‘A pandemia impactou direto na minha renda’

Com as restrições do setor de entretenimento, Juuara Barbosa viu seus contratos serem adiados ou cancelados e precisou adaptar o estilo de vida; com mais tempo em casa, a agente educacional se dedica ao autocuidado: “estando bem você vai saber lidar com os desafios de ser pessoa adulta nesse país

Cecília França

Resistir faz parte da trajetória de vida de Juuara Barbosa. Na pandemia não tem sido diferente. Produtora cultural, produtora de eventos, DJ e mestre de cerimônias, ela viu sua renda ser diretamente afetada pelas medidas de isolamento social. Desde o primeiro fechamento das atividades não essenciais em Londrina, em março de 2020, festas, reuniões e confraternizações passam por limitações de público.

Nacionalmente, o setor de entretenimento estima perdas da ordem de R$ 90 bilhões*. De cada 100 empresas do setor, 97 encontram-se paradas. Uma grave crise setorial dentro da sofrida crise sanitária. Juuara ainda se classifica como privilegiada por ser agente educacional contratada pelo Governo do Estado, uma garantia de renda que lhe dá a possibilidade de se proteger melhor da contaminação – segurança que a maioria das travestis não tem.

Nessa entrevista ela conta as mudanças em sua rotina nesse um ano de pandemia e destaca ao menos um benefício: mais tempo para cuidar dela mesma.

A pandemia se instalou em Londrina há cerca de 1 ano. Qual foi o impacto imediato na sua vida?

Eu sou produtora cultural, produtora de eventos, DJ e mestre de cerimônias. Para nós, pessoas LGBTQIA+, o campo do entretenimento, sobretudo as festas da noite, todas que são direcionadas sobretudo para nosso publico, são um meio de complementar ou até único meio de renda para muitos de nós. Eu sou agente educacional também, contratada pelo PSS (Processo Seletivo Simplificado). Todos os meus demais trampos durante muito tempo foram a minha renda única. No PSS eu fui contratada mais para o final de 2019. Então, quando começa a pandemia, o primeiro impacto direto é nesses trabalhos da noite, porque não pode ter aglomeração. Então perdi várias festas que eu já havia sido contratada para discotecar, para fazer a mestre de cerimônias, mediar o palco, apresentar as atrações, interagir com o público, fazer a festa “bombar”. Para ter uma ideia, no primeiro mês de quarentena só o meu aluguel eu já ia pagar com os meus cachês e eu perdi essa renda. A pandemia impactou direto na minha renda.

Como trabalhadora quais adaptações precisou fazer na sua vida profissional?

Todos os trampos que eu fazia referente à noite, ao entretenimento e cultura foram cancelados e adiados porque dependem da aglomeração. Nos primeiros meses da quarentena o governo permitiu que a gente ficasse em lockdown, então até junho (de 2020) fiquei em casa. Ia só de casa para o mercado, no máximo. Em junho começamos em escalonamento, então eu evitava ônibus, sempre fazia meus trajetos a pé. As roupas que eu usava fora de casa eu deixava fora de casa. Como eu sou virginiana, bem metódica, então tinha sempre álcool, alterou completamente a minha rotina. Lavar as mãos, higienizar as coisas, enfim, eu fiquei bem “a louca da limpeza”.

Você acredita que o fato de ser mulher travesti te traz dificuldades extras, além do que já seria esperado nesse momento?

Acredito que por ser mulher travesti, naturalmente, se estivéssemos ou não nessa crise sanitária mundial, isso já me traz uma marca. Você sempre é o centro das atenções porque a sociedade não está acostumada a ver um corpo de uma travesti andando livremente à luz do dia, fazendo compras, indo ao cartório registrar, por exemplo, a documentação quando vai mudar de casa, indo ao posto, indo à escola. A gente não vê e a gente está acostumado e acostumada a não ver. Tem essa invisibilização. Parece que a noite é sempre direcionada para nós. As pessoas estão mais acostumadas a nos ver de noite, nos sites de pornografia, e não assim vivendo toda a complexidade da nossa subjetividade. Somos pessoas comuns, como quaisquer outras, temos sonhos, anseios, ansiedades, temos frustrações, temos medo, temos coragem, enfim. Então eu acho que, independentemente da crise nossa sociedade é totalmente preconceituosa com as travestis. Para a gente ter uma ideia sobre a violência, os órgãos oficiais não se preocupam em levantar dados sobre nós, como que a gente vive, como que a gente morre, e tal. Porque se você compilar dados você tem legitimidade para cobrar politica pública, e ninguém quer fazer politica publica para travesti. A sorte é que a gente não deita e, através de muitas resistência, alguns grupos, como o Grupo Gay da Bahia, mas, sobretudo, a Antra (Associação Nacional de Travestis e Transexuais) se compromete a fazer um levantamento de quantas pessoas são mortas. O relatório divulgado em janeiro traz 175 travestis assassinadas e destas, 80% são pretas. A galera não quer nos ver durante o dia, mas não liga de nos ver mortas, não liga de saber que a expectativa de vida das travestis, sobretudo das pretas, é de 35 anos. As brancas envelhecem, mas, ainda sim, na sua velhice muitas têm o direto a viver sua identidade de gênero plena tolhido. Já as travestis pretas são mortas. Então está todo mundo acostumado com isso, com essa posição de desgraça, com ou sem a pandemia. Que bom que as coisas estão mudando, a gente está podendo acreditar que vai estar viva daqui para os próximos anos.

Você é uma pessoa vaidosa? Tem sentido dificuldade em manter uma rotina de auto cuidado durante esse período?

Eu sou vaidosa “pra caralho”. Mas como eu praticamente não tenho saído, e por ter o privilégio de ser contratada pelo Estado, esse escalonamento acabava me dando mais dias para ficar em casa, então eu me jogava em tudo, skincare, hidratação de cabelo, máscara de argila. A própria Ângela Davis fala que é super importante o autocuidado corporal e espiritual. Eu acredito no autocuidado como uma ferramenta também, porque aí você se ama, você se gosta, você estando bem com você vai saber lidar com os desafios de ser pessoa adulta nesse país que cada vez menos tem deixado a gente ser feliz, a gente acreditar nas coisas. Mas a gente ainda sim resiste. Então acho que o autocuidado é fundamental para a gente estar bem, estar viva.

*https://g1.globo.com/pop-arte/noticia/2021/02/17/a-crise-do-entretenimento-na-pandemia-350-mil-eventos-adiados-ou-cancelados-e-r-90-milhoes-perdidos.ghtml

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