Impacto do ensino remoto vai além da educação para famílias periféricas

Pandemia e fechamento das escolas trazem mais dificuldades à rotina e ao orçamento familiar

Milene Pascoal
Colaborou Cecília França

O ano letivo de 2021 na rede municipal começou no último dia 4 de fevereiro de forma remota, sem previsão para retorno presencial ou modelo híbrido. O decreto municipal de nº 85, de 23 de janeiro, prorroga a suspensão das aulas presenciais em todas as instituições escolares, públicas e privadas, em decorrência da pandemia do novo coronavírus. Nesta semana o Governo do Estado também prorrogou o retorno híbrido das aulas, mantendo o ensino remoto até 1° de março.

Luciane Guimarães, mãe de quatro alunos matriculados na rede municipal, diz que os filhos estão desde o começo da pandemia sem estudar por falta de acesso à internet. “Precisava buscar o material, as escolas ficam longe, são quatro crianças, o único celular que eu tinha acesso à internet para as atividades estava sem condições, e não conseguimos fazer nada. O que eu conseguia fazer, eu mandava. Eles perderam muita aprendizagem”, conta ela.

Luciane mora na ocupação Morro do Macaco, no Maria Cecília, e com a pandemia teve ainda outras dificuldades: o esposo ficou desempregado e só conseguiu trabalho no último mês, com reciclagem. Ao mesmo tempo, ela precisou abrir mão de diárias para ficar em casa com as crianças, trazendo mais dificuldade ao orçamento familiar.

Desde então, contou com o Auxílio Emergencial, pago pelo Governo Federal até o final do ano, recebeu cestas com alimentos de uma das escolas até dezembro, e agora conta apenas com o Bolsa Família, que sofreu diminuição, segundo ela, e com ajudas da CUFA Londrina (Central Única das Favelas), de professores da Universidade Estadual de Londrina (UEL) e outras doações. Neste último mês, Luciane ficou sem escolha: está deixando as crianças em casa para fazer extras.

Essa rotina de dificuldade também faz parte do dia a dia da família de Marília Mafra, que mora no mesmo local e tem cinco crianças em idade escolar. Antes, Marília conseguia trabalhar enquanto as crianças estavam na escola, mas com a pandemia, ela ficou desempregada junto ao esposo, que se acidentou, e não recebeu afastamento pelo Instituto Nacional do Seguro Social (INSS). A família ainda ficou três meses sem receber o auxílio emergencial.

“Os meus filhos que são da rede estadual ainda conseguiram fazer alguma coisa durante a pandemia, mas ficamos três meses sem acesso à internet. Nossa prioridade era a alimentação. Sentimos impacto na educação das crianças e na questão financeira, porque a nossa situação de vida piorou em condições de trabalho, em não ter como deixar as crianças com alguém, e ainda com dificuldades nas atividades escolares”, relata.

De acordo com a secretária municipal de Educação, Maria Tereza Paschoal de Moraes, os alunos da rede municipal recebem o plano de ensino dirigido (PED) com orientações sobre as atividades que serão desenvolvidas durante o período, e também há atendimento individual para mapeamento de dificuldades. Sobre o apoio às famílias carentes, ela afirma que os alunos que são beneficiários de algum programa da assistência social recebem, todos os meses, uma cesta básica para ajudar.

‘Sei que é arriscado, mas prefiro elas irem pra escola’

Kauana Raissa da Silva, mãe de três meninas, duas em idade escolar, perdeu a renda como diarista durante a pandemia. A situação piorou a qualidade da alimentação das filhas e comprometeu os estudos. “Não dava bem para acompanhar (ano passado) as coisas online porque o meu celular não presta”, diz ela. Moradora da ocupação do Primavera, Kauana soube do novo adiamento do retorno das aulas presenciais pela reportagem da Lume.

“Sei que é meio arriscado, mas eu prefiro elas irem pra escola”, afirma. Sobre os motivos que a levam a pensar assim estão, principalmente, a dificuldade em acompanhar os estudos da mais velha, Raica, de 7 anos. “Ela não se desenvolveu bem, não sabe nem ler ainda”, diz, enquanto a menina mostra o material recebido da escola.

Kauana e as três filhas. Fotos: Bruno Mazzoni

Kauana tem recebido ajuda de Maria das Graças Dias Silva, uma líder comunitária e vizinha, para alimentação da família. Maria tem uma filha de 14 anos, aluna da rede estadual, e relata outra rotina de dificuldades. “Foi difícil porque ela não tinha celular, dividia com as filhas das vizinhas e eu dava R$ 50 do Bolsa Família pra ajudar a por crédito. Agora ela ganhou um celular velho e não tem nem como pegar o telefone dos amigos, porque não encontra eles”.

Os frascos de álcool em gel espalhados pela casa mostram o cuidado de Maria para não se contaminar com a covid-19. Para ela, só resta torcer para que tudo volte ao normal logo e a filha possa retomar os estudos de forma efetiva. “Faz falta. A professora ensina melhor que o celular”, declara.

Rede Estadual

O ano letivo na rede estadual está marcado para começar a partir de 18 de fevereiro, com atividades remotas. Pelo Governo do Estado, a partir de primeiro de março as escolas estaduais podem adotar o modelo híbrido, que mescla aulas presenciais e remotas, apresentado pela Secretaria do Estado da Educação (Seed) como alternativa não obrigatória para a reabertura das escolas.

As aulas presenciais foram suspensas pelo Governo do Paraná em 20 de março de 2020, passando ao ensino remoto, por meio de televisão e internet.

Um comentário em “Impacto do ensino remoto vai além da educação para famílias periféricas

  1. É uma situação complicada. Quando se coloca que a mãe prefere algo, seria entender que ela tem escolha. Muitos não preferem, simplesmente precisam que as aulas voltem porque precisam trabalhar e não têm como deixar as crianças sozinhas. A pandemia serve para refletirmos sobre muita coisa, como o papel do Estado na vida das pessoas, assim como da escola. Voltar para muitos é uma necessidade, independente de se pensar nos riscos existentes. No entanto, são vários atores neste processo e todos merecem ser respeitados e ouvidos: pais, estudantes, professores, entre outros.

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