Carta para Madame Satã, minha bisavó da família LGBTQIA+

Por Régis Moreira*

Foto em destaque: João Ker, Revista Híbrida

Querida bisa Satã, guerreira ancestral de luta por vidas vivíveis fora do armário, você continua a ser hostilizada por aqui e teve seu nome retirado da Fundação Zumbi dos Palmares, pelos capitães do mato contemporâneos. Quanta injustiça! Mais uma! Mas vamos reverter isso!

Você sabia, bisa guerreira, dia 23 de outubro morreu Jane di Castro, aos 73 anos de idade. Uma sobrevivente, no país que mais mata travestis e transexuais no mundo, Jane teve a sorte de morrer de causas naturais. Ela foi uma Divina Diva: atriz, cantora, vedete, cabeleireira, síndica.  Foi dona de trajetória artística irretocável, com 50 anos de atuação, esteve nos principais palcos do Brasil e do mundo. 

Quando eu nasci, Jane di Castro estava com 20 anos, no começo de sua carreira. É triste a sua morte, mas a causa até nos traz alento. Eu queria que todos os LGBTQIA+ só morressem de causas naturais, bisa Satã.

A maioria das travestis, transexuais e população LGBTQIA+ morre assassinada no Brasil. Facadas, tiros, estrangulamentos, esquartejamentos, queimaduras… São tantas violências,  Madame Satã, que continuam praticando, que você pode muito bem imaginar. Viveu isso na pele, né bisa?

Escrevo essa carta, inspirada na carta que minha amiga Flávia Carvalhaes escreveu a sua bisavó sanguínea. Você é minha bisavó da família LGBT. Permita-me chamá-la assim e pedir suas bençãos para encarar a realidade, que não está nada fácil Satã.

Mataram a Kelly da Silva, lá em Campinas, e o assassino arrancou seu coração.

Rayane Marques  e Bárbara Blum foram mortas durante a batalha.

Aysha foi morta por espancamento. 

Danielly foi morta por enforcamento.

Gabriela Marino foi morta a tiros. 

Graziela foi esquartejada num quartinho de hotel em Londrina.

Fábio Ábila e Hannan Silva foram enforcados em praças públicas aqui do sul.

São tantos e tantas os corpos que não sobrevivem aos 35 anos de vida, Satã.

Os corpos que vivem ameaçados por uma sentença de morte!

Perdemos outras…

A Sara Santana

A Joana Bahiana

A Cris Cristina Guarnieri

A Scarlet Ohara

A Géia

A Morça

A Rogéria

O Jorge Lafond

A Miss Mi de Le France

Marsha P. Johnson e Sylvia Rivera puxaram o levante no Bar Stonewall, em Nova Iorque. Viraram Paradas LGBTQIA+ por todo mundo. Aqui no Brasil temos o orgulho de ter a maior Parada do mundo! Mas continuam nos matando, Satã…

O corpo do Lourival Bezerra passou meses nas geladeiras do IML (Instituto Médico Legal), pois não queriam reconhecê-lo como homem trans e enterrá-lo com o mínimo de dignidade. 

Internaram Edson Francisco no manicômio, com diagnóstico de homossexualismo, e ele morreu lá.

Prenderam Febrônio Índio do Brasil no Manicômio Judiciário e ele só saiu de lá morto.

Mataram Marielle Franco. Ali bem perto da Lapa, reduto onde você, bisa, reinou lindamente a seu tempo. Foram 7 tiros. 3 tiros só na cabeça. Desde março de 2018, a dois anos de 7 meses. Até hoje a polícia não descobriu quem mandou matar a Marielle. Até hoje, bisa Satã…

A (in)justiça machista, sexista e misógina estuprou novamente Mariana Ferrer na audiência. Falaram em estupro culposo, Satã. Inadimissível! Mais uma vez a culpabilização da vítima, querida bisa. Mais uma vez. Até quando??? 

Vou encerrar minha carta por aqui, pedindo proteção para os nossos passos, luz para os caminhos e toda sua disposição para a luta!

Do seu bisneto, 

Régis Moreira

*Rêgis Moreira é jornalista e professor da Universidade Estadual de Londrina (UEL).

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