se aliou ao impacto financeiro nos primeiros meses da pandemia e eu pensava todo dia se deveria ou não manter um negócio que estava apenas começando e ainda não dava lucro, mas que era um grande sonho de vida, ou se deveria desistir e recomeçar, pensando em guardar o dinheiro que me restava e pensando também em manter minha saúde e da funcionária. Eu tinha muito medo de voltar a atender no comércio.

Você transicionou de empresária para trabalhadora autônoma. Como você descreve seu atual momento profissional?

Eu nunca me considerei empresária de verdade. Mesmo nos nove meses em que trabalhei atrás do balcão eu considerava a rotina muito difícil, eu sentia que nunca sabia direito o que estava fazendo. Mas também pensava que eu não poderia jogar um sonho desses fora sem lutar. Eu busquei ajuda profissional para reestruturar a cafeteria e estava prestes a fazer algumas modificações, a principal delas foi a contratação de alguém para me ajudar. Eu estava treinando uma funcionária quando a pandemia veio. Tudo que eu imaginava para o negócio ficou em segundo plano quando precisei fechar a cafeteria por 15 dias. E em casa, parei para pensar se retomar meu trabalho lá era o que eu realmente queria porque sempre me pareceu um esforço tremendo para pouco retorno. Foi então que decidi ir para a cozinha. Como sou confeiteira e produzia bolachas artesanais em casa antes de ter a cafeteria, decidi retomar a produção dos doces para ajudar no orçamento até poder reabrir o negócio. O sonho da cafeteria estava atrelado ao sonho de ser confeiteira pois queria ter um local onde vender meus doces, mas a rotina de administração e atendimento me impediu de fazer as duas coisas. Mas tive uma conversa comigo mesma, por assim dizer, e decidi dar um passo para trás e focar na produção das bolachinhas em casa. Consegui vender a cafeteria, consegui dispensar a funcionária com todos os seus direitos pagos e voltei a me dedicar à confeitaria. Investi em uma nova identidade visual e fui, aos poucos, retomando a clientela, que ficou abandonada quando eu assumi a cafeteria. Hoje estou confeiteira novamente, administrando um negócio pequeno, mas que tem potencial. Não tenho grandes planos para este ano, pois, como em 2020, minha meta é sobreviver à pandemia. Então decidi que seria melhor não dar o passo maior do que a perna. E esse é meu momento atual: trabalhando para recuperar um negócio que está estabelecido, tem seu público, mas que está vivendo conforme o momento atual do mercado, que é de crise por conta da pandemia.

Você acredita que o fato de ser mulher e solteira te sobrecarrega emocionalmente ainda mais do que já seria esperado no atual momento?

Eu sempre achei que ser mulher solteira dificultava muito a minha tomada de decisão. Eu sempre pensei muito antes de cada passo tomado, se era o certo ou não. Por ser responsável apenas por mim, isso deveria parecer mais fácil, mas para mim nunca foi. E por ser sozinha, eu sempre recorri aos meus pais, que muitas vezes me estenderam a mão. Por um lado, isso é maravilhoso, saber que posso sempre contar com eles. Por outro, eu me sinto em uma dívida eterna. Sei que isso é coisa minha e também entendo que tem um pouco do machismo estrutural, aquele em que a mulher não foi feita para ficar sozinha, por mais coisas que ela tenha conquistado na vida. Alguém sempre pergunta dos namoradinhos e se tem algum problema comigo pelo fato de eu nunca ter me casado e não ter filhos. Mas entendo que isso é também uma perspectiva muito particular. Existem mulheres muito bem resolvidas sozinhas. Gostaria que fosse o meu caso, mas eu ainda preferiria dividir a jornada com um companheiro. Ao mesmo tempo, eu já fiz tantas coisas sozinhas, que me sinto capaz para enfrentar o que vier, mesmo que seja construir uma jornada sozinha.

Você é uma pessoa vaidosa? Tem sentido dificuldade em manter uma rotina de auto cuidado durante esse período?

Eu sou pouco vaidosa. Na pandemia, fiquei os primeiros meses sem cortar o cabelo, sem ir na manicure, sem fazer atividades físicas além da minha aula de dança flamenca uma vez por semana. Mas senti vontade de usar batom vermelho, único item de maquiagem que sempre usei e sinto falta. Se deixar, eu fico o dia todo de pijama. Mas sempre que eu me sinto muito inquieta, eu faço mudanças radicais no cabelo. Eu passei um mês ruiva (o bom é que não sai de casa então ninguém viu), depois resolvi cortar o cabelo bem curto e fazer luzes para disfarçar os fios brancos, e desde então, estou confortável com a aparência que me foi possível no alto dos meus 40 anos. Descobri que posso ficar facilmente sem manicure e que poderia ficar sem metade das minhas roupas e sapatos. Meu autocuidado é usar cremes hidratantes no rosto, óleo de banho e perfume. Não preciso de muita coisa. Saio com o cabelo molhado na rua sem culpa. Eu passei muito tempo odiando meu corpo e hoje eu passei a aceitá-lo como ele é. Sem muita cobrança pela aparência perfeita. Hoje, autocuidado, para mim, tem mais a ver com preservar a minha sanidade emocional num período tão difícil para a sociedade. A aparência fica em segundo plano.

*Fonte: pesquisa Global Learner Survey, realizada pela Pearson em parceria com a Harris Insights & Analytics.

Confira outras entrevistas da série:

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https://rededejornalistas.com/2021/03/09/me-sinto-uma-leoa-cacando-o-sustento/

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