Acusada

Por Carlos Monteiro*

Virou moda. Acusar sem provas, parece ser a tônica atual para ‘se livrar’ do indesejável, do que incomoda, do que atrapalha planos. Três episódios recentes deixam isso mais que claro: Trump e o negacionismo da vitória de Biden, Bolsonaro, politizando, de forma xenofóbica e ideológica, a vacina chinesa e Russomano censurando, por meio de liminar, a divulgação da pesquisa de intenção de votos realizada pelo Datafolha.

Sensatez e bom senso passam distantes das ‘sentenças’ decretadas, quase em tom de veredito, numa condenação sem precedentes. A operação é simples: uma bomba de fumaça rápida para encobrir o véu de tule que, por sua vez, cobre a peneira aparadora de sóis. Não importa se pareça inverossímil, não interessa se está contra a maré, não conta se é uma forma de censura, vidas não importam. Nessa corrida tresloucada pelo poder, pela politização do que não é nem de longe, muito mais de perto, politizável, nessa leviandade insana em que tudo tem se transformado, o que vale é o êxito, mesmo que ele não exista, mesmo que não haja disputas ou que isso seja absolutamente irrelevante quando existe um bem maior que é a vida.

Nada à justiça dos homens que, determina em seu Artigo 342, do Decreto Lei nº 2.848 de 07 de dezembro de 1940, do Código Penal Brasileiro que é crime: “Fazer afirmação falsa, ou negar ou calar a verdade como testemunha, perito, contador, tradutor ou intérprete em processo judicial, ou administrativo, inquérito policial, ou em juízo arbitral: (Redação dada pela Lei nº 10.268, de 28.8.2001)”.

Nada, também, à justiça divina e sua descrição em Êxodo 20: 1-17 e Deuteronômios 5: 6-21, em relação aos Dez Mandamentos, no oitavo ou nono mandamento, conforme a denominação cristã: “não levantar falso testemunho”, “não darás falso testemunho contra alguém”, ou ainda “Não dirás falso testemunho contra o teu próximo”.

Tudo transcrito, claro e bem explicadinho para os puristas. Acusar sem provas, se comprovado, é crime perante os homens e pecado diante do Todo-Poderoso.

Diante de tantas acusações levianas, resolvi listar algumas que, julgo, são muito pertinentes. Acuso as minis formigas, habitantes da minha cozinha, de estarem roubando açúcar e mel fundamentais para o meu crescimento… para os lados. Acuso o garnisé José, do Morro do Cantagalo, de ter saído com o peru para farra e não ter cantado às quatro da manhã. Acuso as fragatas de não terem cumprido o combinado de sobrevoarem o Pão de Açúcar, ao amanhecer, para compor a imagem da “Alvorada Carioca”. Acuso minha barriga de estar aumentando, injustamente, formando uma espécie de bolha, sem meu consentimento prévio.

Acuso a Chapeuzinho Vermelho de disseminar que o lobo era mau, a Branca de Neve de espalhar que a bruxa vende maçãs passadas e o sapo e seu chulé insuportável, estar espalhando uma catinga danada na lagoa. Acuso a dona Baratinha de ter batido asas e deixado seu Barato inconsolável. Acuso a Rapunzel de dizer que suas tranças são naturais, mas, não passam de apliques comprados na rua 7 de Setembro. Acuso a dona porca de se enrabichar com dois parafusos e uma arruela.

Acusar é fácil, difícil é provar, mas, acabam provando, provavelmente, do seu próprio, podre poder de não provar nada ‘pra’ ninguém.

Seria cômico se não fosse trágico. É trágico!

*Carlos Monteiro, 61, é cronista, jornalista, fotógrafo e publicitário carioca. Flamenguista e portolense roxo, mas, acima de tudo, um apaixonado pela Cidade Maravilhosa

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