Cancelamentos

Por Carlos Monteiro*

É, a coisa está feia. “Cancelaram”, palavra da moda virtual, mas que aqui não tem relação. Cancelaram o Especial de Fim de Ano do Roberto Carlos. Este ano, não vai ser igual aquele que passou. Este ano vai ser reprise. As músicas serão as mesmas que embalaram gerações, lembrando emoções, botões de blusas ao café da manhã; detalhes de tantas vidas já vividas e vívidas.

Aquele comercial com BG de “… Quando eu estou aqui/Eu vivo esse momento lindo…”, anunciando a atração junto com “já é Natal na Leader Magazine”, nos lembrando que o ano finda, que vamos engordar uns quilos mudando do “em forma” para “em forma redonda”, que a correria “natural” parece transformar-se em competição acirrada, prova da São Silvestre nos templos destinados ao deus ‘Consummuns’, espalhados pela cidade. Também nos lembra do velho lugar comum do “só peru que morre de véspera”. Na verdade, o peru virou chester e, pelo que julgo, morre bem antes das festas natalinas.

Tempos difíceis, tempos complexos, título para livro. Juntamente com “1968 – O Ano que Não Terminou”, do Mestre Zu e “Feliz 1958 – O Ano que não Devia Terminar”, do queridíssimo Joaquim Ferreira do Santos, 2020 deveria ser descrito em forma de biografia a quatro mãos por ambos – #ficaadica -. O título é fácil: “2020 – O Ano que não Deveria ter Existido”!

Fora a pandemia que assolou o planeta, mostrou caráteres, desvendou posturas, desafiou a ciência, trouxe novos verbetes aos dicionários como: ”negacionista”. O ano de 2020 nos mostrou facetas nossas e possibilidades infindas de adaptações. Apresentou docilidades, gestos solidários, empatias e “dar as mãos” nunca dantes vistos.

Cancelar, depois de ‘Lockdown’, deve ser a palavra mais famosa e utilizada neste ano. Cancelamentos estão por todos os lados. Teve deputado querendo cancelar eleição, gente cancelando o princípio básico do direito que é apresentação de provas para se formalizar uma acusação, tem bares tradicionais sendo cancelados por conta da crise, lojas sendo canceladas por quedas absurdas no faturamento, eventos tradicionais cancelados como a FLIP e o Carnaval carioca de 2021.

O que realmente precisamos cancelar é o racismo sistêmico e estrutural. Cancelar a fome e a miséria que graça no país, a homofobia e a transfobia, a intolerância religiosa, a xenofobia, a misoginia desenfreada, absurda e retrógada. Cancelar a politicagem barata que age em prol do “farinha pouca, meu pirão primeiro”, a violência, truculência e insensatez.

Podíamos nos reunir em um megagrupo no Whatsapp, fazermos um abaixo-assinado eletrônico e reivindicar o cancelamento de 2020. Darmos um basta em tudo isso!

*Carlos Monteiro, 61, é cronista, jornalista, fotógrafo e publicitário carioca. Flamenguista e portolense roxo, mas, acima de tudo, um apaixonado pela Cidade Maravilhosa..

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