‘Me sinto uma leoa caçando o sustento’

Ser empreendedora, mulher e mãe em meio à pandemia fez a vida financeira da cabeleireira Daniela Germano Silva sair dos trilhos: “me deparei com uma crise da qual não consegui sair até agora”

Cecília França

Dentre todas as atividades econômicas, as mulheres estão mais presentes no setor de serviços. Considerando apenas dados de trabalho formal, 41% delas atua neste segmento no país*. E a pandemia tem cobrado um preço alto dessas empreendedoras. Levantamento do Sebrae Nacional revela que nove em cada dez salões de beleza e similares perderam mais da metade do faturamento em 2020 por causa das medidas de isolamento social.

Daniela Germano Silva, 41, tem vivenciado tudo isso. Proprietária do salão de beleza Rainha de Copas, em Londrina, ela se viu desamparada pelo poder público e obrigada a recorrer a empréstimos abusivos para manter seu negócio e sua vida familiar. A renda diminui enquanto os gastos aumentam.

Pressionada pela rotina incansável de profissional, mulher e mãe, Daniela diz à Lume que não vê perspectivas de melhoria no curto prazo. Confira entrevista abaixo.

A pandemia se instalou em Londrina há cerca de 1 ano. Qual foi o impacto imediato na sua vida?

O impacto imediato da pandemia foi angústia, insegurança, falta de perspectiva com relação às atitudes do governo. Esse ano a inflação bateu recordes e eu tive que fazer muitas promoções, ou seja, a conta não fechou o ano todo. Eu tinha uma estabilidade financeira, devido aos 16 anos de carreira. Porém, afetou a todos, meus clientes estavam passando dificuldade também e isso refletiu fortemente. Eu sou autônoma, gero empregos, pago impostos. Mas tive medo. Estou com medo. Creio que medo define esse ano.

Como empreendedora quais adaptações precisou fazer na sua vida profissional?

Como empreendedora, me deparei com uma crise da qual não consegui sair até agora. Os produtos que utilizo são importados, já que o nacional não tem a mesma qualidade, infelizmente. O nosso presidente aumentou drasticamente os impostos de importação. Causou um impacto significativo na margem de lucro. Enquanto tudo subiu muito, nós, da área estética, não podemos ajustar. Eu tenho uma casa para manter. O supermercado subiu absurdamente. Enfim , cada mês de pandemia meu lucro diminuiu e o gasto aumentou. Tive que fazer empréstimo a juros monstruosos. Estou abalada emocionalmente. E, continuamos sem perspectivas.

Você acredita que o fato de ser mulher te sobrecarrega ainda mais do que já seria esperado?

O fato de ser mulher muda tudo. Preciso estar bem, para vender meu serviço, mas tem sido impossível. Sou separada, meus filhos moram comigo. Sempre estou de cabeça quente, tenho que responder às demandas deles. O que acabei fazendo de uma maneira que não gosto. Insatisfatória para eles e para mim. Me sinto uma leoa caçando o sustento. Não tive um dia de paz. A sociedade quer que eu trabalhe como se não tivesse filhos e que eu cuide deles como se não trabalhasse; e, pior, como se não fosse autônoma.

Você é uma pessoa vaidosa? Tem sentido dificuldade em manter uma rotina de auto cuidado durante esse período?

Sou vaidosa, mas já fui mais. Abri mão de muita coisa quando tive filhos. Mas meu maior luxo nesse momento seria estar linda psicologicamente. Isto não estou conseguindo…

*A Associação Brasileira da Indústria de Higiene Pessoal, Perfumaria e Cosméticos (ABIHPEC) previa crescimento de 14% em 2020.

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