Com ou sem Trump, Governador Valadares mantém o sonho americano

Cultura de migração para os Estados Unidos e economia influenciam mais fluxo para o Norte do que retórica agressiva, diz especialista

Fábio Galão

Quando se fala em migração brasileira para os Estados Unidos, uma referência imediata é a cidade mineira de Governador Valadares. O republicano Donald Trump venceu a eleição presidencial americana em 2016 com um virulento discurso anti-imigração e adotou durante seu mandato um sistema de deportações rápidas, sem análise judicial, referendado pela Suprema Corte. Sendo assim, sua derrota para o democrata Joe Biden no pleito deste ano representaria um alívio no município polo do Vale do Rio Doce, certo? Não necessariamente.

Sueli Siqueira, professora da Universidade Vale do Rio Doce (Univale) que realiza estudos periódicos sobre o perfil do migrante que parte da cidade de cerca de 280 mil moradores, lembra que deportações de brasileiros foram feitas por todos os governos americanos desde a década de 60, fossem democratas ou republicanos, mas agora houve grande diferença na forma como o estado americano agiu e na reação do estado brasileiro.

Valadarense radicado nos Estados Unidos pagou outdoors na cidade mineira antes das eleições para manifestar apoio a Trump – Foto: Sueli Siqueira/Acervo pessoal

“No governo Trump, isso foi tratado como uma questão de campanha, para se promover, e aqui no território brasileiro a forma como foi recebido foi: ‘São ilegais, não há nada a se fazer’. Eles (deportados) chegavam, por exemplo, no aeroporto de Belo Horizonte sem nenhuma receptividade por parte do estado brasileiro, enquanto em outros tempos houve uma reação de exigir que os direitos humanos fossem observados. No final do ano passado, entrevistei um rapaz que veio algemado, havia entrado no avião algemado. Em outras épocas, vi o imigrante chegando algemado (ao avião), tirava as algemas, entrava, sentava e pronto. Aí ele era tratado como outra pessoa”, compara Sueli.

“Essa ideia de tratar o imigrante como delinquente é uma coisa que aconteceu agora, na recepção, na falta de uma ação contrária ao modo (como é feita a deportação), como a questão das crianças que foram separadas dos pais; são formas desumanas de tratar um trabalhador. O país tem o direito de aceitar ou não, mas não tem o direito de desrespeitar esse cidadão, e o governo brasileiro tem que exigir que ele seja respeitado.”

A professora argumenta, porém, que a cultura de migração de Governador Valadares e a economia influenciam mais para que a rota siga aberta do que eventuais retóricas e atitudes agressivas.

“A postura (do governo americano) não tem tanta importância. O que define é o mercado de trabalho, a economia aqui e lá. Não tem muro que segure. Pode se tornar mais difícil e mais caro, mas pelas condições históricas daqui, o movimento pode aumentar ou diminuir, mas continua”, explica Sueli. “Na deportação, deve haver um tratamento mais humano durante o governo do Biden, como sempre foi em qualquer governo que realmente represente um estado, e não preferências pessoais ou pontos de vista ideológicos.”

Após a vitória de Biden, o Democrata, time de futebol de Governador Valadares, parabenizou o vencedor e a vice Kamala Harris no Twitter – Reprodução/Twitter

Já a busca por imigrantes ilegais nos Estados Unidos vai depender de como a economia americana vai reagir nos próximos anos à crise mundial gerada pela pandemia de covid-19. “Em momentos de pleno emprego, há uma redução das deportações. Não é tão ativa a procura de gente que não está documentada. Quando a economia está retraindo e há uma política de limpeza étnica, vai haver mais deportação, mas isso independe de ser republicano ou democrata”, descreve a professora.

Bravata americana

Antônio Carlos Borges é coordenador do Centro de Informação e Assessoria Técnica (Ciaat), ong valadarense que surgiu nos anos 2000 com o objetivo de criar uma estrutura de orientação para quem voltava dos Estados Unidos. Ele explica que durante dez anos o foco esteve em um trabalho de assessoramento na área rural, para difundir técnicas de produção sustentáveis e para que os que retornavam tivessem condições de permanecer no Brasil.

