Se essa rua fosse minha

Por Carlos Monteiro*

Conversando com a minha querida Celina, que eu chamo, carinhosamente, “Dama Ramalhete”, viúva do saudoso e inesquecível cantor-poeta Tavito, que colhia a pimenta e o sal com magnitude gigantesca e plantou muitos amigos do peito e nada mais, sobre as músicas que ele compôs, seus significados, suas histórias, suas mineirices e fontes de inspiração, bem como minha curiosidade sobre alguns temas e porandubas. Papo foi, papo voltou alegremente, com histórias sensacionais de nosso amigo, ela me passou um depoimento, lírico e emocionante, do seu [Tavito] mais constante parceiro nas obras musicais, Ney Azambuja, sobre as narrativas de várias composições. Como nasceram, quem foi a musa inspiradora ou a fonte onde beberam, em que momento aconteceram, e por aí vai… Isso ficou parecendo abertura do “Globo Repórter”. Todas de muito sucesso, uma delas, “Rua Ramalhete”, Sem querer fui me lembrar/De uma rua e seus ramalhetes/ Do amor anotado em bilhetes/Daquelas tardes//No muro do Sacré-Coeur…”, uma volta a adolescência de todos nós, gravada em versão até para o japonês, ficou imortalizada na voz do próprio autor e em interpretações memoráveis de um número enorme de bardos. Um deles, Wando, e sua polêmica em relação aos Beatles virem ou não ao Brasil. Mudou a letra de “…será que algum dia eles vêm aí, cantar as canções…”, para “…pois sei que eles jamais virão aqui, cantar as canções…”. Wando, fogo e paixão, era um romântico-rebelde incurável.

Relatou Ney: “— Sábado, casa do Tavito. Não tínhamos a menor ideia de por onde começar a compor. Não tínhamos um tema em mente, nada. Mas quando tem que acontecer, a vida sempre dá seu jeito. Tavito fazia alguns acordes no violão, eu rabiscava frases soltas numa folha em branco, quando toca o telefone. Era minha mulher avisando que estava recebendo uma amiga em casa. Essa amiga, isso nós já sabíamos, era mineira. Morou na Rua Ramalhete. Namorou o Tavito. Pronto, já tínhamos o caminho. Começamos a conversar sobre as experiências e sensações da adolescência… os versos e a melodia foram surgindo. Cada palavra e cada acorde foi medido, pensado, revisto, para transmitir da maneira mais autêntica aquelas sensações. O sucesso da música, que mais de 40 anos depois ainda emociona, mostra que conseguimos. Cada um de nós tem a sua própria ‘Rua Ramalhete’. Ao seu tempo, a memória sempre surpreende trazendo de volta a nossa rua da adolescência, esteja ela onde estiver.”.

A rua Ramalhete fica em Belo Horizonte entre os bairros Anchieta e Serra. Tem esse nome singelo, envolto em certo lirismo, mas, como se compõe o nome de uma rua, praça ou avenida? Quais são as inspirações para aquelas que não homenageiam personalidades? Que nomes líricos ou esdrúxulos nomeiam os logradouros nas cidades? O livro “Histórias das Ruas do Rio”, de Brasil Gerson, traz um pouco dessas histórias deliciosas, engraçadas e românticas. Minhas lembranças também.

Noutras palavras sou muito romântico e vejo a rua das Flores em você e em Bonsucesso. A rua das Rosas graceja em três bairros cariocas: Vila Valqueire, São Cristóvão e Cidade Universitária e não briga com a rua do Cravo na Penha Circular. É um Rio florido de rua das Hortênsias, na Vila Valqueire, das Orquídeas na Cidade Universitária, do Lírio na Curicica, das Violetas e das Margaridas, ambas, em Jacarepaguá.

Para quem vive no mundo da rua da Lua em Santíssimo e diz ouvir rua Estrelas em Guadalupe, nesta última era da rua Aquarius em Santíssimo, as ruas, do Cometa em Guadalupe, do Sol no Recreio dos Bandeirantes, de Marte e da Terra em Senador Camará, a rua Vênus em Mesquita, a rua Plutão no Jardim América, a rua Netuno e Mercúrio na Pavuna, a travessa Urano em Bangu e rua Uranos entre Ramos e Olaria, as ruas Júpiter e Saturno e seus anéis em Vigário Geral, são planetárias, basta embarcar na Travessa Nave-Mãe em São Paulo.

(Continua amanhã)

*Carlos Monteiro, 61, é cronista, jornalista, fotógrafo e publicitário carioca. Flamenguista e portolense roxo, mas, acima de tudo, um apaixonado pela Cidade Maravilhosa.

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