Sem papas na língua (continuação)

Por Carlos Monteiro*

Só quando passamos a pesquisar as expressões brasileiras é que nos damos conta do quão vasto é este universo. Câmara Cascudo escreveu um livro com mais de 340 páginas sobre o tema – “Locuções tradicionais no Brasil”. Eduardo Salles Pimenta, em “A Casa da Mãe Joana”, decupou a temática em dois volumes que somados chegam a quase 550 páginas. São tantas que dá para separar por temas distintos. “Caminhemos, talvez nos vejamos depois”.

As pedras que me atirastes ou no meio do caminho tinha uma pedra. Essa virou até adesivo de carro vendido em bancas de jornal. “Com as pedras que me atiras, construirei meu castelo…”. Faz parte do grupo de expressões ‘autoajuda-melosas’ pseudo intelectualizadas, mas que na verdade só servem para emporcalhar o vidro do carro mesmo. Sua origem tem base nobre atribuída a poema de Fernando Pessoa – o que outorgam falsamente ao poeta português “não está no gibi”. Seria os dois últimos versos do poema “Pedras no Caminho”: “…Pedras no caminho?/Guardo todas, um dia vou construir um castelo…”. Qual o quê, basta uma leitura mais acurada e percebe-se que é ‘aportuguesado’ demais. Na verdade, seu autor é Nemo Nox, autor do site “Por um Punhado de Pixels”. Foi publicado originalmente em 2003.

E lá vem mais pedradas. “Com quatro pedras na mão”, em Portugal já são “sete pedras na mão”. Os patrícios lusos se abastecem com mais munição que nós. Diz-se de pessoa belicosa, pouco dada ao diálogo, agressiva por natureza, grosseira e irascível. Lembrou de alguém? Utilizar pedras como armamento remonta 800 a.C., seja para a guerra, para a caça ou para o simples fato de abater uma fruta em seu pé, com o cuidado de não deixar cair o petardo no pé; não da fruta, mas no seu. Eram arremessadas com fundas – Golias e David -, atiradeiras, baladeiras ou estilingue, vale o estado que estiver, ou ainda à mão livre, dependendo da força que havia nos braços. Com o advento das armas de fogo no século XVI, caiu em desuso, no entanto vez em quando, é utilizada numa passeata aqui e acolá. A técnica nasceria com os caçadores do Paleolítico e se manteve até hoje.

Coitada da Lua que não tem nada com isso. “Doido de jogar pedras na Lua” não será açambarcamento único e exclusivo dos loucos com um quê de romantismo. Tem relação com a observação nos manicômios de tais atitudes. Crê-se sejam provocadas pela influência das fases do satélite natural que orbita a Terra. Dizem-no “doido varrido”; outra expressão que perdeu o sentido ao passar dos tempos. O correto é “doido varrido do juízo falando desvarios”. A economia de palavras do povo, fez a frase ficar um tanto quanto sem sentido. Remonta os tempos da inquisição. Como citou Ariano Suassuna “na minha família quem não é doido junta pedra pros doidos jogarem no povo”.

É uma cilada, Bino! Cento e setenta e um, mais conhecido por “171”, designando indivíduos ardilosos, golpistas e mau caráteres. Vem do jargão dos policiais cariocas de 1950-60, anos que imperavam golpes na cidade. Os mais conhecidos eram da venda do bonde, do Pão de Açúcar e do bilhete premiado da loteria. Sua origem está no artigo 171 do Código Penal: Estelionato “Obter, para si ou para outrem, vantagem ilícita, em prejuízo alheio, induzindo ou mantendo alguém em erro, mediante artifício, ardil, ou qualquer outro meio fraudulento”. “Testa de ferro”. Aquele ou aquela cujo poder se faz apenas aparente. Essa expressão vem do rei de Chipre e Jerusalém, Duque Emanuele Filiberto di Savoia, conhecido como Testa di Ferro. Na verdade, encimava o título sem sê-lo; não tinha poder de verdade, ou seja; “era de direito, não de fato”.

Laranja madura, na beira da estrada. A fruta cítrica tão comentada ultimamente. A empresa tinha como “laranja”… A hipótese mais provável para a origem do termo “laranja”, dentre as inúmeras existentes, está no artifício usado para ludibriar a polícia, em países cuja prática de beber em público era coibida. Para iludir a fiscalização, as pessoas “injetavam” bebidas alcoólicas em laranjas e podiam sorvê-las em público sem serem incomodadas.

O vigário do pau oco. O famoso “conto do vigário” tem duas origens catalogadas, uma delas no Brasil e a outra em Portugal. A brasileira, além do vigário vigarista, tem mais dois personagens: um burro e a imagem de Nossa Senhora. Ocorreu numa Ouro Preto, nas Gerais no século XVIII entre as paróquias de Nossa Senhora do Pilar e a da Nossa Senhora da Conceição na disputa da mesma imagem de Nossa Senhora. O vigário espertalhão propôs que amarrassem a santa em um burro ali presente e os colocasse entre as duas igrejas. A igreja para qual o equino se direcionasse, ficaria com a imagem. Não era má ideia, a não ser a de que o bichinho escolhido pertencia ao sacerdote que propôs a prova. “Mostrou o milagre, mas não disse o santo” na verdade vestindo um para desvestir outro. A segunda hipótese está ligada a golpistas portugueses do século XIX. Os salafrários viajavam pelo interior se dizendo emissários do vigário carregados de malas pesadíssimas recheadas de pedras. Diziam se dinheiro e que precisavam guardá-las para seguir viagem, em troca pediam uma quantia monetária em garantia ao ‘bem maior’ deixado ali.

Para essa crônica não virar um testamento ou tratado…continua amanhã.

*Carlos Monteiro, 61, é cronista, jornalista, fotógrafo e publicitário carioca. Flamenguista e portolense roxo, mas, acima de tudo, um apaixonado pela Cidade Maravilhosa.

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