8M – Carta aberta a Madalena

Por Paula Vicente*

Minha filha, menina que está ainda dentro do meu ventre e que logo será colocada nesse mundo hostil e cruel com suas mulheres e meninas.

Hoje é dia oito de março, Dia Internacional da Mulher, mas deveria se chamar Dia Internacional da Luta Infinita, Desgastante, Frustrante e Dolorosa, por Direitos Básicos da Mulher.

Preciso contextualizar o que vivemos enquanto você se forma: estamos em 2021, o segundo ano da pandemia da Covid-19, passando por uma crise sanitária maior que a do ano passado, com pessoas morrendo em filas de UTI, um governo genocida e negacionista, que deixa ao Deus dará sua população, sem vacina e sem alimentos, e ainda temos que lutar pelo direito de não termos nossos corpos invadidos impunemente. Você receberá a luz em um ano também muito cruel.

Mas o que quero contar para você é sobre como é ser mulher nesse mundo e sobre como devemos nos unir e nos ajudar, sempre, de todas as formas, então, senta que lá vem história. Nesse caso, de uma mulher específica. Um exemplo de tudo que vou falar.

Em dezembro de 2020, a deputada estadual de São Paulo, Isa Penna, foi apalpada em pleno plenário da Alesp pelo colega Fernando Cury, diante das câmeras, sem a menor cerimônia e, com a certeza da impunidade, o deputado abraça a parlamentar pelas costas e apalpa seu seio direito, sendo rapidamente repelido por ela.

O caso ganhou grande repercussão na mídia e foi parar no Conselho de Ética daquela casa legislativa. Esperava-se punição exemplar e à altura do crime cometido pelo deputado (importunação sexual, artigo 215 – A, do Código Penal), mas o que ele recebeu foram férias forçadas de 119 dias, com gabinete funcionando a pleno vapor, tudo pago com dinheiro público.

Isa Penna sofreu diante das câmeras o que nós mulheres sofremos diuturnamente, foi reduzida a um objeto que pode ser tocado e apalpado ao bel prazer de qualquer homem. No caso de Isa ela relatou que não mantinha qualquer contato com o deputado abusador, mas muitas de nós passamos por situações parecidas com colegas, chefes e até amigos próximos.

Eu nunca conheci uma mulher que não tivesse passado por uma situação parecida com essa, aliás, desde meninas entendemos que devemos tomar cuidado com as pessoas e que nossos corpos e nossas vontades nem sempre serão respeitadas.

Infelizmente, nos foi ensinado cedo a nos livrar de situações constrangedoras e abusivas como essa com delicadeza e jogo de cintura. Deixam – propositalmente – de nos ensinar, no entanto, a denunciar, a gritar, a apontar o culpado. Nos ensinam, por outro lado, a sentar como mocinha, a falar baixo e a abaixar a cabeça e sorrir, a nos esquivar.

Sempre que ousamos levantar nossas vozes somos taxadas de desequilibradas, exageradas, loucas. Nossos empregos são ameaçados, nossas relações são ameaçadas, nossa identidade é ameaçada quando ousamos nos posicionar.

Isa, a mulher cuja história contei acima, segue lutando para ser ouvida e acreditada, seguimos com ela, buscando que seu caso se torne paradigma, para que o mínimo de respeito a nossos corpos nos seja dado, buscando uma punição exemplar.

Infelizmente, não é só sobre nosso corpo, nossa vida é toda controlada por um sistema que odeia as mulheres.

Nossas carreiras são desvalorizadas, afinal de contas, somos mulheres, temos filhos e, em teoria, produzimos menos. Se resolvemos focar na carreira e não termos filhos, somos taxadas de frias e egoístas, afinal, priorizar sua vida profissional não é o papel da mulher de bem. Se resolvemos nos dedicar exclusivamente aos filhos, somos desleixadas, é uma contradição sem fim.

A vida é ainda mais difícil para aquelas mulheres que não nasceram com os privilégios que você terá. As mulheres negras, periféricas, transexuais, são ainda mais objetificadas, usadas e humilhadas por essa sociedade machista.

Rapidamente você perceberá que nossos direitos nunca estão garantidos, minha filha, sempre que passamos por tempos como o que estamos vivendo, eles são atacados primeiro. A nossa dignidade é sempre rechaçada e vilipendiada prioritariamente.

Pessoas que deveriam assegurar nossas liberdades e lutar conosco e por nós se colocam do lado de nossos abusadores em nome de uma moral distorcida e rasa. Pessoas que sofreram na pele os piores abusos e violações, na mais tenra infância, trabalham para perpetuar esse tipo de violência. Isso, Madalena, é frustrante e desesperador.

Como eu te contei lá em cima, no dia 8 de março o mundo é obrigado a olhar para suas mulheres. Muitos não entendem o que isso quer dizer, muitos nos trazem flores, como se isso nos bastasse.

Eu não quero trazer desesperança com essas palavras, muito pelo contrário, contei tudo isso até agora para te mostrar que a luz no fim do túnel é a luta.

Você vai aprender que muitas e muitas mulheres estão unidas no mundo, ao seu redor, para se protegerem e para lutarem juntas por mais dignidade. Nós entendemos o significado de nos tornarmos mulher e queremos que sua geração e as próximas tenham uma vida melhor e mais justa.

Sabemos que seremos sempre atacadas, mas nós seguimos, irredutíveis, no propósito insano de viver com igualdade e dignidade, de sermos donas de nossos corpos e nossas vidas.

Aliás, lutar a mesma luta de Isa, Marielle, Dandara, Leila, Malala, Chimamanda, Dilma, Maria do Rosário, Miriam, Sônia, Marina, Rafaela, e tantas outras mulheres, vai te fazer forte e orgulhosa; vai trazer esperança e um sentimento de pertencimento; vai te dar a certeza de que você jamais estará sozinha e, sobretudo, que você luta pelas coisas certas.

Só a luta muda a vida, minha filha. Então lute, sempre, com todas as suas forças. A luta é, também, muito gratificante e bonita. Principalmente pelas pessoas que estão ao seu lado. Eu sempre estarei com você nessa luta, sempre lutarei por você, para que possa te deixar num mundo um pouquinho melhor.

De sua mãe, Paula.

*Paula Vicente é advogada especializada em Direitos Humanos, Direito Penal e minorias políticas.

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