Mulheres trans e travestis enfrentam o risco da pandemia para sobreviver

Como a maioria vive da prostituição, isolamento não é opção para elas durante a crise sanitária; militante faz paralelo entre o cenário atual e a pandemia de HIV/Aids

Cecília França

Elas não pararam de trabalhar ao longo da pandemia. Além dos riscos habituais de quem trabalha nas ruas, mulheres transexuais e travestis que vivem da prostituição enfrentam, há meses, o risco adicional da contaminação por covid-19.

Militante dos direitos dessa população em Londrina, Christiane Lemes, 57, criou, junto a outros ativistas, o coletivo “Ubuntu-Sou porque somos” para apoiá-las durante a pandemia. Mesmo assim elas seguiram suas rotinas de trabalho.

“Elas praticamente se deixaram levar, estão trabalhando normalmente, não tem como levar a coisa a sério porque se ela não trabalha ela não come. Essa foi a parte que eu achei mais pesada”, relata Christiane, que vivenciou a pandemia de HIV-Aids na década de 1990 e traça um paralelo entre os dois momentos.

“O homem sai da casa dele, vai procurar uma trans na rua ou vai na casa de uma trans, ele tira a máscara e fica como se não estivesse acontecendo nada. E acaba, provavelmente, até levando o vírus para dentro da casa, como aconteceu na época da Aids. Analisando isso fiquei meio assustada e falei com elas ‘Eu já passei por isso’”.

Nesta entrevista Christiane é uma porta-voz dessas mulheres. Ela responde às nossas perguntas deixando claro que as respostas foram construídas em conjunto com as trabalhadoras da noite.

Leia a entrevista completa à Rede Lume.

Qual foi o maior impacto da pandemia na vida das mulheres trans que vivem da prostituição?

No decorrer de tudo isso a gente foi vendo que elas não tinham escolha, porque o trabalho delas é na rua mesmo. Então, praticamente elas se deixaram levar, estão trabalhando normalmente, não tem como levar a coisa a sério porque se ela não trabalha ela não come. Essa foi a parte que eu achei mais pesada, escutando isso delas “Se eu não trabalhar eu não como. Eu tenho aluguel, tenho água, tenho coisas para pagar. De onde eu vou tirar?”.

Olhando por outro lado, isso tanto agora nessa pandemia quanto na pandemia da Aids – Se você comparar as duas, trouxeram impacto quase igual, assustador, pânico – os homens saem da casa deles, vão procurar uma trans na rua ou vão na casa de uma trans, ele tira a máscara e fica como se não estivesse acontecendo nada. E acaba provavelmente até levando o vírus para dentro da casa, como aconteceu na época da Aids. Analisando isso fiquei meio assustada e falei com elas “Eu já passei por isso”. Mas elas dizem “Se eu não trabalhar, eu não como. Se eu não pagar o aluguel, vou ser expulsa”.

“A gente não vê nada que foi pensado para elas, como um local para essa população quando envelhecer”

Christiane Lemes

Elas tiveram acesso ao Auxílio Emergencial do Governo Federal?

Muitas não vão atrás, por variados motivos. Foram poucas que conseguiram.

Você acha que nesse período a violência contra elas aumentou?

A violência delas para com elas mesmas. São elas se violentando no sentido de sobrevivência. Porque no trabalho que elas fazem elas servem como “psicólogas” para esses clientes. Eles vêm trazer os problemas deles para desabafar com elas porque sabem que vai morrer ali. São elas agredindo a elas mesmas por causa do trabalho. Acho que nossa população precisava entender que a prostituição produz bem por um certo tempo, depois acaba, como a vida de modelo.

Depois que chega nesse ponto de não conseguir mais trabalhar elas estão preparadas para outro caminho?

