Aprovação automática na EJA municipal preocupa professores, pais e alunos

Medida do Conselho Municipal de Educação desconsidera ritmo diferente da modalidade de ensino, afirmam docentes

Fábio Galão

Professores, pais de alunos e os próprios estudantes da Educação para Jovens e Adultos (EJA) municipal de Londrina estão preocupados com uma decisão do Conselho Municipal de Educação (Cmel) que estabeleceu aprovação automática em todo o ensino fundamental municipal este ano devido à pandemia de Covid-19. Um grupo de trabalho (GT) formado pelos docentes chegou a elaborar uma alternativa para a EJA, mas não foi atendido pelo conselho.

Segundo o GT, a rede municipal de Londrina tem 53 professores de EJA, que ministram aulas para 584 alunos na área urbana e 46 na zona rural. “O Conselho Nacional de Educação emitiu um parecer de recomendação, em função da pandemia, para que os alunos do ensino fundamental em geral não fossem retidos. Aí, o Cmel pegou esse parecer nacional e estabeleceu uma regra para o município de Londrina, de promoção automática em todo o ensino fundamental”, explica a professora Sandra Regina Rodrigues do Amaral, integrante do GT.

Rede municipal de Londrina tem 584 alunos de EJA na área urbana e 46 na zona rural- Foto: Vivian Honorato/Prefeitura de Londrina

O grupo reivindica que o Cmel faça um estudo e um adendo à deliberação para que a EJA seja considerada um caso específico. A proposta é que esses alunos sejam classificados e reclassificados no ano que vem segundo comprovação da aprendizagem e os anos letivos de 2020 e 2021 sejam unidos num só. Essa posição foi corroborada em nota pública do Fórum Paranaense de Educação de Jovens e Adultos.

Sandra descreve que a EJA fase 1, que é a atendida pelo município, não é dividida por séries, mas em duas etapas. “Na primeira etapa, estudam aqueles alunos que sequer conhecem as letras, e na segunda, aqueles que já caminharam um pouquinho mais, então vão fazer um programa disciplinar como se fosse mais ou menos uma terceira ou quarta série. Com essa promoção automática, esse aluno que não conhece as letras vai automaticamente para a segunda etapa, e o aluno da segunda etapa vai se formar, ou seja, vai para o sexto ano nas escolas do Estado”, explica a professora.

“A nossa preocupação é essa: esse aluno de segunda etapa que vai se formar vai para as escolas estaduais sem conhecimentos mínimos de leitura e escrita, ele não consegue produzir um texto, resolver uma situação-problema, estabelecer uma sequência numérica numa escala progressiva. Ele vai chegar ao sexto ano na escola do estado e vai ter aula de inglês: um aluno que não se apropriou da língua portuguesa ainda. O aluno da primeira etapa, aquele que ainda está aprendendo as letras, vai para a segunda, quando terá que fazer avaliações formais, provas. A primeira etapa não tem provas, ela tem parecer descritivo feito pelo professor. Então, nós estamos acelerando um processo para o qual o aluno não está preparado.”

Sandra destaca o que o ritmo na EJA é diferente do restante do ensino fundamental, por isso a progressão não acontece necessariamente ano a ano. “Na EJA, o aluno precisa de mais tempo para aprender, não é uma criança que vai passando de série e tem cinco anos para se apropriar (do conteúdo). A EJA fase 1 tem duas etapas, somente. Dificilmente um aluno da EJA fica um ano na primeira etapa e um ano na segunda. Às vezes fica dois, três anos na primeira etapa até se apropriar da leitura e escrita, depois vai para a segunda”, justifica a professora.

A diarista aposentada Maria Célia de Oliveira, de 67 anos, está na primeira etapa da EJA. O filho dela, Álvaro Luís de Oliveira, 46, é aluno especial da segunda etapa. “Trabalhei durante minha vida inteira, nunca pude ir para a escola. Quando fiquei viúva, decidi estudar”, relata dona Maria Célia, moradora do Jardim Europa e que está na EJA há dois anos. “Meu maior sonho é ler a Bíblia. De que adianta olhar para a Bíblia sem entender o que está escrito?”

Preocupada com a ideia de progressão automática para 2021 (“Como a pessoa vai passar de ano sem saber ler nem escrever?”), a aposentada descreve que este ano já tem sido difícil, com a suspensão das aulas presenciais. “A professora traz o material e a gente estuda em casa. Vem uma pessoa duas vezes na semana, a cada 15 dias, e ajuda a gente a fazer a tarefa. Quando estava normal, era aula todo dia, de segunda a sexta”, explica.

Simone Cavalin, presidente do Cmel, justifica que as deliberações do conselho abrangem todo o sistema municipal de educação de Londrina, o que inclui a EJA. Ela enfatiza, entretanto, que conteúdos pendentes terão que ser ensinados em 2021.

“A gente seguiu uma orientação do Conselho Nacional de Educação, que a gente poderia acatar ou não, mas os conselheiros entenderam que sim. Só que, na resposta que a gente deu agora para os próprios professores quando eles questionaram o conselho, o Cmel se comprometeu a acompanhar esse contínuo que vai acontecer no ano que vem. Vai acontecer para todos os anos, todas as turmas, inclusive a EJA. Vamos acompanhar essa questão de alguns conteúdos que ficaram defasados este ano, porque foi um ano atípico, então eles terão que ser contemplados no ano que vem, independentemente se era um conteúdo de quinto ano e agora (os alunos) estarão no sexto, por exemplo. Esse acompanhamento será tanto na EJA quanto nos outros anos do ensino fundamental”, afirma.

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