O Rio está perdendo a bossa

Por Carlos Monteiro*

Há tempos o Rio vem perdendo a bossa de ser Rio, berço samba, de lindas canções e da Bossa Nova. Se foi o Tom que dava timbre sinfônico à cidade. O Rio perdeu o tom e a tonalidade.

Se foi o Veloso, virou Garota de Ipanema, mas, as meninas continuam coloridas pelo Sol, naquele doce balanço a caminho do mar. Se foi a Toca do Vinícius, ficou virtual. Agora, os longos papos com o Carlos Alberto passam a ser pelos caminhos da fibra óptica. As garrafas já não voam, zunidas por vizinhos desafinados, naquele beco, de cujos canteiros brotaram notas musicais. A Cidade Maravilhosa vem desafinando, ainda que, no peito bate calado um coração semitonando, vai ficando afônica e atônita.

Uma onda se ergueu no mar, em ventos sudoeste, no canto do Leblon. Um turbilhão feroz vem arrasando tudo que há pela frente, um tsunami devastador de partituras compostas pela história musical, prensadas nos long-plays, ouvidos nos assobios dos ventos terrais ou na leve brisa do entardecer carioca.

Esse calhau ‘virou mais uma vaca’ que veio em forma de comunicado em tom fúnebre: “É com grande pesar que informamos aos nossos queridos clientes e amigos a suspensão das nossas atividades no dia 16/11/2020. Nos sentimos muito honrados e orgulhosos por termos feito parte da bela história da Casa Villarino, um dos berços da Bossa Nova e ponto de encontro de intelectuais e artistas. Agradecemos a todos aqueles que nos prestigiaram com sua presença desde 1953. Continuamos com o e-mail para contato csvillarino@gmail.com e as redes sociais“.

Foi na Villarino, pela conspiração de Santa Cecília, Euterpe, Erato e Apolo, naquele velho verão de 1956 que, Lúcio Rangel, intuído pela santa, pelas deusas e pelo deus greco-romano, teve a felicidade de apresentar Tom Jobim a Vinícius de Moraes, para a divina música de “Orfeu da Conceição”. As rezas foram tão fortes e, sobretudo, os cantos tão maviosos que se tornaram parceiros para uma vida inteira.

A casa embalou, em seu berço, a Bossa Nova. A viu nascer, dar seus primeiros passos pelos pisos ladrilhados com pedrinhas de brilhantes, pastilhas coloridas que, mesmo corroídas pelo tempo, não ficaram desgastadas na memória e continuam a formar mosaicos geométricos.

A Villarino tem um charme todo especial. Nas cadeiras vermelhas, nos tampos das mesas em mármore rosa-Bahia, apoiados em bases de ferro pretas, nos letreiros onde se lê: “líquidos e comestíveis”, nas paredes forradas em radica apresentando um ar de nobreza para a whiskeria. Nas velhas imagens em branco e preto, como num álbum de retratos foram, ao longo do tempo, colecionadas cuidadosamente por entre dias tristes e noites claras.

Vai fazer falta, muita falta.

Em 25 de janeiro não haverá muito para comemorar além, é claro, do aniversário de Antônio Brasileiro de Almeida Jobim. O Dia Nacional da Bossa Nova será para pedir a tristeza que diga ao Villarino que volte.

Do bar, daquele cruzamento de Calógeras e Presidente Wilson, vou colecionar sonetos, retratos em branco e preto, retalhos na memória, maltratando meu coração. “Quero chorar porque te amei demais…/…Será que tudo que há em mim/Só quer sentir saudade…”?

Chega de saudade…

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