366 – quase o número da besta

Por Carlos Monteiro*

Hoje, quinta-feira faz exatos, 366 – só faltou mais um seis para ser o ‘Cavaleiro do Apocalipse’ em números cabalísticos – dias desse ano horroroso.

Foram 366 dias de angústias e medo do porvir. Choramos, rimos, cultivamos paúras, neuras, novos hábitos – lavar saco de feijão e arroz, quem diria?! Deixar os calçados fora de casa como os japoneses fazem há milênios como um hábito de higiene, diga-se de passagem -, quem pensaria? Para alguns a mão passou a tirar onda com o fígado, tal foram os litros e mais litros gastos com sua pessoa em detrimento de ‘Seu Figueredo’.

Dia libertário. Dia da virada da chave!

Fotos do Rio de hoje, por Carlos Monteiro

Trezentos e sessenta e seis longos dias à espera do “amanhã”.

Muito mudou, nada mudou.

Como ouvi de Nélida Piñon, falando do adorado Gravetinho Piñon, seu cão gourmet da raça pinscher, em entrevista a querida Anna Ramalho durante uma de suas maravilhosas lives: “— eduquei-o a ser mal-educado”. Acredito que vivemos nesses tempos de pandemia desta forma: sendo reeducados e aprimorados ou simplesmente sendo deseducados. Alguns, valorizaram muito mais o egoísmo, a ganância, a disputa pelo poder, a mais-valia, a carteirada, a capacidade de ser idiota e competir com os imbecis, de abrir a boca para falar besteira – me desculpem as bestas -, de negar o óbvio, do “farinha pouca meu pirão primeiro” do que a natureza de ser feliz.

Os dias têm amanhecido mais cedo, é verão! Nesta quinta, às 4h25 já havia luz no firmamento. Lembrei-me de Hiroshima, triste lembrança. São 75 anos ‘comemorados’ em 2020 em que, como poetizou Vininha, “…Penso nas crianças/Mudas, telepáticas/Penso nas meninas/Cegas, inexatas…”.

Os pássaros de aço, cada dia mais, voltaram a tirar o espaço das fragatas bailarinas e dos urubus festeiros, que insistem em se aglomerar nos céus cariocas. Ambos, hoje, sequer se fizeram presentes, já os biguás estão em plena atividade migratória entre a Ponte Rio-Niterói, a Ilha do Governador, a Praça XV e a Lagoa Rodrigo de Freitas. Não se cansam, inclusive, de ‘premiar’ os desavisados que correm, caminham ou passeiam de bike pela calçada-ciclovia, empoleirados na desfolhada árvore da Curva do Calombo onde, no Dia de Natal, nosso amado e intrépido Joaquim Ferreira dos Santos, foi surrupiado por um larápio de seu meio de comunicação; assaltaram-lhe o celular. Coisas do Rio que jamais deveriam acontecer.

A bolha de sabão incandescente, explodiu em luz e cor no seu malabarismo pelo espinhaço acima. Agora altaneira o Tabajaras. Sobe quente, fumegante, é verão!

São trezentos e sessenta e seis sóis nascidos, trezentas e sessenta e seis esperanças de que tudo ficaria bem. Trezentas e sessenta e seis voltas em Baden, que completaria 83 anos em 2020: “…Voltei/A lembrança pedia/Pra eu voltar/A saudade mandava/Me chamar/E quando bate a saudade/Eu retorno/De onde estiver…”.

O bondinho de açúcar e afeto, em um vai e vem frenético, se equilibrando na ‘highline’, imita a dançarina que chega beijando o funcionário que sai. Voltou aos seus dias de glória como a Band News; a cada 20 minutos uma nova viagem.

Como o professor Pasquale Cipro que, debrua seu “tira-dúvidas” diário pela CBN, lembro dos irmãos Valle – Paulo fez 80 este ano – e Nelsinho Motta “de cu para a Lua”: “…Hoje é um novo dia/De um novo tempo que começou…/…O futuro já começou…”.

Que estes 366 dias tenham sido de reflexão, de superação, de vitórias, de sobrepujança racional.

Que venha a cura, a vacina, o imunizante, tenha a nacionalidade que tiver, pouco importa. Que prevaleça o amor, a caridade, o bem comum, a reflexão, a humanidade verdadeira, a humildade, a esperança…

Que o “novo normal” seja esperança, seja Sol de verão.

Que venha 2021, que seja amor pleno!

*Carlos Monteiro, 61, é cronista, jornalista, fotógrafo e publicitário carioca. Flamenguista e portolense roxo, mas, acima de tudo, um apaixonado pela Cidade Maravilhosa.

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