Aos poucos, a preocupação ambiental ganhou ênfase e a questão da migração foi sendo deixada um pouco de lado. O trabalho do Ciaat agora visa influenciar o movimento migratório de forma indireta. “Entendemos que, quando a região oferecer oportunidades e melhores condições de vida, as pessoas terão mais opção de emigrar ou não. Mas a emigração é uma cultura. Já tivemos exemplos de jovens que voltaram dos Estados Unidos, compraram terra, entraram no projeto conosco, estavam ganhando mais dinheiro do que quando estavam lá e depois de dois, três anos com uma produção maravilhosa, resolveram voltar, do nada. É algo que já está no DNA da região, há mais de 50 anos. A alta do dólar incentiva muito a emigração”, justifica o coordenador.

Borges concorda com a avaliação da professora Sueli Siqueira de que a política migratória da gestão Donald Trump não inibiu quem já tinha planos de ir para os Estados Unidos. “No começo do governo Trump, parecia que haveria um enfrentamento grande à imigração, mas me parece que isso não atingiu tanto os brasileiros, talvez tenha atingido mais os imigrantes de outros países. Muita gente continuou indo, estão vivendo lá, trabalhando. Acho que houve muita bravata do Trump. Ele não foi tão diferente de outros governos”, argumenta.

Governador Valadares é tão ligada aos Estados Unidos que dois episódios curiosos na cidade refletiram recentemente a polarização política americana. Antes da eleição, um emigrado colocou dois outdoors no município mineiro para manifestar apoio a Donald Trump. Depois que a vitória do Joe Biden foi anunciada nas projeções feitas pela imprensa, o time de futebol da cidade, o Democrata, parabenizou o presidente eleito e a vice Kamala Harris no Twitter, lembrando que o clube é homônimo do partido vencedor e convidando-os a comemorar no Mamudão, estádio onde manda seus jogos. E também pediu para ambos “cuidarem bem” dos imigrantes do município mineiro.

Famílias transnacionais

A professora Sueli Siqueira relata que o movimento de valadarenses rumo aos Estados Unidos e também de retorno começou na década de 1960. O Brasil era então ainda um país que apenas recebia imigrantes e não tinha grande histórico de emigração.

“Desde então, o movimento de ir e vir sempre aconteceu em Governador Valadares, as pessoas migram, mas também retornam. Temos uma cultura da emigração, uma rede migratória e as chamadas famílias transnacionais. São três coisas que facilitam esse ir e vir. É difícil encontrar uma família aqui sem ninguém que tenha emigrado. Chegam a ser, segundo o Censo, mais de 50% dos domicílios”, explica a professora.

Sueli destaca que os perfis dos emigrantes em busca do sonho americano foram mudando ao longo das décadas. Os primeiros, que viajaram nos anos 60, tinham maior poder aquisitivo e foram com vistos de trabalho, os chamados documentados. Posteriormente, na década de 80, partiram para os Estados Unidos principalmente integrantes da classe média, empobrecida durante a década perdida da economia brasileira. No final dos anos 90 e nos anos 2000, começaram a ir para o Norte também valadarenses de menor renda.

“Os que haviam ido nas décadas de 80 e 90 montaram pequenos empreendimentos lá e passaram a financiar a ida daqueles que não têm tantos recursos, que vão para trabalhar para esses que foram antes. Eu entrevistei filho de fazendeiro que pagou para o filho de vaqueiro ir para lá”, descreve.

Em entrevista à Lume, um valadarense que mora nos Estados Unidos opinou que a política migratória do governo americano não deve mudar durante a gestão Biden, mas o tratamento para os deportados provavelmente será mais “humanizado”. Ele acredita que o discurso e as medidas do governo Trump não desestimularam o fluxo migratório para o país nos últimos anos.

“Continuei vendo tanto pessoas vindo ilegalmente pelo México quanto chegando com visto. É difícil saber se o número aumentou ou diminuiu, mas, pela visão da pequena comunidade brasileira a que a gente pertence, parece que não houve tantas mudanças. Continuei vendo muita gente nos grupos de discussão da comunidade brasileira no Facebook perguntando sobre o processo de imigração, como está de trabalho aqui, como é morar aqui”, explica.

A pandemia de covid-19 é que acabou representando uma diferença este ano, mas tudo indica que apenas temporária. “Claro que devido à covid, pelos aeroportos terem parado de funcionar, as pessoas deixaram de vir a partir de maio e junho, mas ainda assim você encontra pessoas perguntando sobre o processo de imigração, se preparando para vir quando a pandemia passar. Parece que houve uma pausa no número de pessoas chegando, mas não desmotivou as pessoas a virem”, aponta o brasileiro.

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