Tá lá o corpo estendido no chão…

Por Carlos Monteiro*

Pois é, Carlos Eduardo queria ser passarinho, queria voar em sua liberdade. Queria liberdade para voar. Tinha algo de Mário Quintana no discurso quando alguém o ignorava e negava, a ele, o pão nosso de cada dia. Falava de respeito, falava de humanidade. Estava na pele! Falava, pedia implorava.

Ele tinha um “…eles passarão, eu passarinho” naquela praça de Ipanema que, pelos revezes da vida, acolhe-o como casa. Carlinhos era um dos milhares cidadãos em situação de rua, um desses milhares “invisíveis” que não enxergamos no dia a dia tumultuado e desesperançoso da nossa corrida pelo pão e pelo vinho ou que, talvez, nem queiramos enxergar.

Carlos Eduardo tinha nome e sobrenome, era Pires Magalhães, mas, quando visto por alguém era o “mendigo”, o “marginal”, o “drogado” ou, simplesmente, o “incômodo”. “Tirem esse sujeito daqui; meu café da manhã é sagrado!”. “Que saco, quero fazer meu desjejum em paz!”.

Passava seu sobrenome, diariamente, à frente da padaria. Pedia, insistia, implorava pela média com pão e aquela grossa camada de manteiga. Tinha fome, tinha sede, tinha vida naquele pequeno oásis da Paz, espaço que o acolhia. Aquela mísera média no copo americano: mais leite, menos café.

Vivia naquela praça com “…Seus olhos embotados de cimento e lágrima…”. Naquela sexta-feira, tropeçou no chão, da padaria, como se fosse um bêbado, apenas a queda de um pacote flácido, agonizante no meio do salão público. Sangrava. Flutuou no ar como se fosse um pássaro que sempre fora. Carlinhos morreu na contramão, atrapalhando o tráfego daquela manhã de breakfast. A economia não pode parar! Fritz Lang, Metropolis.

Não era sábado, era sexta. Sentou para pedir socorro, sangrava, a tuberculose já o tomava por inteiro. Chamem o SAMU! Chamem Deus! Um invisível agoniza. Caiu, morto estava, náufrago da insensatez, náufrago dos corações esquecidos… Era apenas: “…Por esse pão pra comer, por esse chão pra dormir/A certidão ‘pra’ nascer e a concessão pra sorrir/Por me deixar respirar, por me deixar existir/Deus lhe pague…”. Oh, Deus!

Nem certidão tinha…! A “carpideira” foi sua mãe, a quem nunca esqueceu e a quem sempre pedia “bênção” nas ligações via Intelsat diárias. Não dava notícias do Pasquim, dizia apenas como estava. Não estava.

Foi coberto pelas moscas bicheiras que o beijaram e o tomaram durante os quatro anos sem banho. Enfim, a paz derradeira não o redimiu. Jazia ali, sob sacos de lixo. Apenas um pé, descalço, desnudo. Apenas um pé mostrava que, ali, jazia um ser humano. Tudo estava separado por um pé. Tudo pelo desprezo!

Quando baixarão os santos da humanidade na humanidade, quando?

Entre fornadas e automóveis ali jazia um corpo sob os sacos de lixo, aquela construção invisível chamada, pela espúria racista, como “Macaquinho”. Não, não era! Ali estava um ser humano chamado Carlos Eduardo Pires Magalhães. Um brasileiro. Ali estava Carlinhos! Ali estava um esquecido. “A morte é o novo banal” escreveu Joaquim Ferreira dos Santos. Banalizamos até a libitina! Vamos ao café e “…tá lá o corpo estendido no chão…”, e, daí? Farinha de rosca pouca, meu café da manhã primeiro.

Para ele sobraram os sete palmos desse latifúndio chamado capitalismo selvagem. Sobraram a vida ‘Severina’: “…Esta cova em que estás, com palmos medida/É a conta menor que tiraste em vida//É de bom tamanho, nem largo, nem fundo/É a parte que te cabe deste latifúndio…”

Vai com Deus Carlinhos, aí onde estás, todos os homens são iguais, são filhos.

Aqui, você deixou de ser invisível; você virou estatística.

*Carlos Monteiro, 61, é cronista, jornalista, fotógrafo e publicitário carioca. Flamenguista e portolense roxo, mas, acima de tudo, um apaixonado pela Cidade Maravilhosa

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