‘A gente já teve pico da covid em Londrina? A resposta é não’, diz matemático da UEL

Eliandro Cirilo acompanha os dados da pandemia desde o início e prevê aceleração dos números até o fim de janeiro: “Meu sentimento é que teremos um pico substancial no final do mês”

Cecília França

O professor Eliandro Cirilo, da Universidade Estadual de Londrina (UEL), tem acompanhado a pandemia desde o seu início. Neste período já redigiu, em parceria com outros docentes e estudantes, dois artigos: um sobre a dinâmica da infecção no Brasil, Estados Unidos e Colômbia e outro sobre a situação em Londrina. O docente ainda atualiza, quinzenalmente, um site onde mostra, em gráficos, a evolução da doença na cidade e faz simulações para o futuro.

“Qual o sentimento que eu tenho: que nós teremos um pico substancial no final do mês de janeiro, por causa do Natal, do Ano Novo, das férias, viagens. E fora que as pessoas já estão exaustas com essa questão do isolamento”, explica. Cirilo avalia que Londrina ainda não teve um pico da infecção e nem finalizou a primeira onda porque “a forma como a prefeitura e as próprias estão lidando com a pandemia está de certa forma controlando”.

“Até dezembro a gente não tinha um surto de espalhamento da doença na cidade. Ela ia evoluindo, mas não estava numa situação descontrolada. No começo da pandemia a gente ouvia muito falar sobre achatamento da curva para que o sistema de saúde tenha capacidade de cuidar das pessoas. Isso nós estamos vivendo em Londrina, então a gente não tem caracterizado aqui um pico da doença”, detalha.

Olhando os gráficos produzidos por Cirilo e equipe, alimentados a cada 15 dias, conseguimos entender o que ele trata como ausência do pico (veja abaixo). As bolinhas são os números oficiais divulgados pela prefeitura e a linha é a simulação. Após a subida de início realmente não há um pico considerável. Podemos destacar o dia 04 de setembro como o ponto levemente mais alto.

“Essa curva tem uma tendência de diminuir e ir a zero. Se isso acontecer ali seria o nosso pico, 04/09, mas a gente não pode falar que o pico aconteceu ali em setembro porque a doença é dinâmica. Se as pessoas deixarem de se cuidar, o que acontece é um aumento da chance das pessoas se infectarem, porque como elas vão interagir mais, tem uma probabilidade de maior de infecção pela covid”, diz.

Em dezembro já tivemos mais casos de covid-19 que em todos os outros meses da pandemia, foram mais de 6,5 mil. Em janeiro, a expectativa é que os números aumentem ainda mais. “Por volta do dia 14 de janeiro devemos ter uma informação importante”, avisa Cirilo.

Prevenção

O docente avalia como eficazes as medidas implementadas pela Prefeitura de Londrina no início da pandemia, em março, quando as atividades econômicas permaneceram fechadas para conter a evolução da covid-19. Ao longo dos meses, houve reabertura escalonada e restrições de circulação foram mantidas, como o acesso de idosos e crianças a determinados estabelecimentos.

“Quando você olha para o gráfico novamente, a curva em preto tem um salto rápido para cima no início. Esse salto rápido, se o prefeito não fizesse nada, se o comércio não tivesse uma atitude de austeridade, ali a curva continuaria subindo”, explica Cirilo.

O gráfico abaixo, de incidência da doença, mostra que em Londrina chegamos a ter um Rt (taxa de incidência) maior que 4,8. Isso significa que um infectado tinha a capacidade de transmitir a doença para praticamente outras cinco pessoas.

“Se a prefeitura não tivesse feito nada, se a população não tivesse tido cuidado, esse número sairia de 5 para 10, 20, e aí teríamos uma coisa absurda na nossa cidade, que é a transmissão para uma grande parcela da população. A consequência: os hospitais não iam ter capacidade para atender”, avalia.

“A gente não tem uma forma eficaz de acabar com a doença. Agora que estamos verificando a possibilidade de uma vacina, mas não tenho isso ainda. Como única medida temos o uso de máscara, o distanciamento, as pessoas que podem trabalhar nas suas casas, que isso seja feito, aquela que tem que sair que tente ter o máximo de cuidado”, relembra o matemático.

O site atualizado por Cirilo e equipe pode ser acessado aqui.

Artigos

O professor Eliandro Cirilo. Foto: Agência UEL

O artigo científico produzido por Cirilo e outros matemáticos da UEL e da Colômbia sobre a comparação da evolução da pandemia no Brasil, nos Estados Unidos e na Colômbia já foi aceito por uma publicação e circulação internacional e está em fase de revisão. Ele conclui que não há diferenças entre as manifestações da doença em países em desenvolvimento e ricos.

“Quando a gente escreveu o artigo a pergunta era a seguinte: qual a semelhança? O Brasil tem dimensão continental, os EUA também. Será que esse fator pode fazer a doença se agravar ou não? Por outro lado, os três países são bem diferentes economicamente. Será que o fato de um país ser mais rico que o outro faz com que ele tenha alguma vantagem ou desvantagem em relação à covid? A conclusão é que a covi-19 não respeita fronteira, não respeita se o país é rico ou pobre, é indiferente”, afirma.

O artigo sobre Londrina, produzido em parceria com dois alunos – um de graduação e outro de Mestrado – também já foi submetido a uma revista científica local e o grupo aguarda resposta.

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