Sem papas na língua (final)

Por Carlos Monteiro*

Está tudo muito bom, está tudo muito bem, mas já “anda pela hora” concluirmos esta crônica, afinal estamos no quarto capítulo, ainda que exista uma infinidade de expressões, julgo, que “já deu o que tinha que dar“; meus fiéis onze leitores já estão fartos de tanto lero-lero, como disse certa vez, Vicente Matheus, quando estava presidente do Corinthians, referindo-se ao jogador Biro-Biro.

“Jus sperneandi” e o direito de espernear, choramingar e ao chororô. Então “Chorar as pitangas” está liberado. Essa frutinha, com um doce levemente ácido, deliciosa, encontrada, predominantemente, nas regiões Norte e Nordeste do país dá sentido à expressão. Pitanga tem origem na derivação de “pyrang”, que, em tupi-guarani, significa vermelho. Assim sendo, quem chora muito fica com os olhos vermelhos, apresentando aí a relação com a fruta. É o bicho. Quem chora “lágrimas de crocodilo” não é o poeta fingidor, mas um dissimulado. Ao ingerir uma presa, o crocodilo pressiona de maneira significativa o céu da boca comprimindo as glândulas lacrimais. Ao mesmo tempo que se farta, chorar ao devorar a vítima. Um fingido.

Mãos à obra. Quais são as ferramentas indispensáveis para se cunhar uma expressão, uma “pá virada”? “Da pá virada” pode designar alguém destemido ou seu antagonista. Realmente sua origem está no instrumento utilizado para cavar que, estando virado, não tem nenhuma serventia. Já “o picareta” não tem origem na ferramenta, muito menos tem origem no Brasil. Em terras lusas, já na Idade Média, se usava o termo designando aquele que não respeitava nada e ninguém. Faz uso da boa fé alheia para se dar bem, um cínico, trapaceiro, velhaco e embusteiro da pior espécie; um sujeito “pícaro”. Mais uma vez, o povo mudando o rumo das palavras. A origem está na palavra árabe “bikarón” que expressa “indivíduo desqualificado”. Passou a ser usada em Portugal após a invasão moura da Península Ibérica.

Laços fora. Quem anda muito agitado está “com a corda toda”, mas, que corda é essa? Outrora os brinquedos mecânicos eram movidos a corda. Uma espécie de mola ou elástico que ao se distender, fazia com que o brinquedo ganhasse vida. Para isso era necessário que se desse “corda”. Quanto mais intensa fosse, mais o brinquedo se movia de forma frenética e agitada. Está aí a origem desta expressão tão comum. Quando sabemos que alguém está ameaçado, sob pressão ou com problemas financeiros, dizemos que ela “Está com a corda no pescoço”. Vem da anistia, à última hora, de quem estava prestes a ser executado por enforcamento e era livrado da pena capital com “a corda no pescoço”, sendo “salvo pelo gongo”. Um sufoco quase literal. Se existe a “corda toda”, existe a corda toa, que vem a ser um cabo utilizado para rebocar outra embarcação que está à deriva. Nesse estado, a nau está “à toa” indo ao sabor do paquete-rebocador. Por isso quando alguém caminha contra o vento, sem os devidos documentos e o lenço está “à toa”. Há o sentido pejorativo para designar quem nada produz, mau caráter e prostituição.

Os bichos estão soltos. “Afogar o ganso”, “amigo urso”, “abraço de tamanduá”, “morte da bezerra”, a “vaca que vai para o brejo”, “ver o passarinho verde”, “a pomba da paz”, “a cobra vai fumar”, “fazer uma vaquinha”, “dar com os burros n’água”, “gatos pingados”, “quando um burro fala, o outro abaixa a orelha”, “cão que ladra não morde”, “filho de peixe, peixinho é”, “de grão em grão, a galinha enche o papo”, “cada macaco no seu galho”, “papagaio que acompanha joão-de-barro vira ajudante de pedreiro”, “a cavalo dado não se olha os dentes”, “uma andorinha só não faz verão”, “mais vale um pássaro na mão do que dois voando”… Um zoológico inteiro de expressões. A mais interessante é “tirar o cavalo da chuva”. Ao realizar uma visita a casa de amigos, imaginando a brevidade do ato, o visitante deixava o cavalo, ao relento, à frente da casa do visitado. Papo vai, papo vem, horas tantas – como diz meu querido amigo Carlos Leonam-, com a agrabilidade da visita, o anfitrião grassava: “pode tirar o cavalo da chuva”, o que significava que a demora seria longa e que o equino deveria ser abrigado do Sol e da chuva numa cocheira, normalmente, nos fundos da residência. Atualmente representa desistir de algo que parece impossível. Dizem que Rui Barbosa, pândego, dizia: “pode retirar o equino da precipitação pluviométrica”. Maldade.

Recortei a resposta de Cascudo, dada em entrevista ao caderno “Folhetim” da Folha de S. Paulo, publicada em sete de janeiro de 1979, sobre qual seria seu último desejo.

Câmara Cascudo – O meu último desejo (irônico) é não ir para o inferno. E ir pouco tempo para o purgatório… que eu acho muito interessante. Queria ficar pouco tempo no purgatório para fazer as minhas reportagens, não é? Sobre a situação de lá, sobretudo para não perder a comunicação com os meus leitores brasileiros, não é?”

Não perdeu, jamais perderá!

Então, vamos deixar de deixar de Nhenhenhém, que remonta a “heë”, termo em tupi que significa falar, – diziam os índios “nhen-nhen-nhen” em relação aos  portugueses  que, obviamente, não entendiam nada e vice-versa – e concluir esta crônica.

Dito pelo não dito, tenho dito, porque assim diz o ditado e o dito popular, para bom entendedor meia palavra basta e pingo é letra!

*Carlos Monteiro, 61, é cronista, jornalista, fotógrafo e publicitário carioca. Flamenguista e portolense roxo, mas, acima de tudo, um apaixonado pela Cidade Maravilhosa.

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