Pesquisa comprova eficácia do Novembro Azul e outras campanhas

Estudo da PUCPR mostra que homens londrinenses têm mais informação sobre câncer de próstata e exames preventivos do que na década de 1990

Fábio Galão

Segundo estimativa do Instituto Nacional do Câncer (Inca), do Ministério da Saúde, este ano devem ser registrados 65.840 novos casos de câncer de próstata no Brasil. Trata-se do segundo tipo mais comum de câncer entre os homens no país, atrás somente do câncer de pele não-melanoma, e o dado mais recente do Atlas de Mortalidade por Câncer aponta que 15.576 brasileiros morreram vitimados pela doença em 2018.

A campanha Novembro Azul foi criada em 1999 na Austrália e no novo milênio chegou ao Brasil, com o objetivo de chamar atenção para a necessidade do diagnóstico precoce do câncer de próstata: segundo a Sociedade Brasileira de Urologia (SBU), quando descoberta precocemente, as chances de cura da doença superam os 90%.

Uma pesquisa do Departamento de Medicina/Urologia do campus Londrina da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR), na qual foram comparados dados das últimas duas décadas e meia, buscou aferir a eficácia das campanhas de conscientização sobre o câncer de próstata.

“Quando passei pela disciplina de urologia, gostei de todos os assuntos. E fiquei intrigada pela resistência dos homens em cuidar da própria saúde. Fui procurar com o professor Ricardo Brandina um tema de Trabalho de Conclusão de Curso (TCC) e ele me falou da pesquisa do pai dele”, relata Mariana de Castro Faidiga, estudante do quinto ano de medicina da PUCPR.

O pai de Brandina, o também urologista Lauro Brandina, havia realizado em 1994 e 2004 duas pesquisas para medir o nível de conhecimento de homens londrinenses a partir de 40 anos de idade, de diferentes realidades socioeconômicas, sobre próstata e câncer de próstata. A partir do contato de Mariana, surgiu a ideia de refazer o estudo em 2020 e comparar com os levantamentos anteriores.
A evolução foi gigantesca em 26 anos: a porcentagem de entrevistados que sabiam dizer o que é próstata saltou de 70% para praticamente 100%, salto verificado também quando questionados se tinham conhecimento de que o câncer de próstata é um dos mais prevalentes entre a população masculina com mais de 45 anos. Em 1994, 70% nunca haviam feito exame preventivo; em 2020, esse patamar caiu pela metade. Todos os entrevistados reconheceram a importância do exame, enquanto há duas décadas e meia eram 80% na mesma situação.

“A gente viu claramente a evolução do conhecimento dos homens em relação à própria saúde, sobre próstata, câncer e doenças da próstata, o que mostrou que essas campanhas de conscientização, o Novembro Azul, campanhas de televisão, de rádio, outras mídias, tudo isso vem impactando de maneira muito positiva e os homens estão procurando especialistas para cuidar da sua saúde”, diz Brandina.

Mariana explica que, além da pesquisa, foi feita uma revisão bibliográfica para descobrir se haviam sido feitas pesquisas semelhantes. “A única com perfil similar à de Londrina foi uma realizada em João Pessoa (PB) em 2014. Agregamos algumas perguntas do questionário deles na nossa pesquisa”, explica a estudante. Segundo Mariana, o estudo paraibano e o londrinense apresentaram resultados parecidos, o que comprova que a evolução do nível de conhecimento proporcionada pela maior conscientização é um fenômeno nacional.

Tabu e desafios

Entretanto, Ricardo Brandina aponta que ainda há o que melhorar para que sejam feitos mais diagnósticos precoces, que aumentam as chances de cura. “Ainda temos uma faixa muito grande de homens que demoram para procurar urologista . É meio tradicional, as mulheres procuram bem mais médico para cuidar da saúde do que os homens. O interessante é que no consultório muitos vêm trazidos pelas esposas”, relata.

“Outra questão: desses homens que fazem exames preventivos, mais de 75% fazem PSA (com coleta de sangue), mas só 50% ainda fazem o exame de toque retal. Então, de maneira geral, ainda tem muito homem que tem, sim, o tabu de fazer o toque retal. Mas há outro fator. A gente fez uma pesquisa com homens que vão ser atendidos tanto pelo SUS quanto no sistema particular, por convênios. No consultório privado, a maioria dos homens que vêm não têm problemas de fazer o toque retal, talvez porque já têm mais informação de que é importante. Talvez o número total não seja tão alto porque engloba pacientes que não têm a oportunidade de ter um plano de saúde, de procurar um urologista”, aponta o professor.

Outra carência na saúde pública apontada por Brandina é o que o melhor tratamento para câncer de próstata, a cirurgia robótica, por enquanto só está disponível em Londrina no sistema privado. “A cirurgia robótica é uma tecnologia importada dos Estados Unidos, por isso ainda tem um certo custo e o SUS ainda é muito precário para qualquer cirurgia minimamente invasiva, até para laparoscopia às vezes há dificuldade. Apesar de ser muito efetiva e a gente ter hospitais ligados ao SUS que funcionam muito bem, eles tratam pacientes com câncer de uma maneira tradicional, antiga, com cirurgia aberta. Infelizmente, o SUS vai demorar ainda um tempo para poder disponibilizar esse tipo de tecnologia para os pacientes”, explica.

Outro desafio para os próximos anos é que muitos homens deixaram de fazer exames preventivos em 2020 devido à pandemia de covid-19. “Dados do Inca mostram que em alguns lugares do Brasil diminuiu em 70% a procura de pacientes por urologistas para avaliar risco de câncer de próstata. É preocupante porque acho que a longo prazo a gente vai ver o resultado disso, talvez nos próximos anos a gente vá ter uma incidência um pouco maior de pacientes com câncer de próstata metastático ou um nível de doença mais avançado. É um cenário totalmente atípico, que não envolve só a urologia. Mas eu acho que está voltando devagarzinho ao normal, e o Novembro Azul tem ajudado”, finaliza Brandina.

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