Poucas. Algumas têm estudo, outras não. Algumas têm família, outras já perdem no começo da trajetória delas. E acabam em casas de apoio ou em casas de amigas, tentando contribuir com o que podem, como serviço doméstico. A gente não vê nada que foi pensado para elas, como um local para essa população quando envelhecer. Nós temos local para portadores de HIV, para alcóolatras, mas só pela idade não abre brecha para elas estarem nessas instituições.

No programa eleitoral do candidato do PT à prefeitura de Londrina você comentou que na gestão do partido vocês tiveram atenção do poder público. Quais foram as conquistas desse período?

Eu venho da rua também, desde 1984 e no decorrer de tudo isso venho analisando o que foi feito por nós. Aqui em Londrina, na gestão de Nedson Micheleti (2001-2008), foi onde nós conseguimos a Lei 8.812/2002 (que pune estabelecimentos e pessoas que ofendam ou constranjam outras em função de sua orientação sexual ou identidade de gênero). Por mais que o apoio foi muito vago, mas tivemos. E da Elza Correia também. Depois que acabou o Adé-Fidan, fomos para a área de gênero, onde começamos (a encarar) o primeiro problema: escola e saúde. Como uma mulher trans vai para a escola e vai ser chamada de “fulano de tal”? Nome social também foi na gestão do PT que nos ajudaram. Nós não queríamos um apelido, queríamos um nome mesmo, troca de gênero. A Antra (Associação Nacional de Travestis e Transexuais) entrou com ação, a Dilma nos recebeu. Por mais que fizeram por obrigação, mostraram que essa população também existe. Hoje nós temos trans professoras, que voltaram a estudar, que se formaram. Porque antes elas se formavam primeiro para depois mostrarem o lado feminino delas. Hoje elas vão já como mulheres trans. Na minha análise total, de todas aquelas que tiveram curso superior, elas se esconderam até terminar o curso, depois que começaram a viver a vida delas como mulheres. Hoje não. Esse é um orgulho.

Na época do PT nós também tivemos muitos auxílios, onde as ongs recebiam um bom tanto para capacitar essa população de travesti. Foram capacitadas muitas travestis dentro de Londrina. Brasil sem Homofobia também foi na gestão do PT. Então, qual governo olhou por nós?

As mulheres em geral têm uma dificuldade grande ainda em denunciar violências. Para as mulheres trans é ainda mais difícil?

Hoje não. Porque quando elas se sentem ameaçadas uma conta para a outra, procuram a mim também, então elas têm essa segurança na gente. Hoje também elas entram na Maria da Penha, mas elas têm vergonha de ir sozinhas registrar a queixa. A gente orienta que tem o disque 100 para se informar certinho. Mas nós, travestis, a gente já sai de casa “armada”. A gente já está pronta para a guerra. Então do mesmo jeito que a gente vai receber o ataque a gente já está preparada para se defender.

Que tipo de mudança precisa acontecer para garantir direitos plenos para mulheres trans como cidadãs. É uma mudança cultural?

É uma mudança cultural. Eu sinto que isso está prestes a acontecer, se tivéssemos um pouco de apoio desse governo. Hoje eu tenho mais acesso às pessoas. Tenho vizinhas que quando descobrem que o filho é afeminado vêm me procurar para saber o que fazer. Eu explico “Abraça seu filho enquanto é tempo. Se não a rua vai abraçar e ali vem a droga, o submundo.”. Só nós que passamos por lá sabemos o que é aquilo. Eu vejo a família abraçando mais essas pessoas nessa geração. Se tivéssemos um pouquinho mais de apoio do presidente, e não tanta transfobia como está acontecendo, quem sabe até seria um bom passo. Nossa luta vem de tempos, é sempre o mesmo objetivo. O que ganhamos praticamente estamos perdendo agora.

O grande orgulho que eu tenho de Londrina é que a maior parte das mulheres trans aqui mora com a família, tem apoio familiar. Enquanto as que vêm de outros Estados já perdem esse contato pela estrada. Aqui esse núcleo familiar nos ajuda bastante.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s