Paraná é o segundo estado com menor número de policiais civis por habitante

Sindicatos apontam defasagem em todos os postos; só delegados, faltam mais de 200

Cecília França

Foto em destaque: Fabio Dias/PCPR

O Paraná tem hoje um efetivo de 3.868 policiais civis, sendo 372 delegados, 628 escrivães, 2.580 investigadores e 273 peritos. Os dados são do Ministério da Justiça e revelam um contingente defasado em todos os postos, segundo entidades que representam a categoria. São 2.977 habitantes por policial, índice inferior apenas ao do estado do Maranhão, onde há um policial para cada 3.534 pessoas. O concurso previsto para ocorrer no último fim de semana, e cancelado de última hora*, não supriria essa falta histórica.

Antonio Simião, presidente do Sindicato dos Delegados de Polícia do Paraná (Sidepol) diz que a defasagem apenas de delegados supera 200 profissionais, enquanto o concurso previa 50 vagas. “É um concurso difícil, tivemos mais de 100 mil inscritos e os gastos para você selecionar 50 ou 200, ao meu ver, é o mesmo. Seria uma falta de habilidade a administração não fazer um concurso com 300 vagas. Não precisa contratar todos de uma vez”, defende.

Simião destaca que o número de delegados é inferior ao de municípios do Paraná (399). Considerando que cidades maiores contam com vários – em Londrina atuam 14 – um grande número de cidades não dispõe desse profissional. “Um delegado atenderia mais de 30 mil habitantes no Paraná. Como nem todos estão na linha de frente, esse número é ainda maior”, afirma.

Como agravante há o fato de os delegados serem obrigados por lei a estarem in loco em casos de flagrantes. “Além dele estar presente, ele faz a PM, que conduz o preso, ficar esperando. E isso também faz com que o delegado tenha que se deslocar de uma Comarca para outra, que, às vezes, fica a quilômetros de distância. Afeta também a saúde dele”, diz.

As condições de trabalho tem gerado maior adoecimento e mortes entre a categoria, de acordo com os representantes. “Os delegados e investigadores estão num nível de estresse muito grande. Cotidianamente estamos vendo policiais morrendo em ação policial, por suicídio ou doença”, conta Simião.

“É tão grande o reflexo disso que eu, há 29 anos na polícia, nunca vi tanto suicídio de policiais como vi nos últimos três, quatro anos. A instituição está tão preocupada em mostrar apenas números está impondo escala de trabalho impraticável”, afirma Eli Almeida de Souza, presidente do Sindicato dos Policiais Civis de Londrina e Região (Sindipol), para quem a Polícia Civil do Paraná (PCPR) deveria contar com cerca de 15 mil servidores.

Outro ponto de desgaste entre a categoria é a defasagem salarial que, de acordo com Simião, passa dos 30% nos últimos cinco anos. Souza acrescenta que a PCPR já teve o terceiro maior salário do país, hoje tem o décimo, e não descarta uma paralisação da categoria. “Fizemos assembleia na regional toda quando o governo suspendeu o reajuste e foi deliberado manifestações que vamos fazer, mas não está descartado paralisações nas próximas semanas”, revela.

Reajuste

Após uma greve do funcionalismo público em 2019, o governo Ratinho Júnior negociou o pagamento de um reajuste de 5,09% em três parcelas. Em janeiro de 2020, o reajuste foi de 2% e em janeiro de 2021 e 2022, seria de 1,5%, mas a parcela deste ano foi suspensa. O governo aponta impossibilidade de bancar o reajuste diante da queda na arrecadação decorrente da pandemia.

“Um investigador em início de carreira não ganha três salários mínimos regionais”, informa Eli Almeida de Souza. “Subiu o gás, o combustível, o alimento, então como é que fica um negócio desse?”, questiona Antonio Simião. Os dois sindicatos enviaram ofícios ao governo pedindo audiências com o governador para expor a situação dos policiais civis, no entanto, Simião diz que seu pedido foi encaminhado à Secretaria de Estado da Segurança Pública (Sesp). Já Souza foi direcionado à Casa Civil.

Posicionamento

Em resposta a questionamento da reportagem sobre a defasagem no efetivo, a PCPR, em nota, reconhece “que este é um problema histórico” e afirma que um planejamento conjunto entre a instituição, a Sesp e o Governo do Estado busca solucionar o problema. “As provas do Concurso Público atual, para os cargos de delegado, investigador e papiloscopista, deveriam ter sido realizadas em julho de 2020. Esses profissionais já estariam nomeados se o cronograma não fosse impactado pela pandemia”, completa a instituição.

Quanto aos escrivães aprovados em um concurso de 2018, a PCPR informa foram nomeados 192 servidores, quase o dobro das 100 vagas previstas no edital. Esses profissionais estão, atualmente, em Curso de Formação Profissional na Escola Superior da PCPR.

A Sesp não respondeu nossos questionamentos até o fechamento da reportagem.

*O concurso do último domingo tinha 106 mil candidatos concorrendo a 400 vagas, sendo 50 para delegados, 300 para investigadores e 50 para papiloscopista. O Núcleo de Concursos da Universidade Federal do Paraná (UFPR), organizador da prova, anunciou seu cancelamento apenas na madrugada anterior alegando impossibilidade de manutenção da segurança dos participantes.

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