Dia de finados

Por Carlos Monteiro*

No dia dois de novembro é celebrado o Dia dos Fiéis Defuntos, Dia dos Mortos ou, como é mais conhecido, o Dia de Finados que, na etimologia da palavra, quer dizer algo que findou. A origem da data remete ao século II, quando alguns cristãos rezavam pelos falecidos e visitavam seus túmulos oferecendo flores. Já no século V era costumeiro que dedicassem um dia por ano a preces e orações àqueles que partiram, principalmente os que não tivessem familiares que pudessem fazê-lo. No século VIII, um decreto do abade Odílio do mosteiro beneditino de Cluny na França – o maior deles na Idade Média – determinou que os monges, sob sua jurisdição, lembrassem o Dia dos Mortos em dois de novembro. Quatro séculos depois, o Papa, Inocêncio VII, adotou a data como o Dia de Finados para a Igreja Católica. A data foi escolhida por ser imediatamente posterior ao Dia de Todos os Santos.

Fotos captadas ao longo dos cinco últimos anos nos cemitérios São João Batista e São Francisco Xavier por Carlos Monteiro

Assim, ao longo dos séculos, o Dia de Finados entrou para o calendário oficial de vários países.

Como cada país presta sua homenagem

Brasil

São realizadas missas campais nas necrópoles. A população visita seus entes queridos nesses campos santos, oferecendo-lhes flores, velas e orações.

Austrália

Os australianos tratam a morte de uma maneira bastante peculiar, da mesma forma que em Nova Orleans, na Louisiana. Choram no nascimento, pois creem que ali se encontra alguém que vai resgatar seus carmas e festejam quando a morte vem ao seu encontro com um sinal de liberdade e resgate cumprido.

Espanha

Comemora-se Finados no dia primeiro de novembro, Dia de Todos os Santos. As pessoas retornam para suas cidades de origem, com intuito de visitar os cemitérios usando roupas em tons vibrantes onde estão depositados os restos mortais de seus antepassados. À noite, flores são levadas aos túmulos junto com um doce chamado “Osso dos Santos” – “Hueso de Santos” feito de marzipã, ovos e “syrup”, uma calda de mel com água e açúcar. A iguaria é utilizada como sobremesa nesse dia. Outra tradição no país é a representação da peça “Don Juan Tenorio”.

Guatemala

Pela influência de povos indígenas, pipas gigantes são confeccionadas e soltas ao ar, próximo aos túmulos dos mortos. Também há pratos típicos feitos somente nessa data, como o fiambre.

Bolívia

Em La Paz, é celebrado no dia nove de novembro o Dia de los ñatitas – ‘Dia das Caveiras’. Remonta aos tempos pré-colombianos, onde indígenas andinos tinham o costume de partilhar um dia com os ossos de seus antepassados no terceiro ano após o sepultamento. Atualmente somente são usadas as caveiras que, nesse dia, são coroadas com flores frescas e oferendas em agradecimento pela proteção durante o ano. Por vezes, levadas ao cemitério central em La Paz para uma missa especial e bênçãos.

Haiti

A tradição vudu se mistura com as católicas. São tocadas músicas e ensurdecedores tambores durante toda noite pelos cemitérios das cidades a fim de acordar Baron Samedi, o ‘Senhor dos Mortos’, e seu descendente Gede.

México

Día de los Muertos. A morte é encarada de maneira alegre e festiva, relembrando a memória dos falecidos com orgulho. A família monta altares em suas casas, faz refeições com os pratos prediletos daqueles que se foram e usa fantasias coloridas de caveiras. Tudo num clima descontraído e de celebração.

Filipinas

Chamado de Araw ng mga Patay é celebrado em primeiro de novembro. As tumbas são limpas e repintadas, velas são acesas e flores são oferecidas. Famílias inteiras acampam em cemitérios, e às vezes passam uma noite ou duas junto às tumbas de seus parentes. Jogos de cartas, comidas, bebidas, cantos e danças fazem parte da tradição.

Japão

A data é conhecida como “O Bon Odori” e tem origem budista. É um festival em honra aos ancestrais mortos, celebrado em 15 de agosto. Tem se tornado uma reunião familiar na qual as pessoas dos grandes centros voltam às suas cidades de origem para visitar e limpar os túmulos de seus ancestrais. Tradicionalmente inclui cantos, danças típicas e oferendas de arroz e algas para que as almas dos mortos sejam alimentadas. Na região de Kyoto, na noite de 16 de agosto, cinco símbolos feitos com fogo, semelhantes a uma estrela do mar, são postos nas montanhas em saudação aos espíritos, pois esse povo acredita que será neste momento que os espíritos retornarão. A celebração foi incorporada e adaptada em regiões de outros países por imigrantes japoneses, inclusive em pequenas comunidades brasileiras. Já existe naquele país asiático há mais de 500 anos.

Índia

No período chamado ‘Pitri Paksha’ – que compreende 16 dias lunares no calendário hindu – é feito um culto, onde são oferecidos alimentos para prestar homenagem aos ancestrais de sete gerações.

China

O “Festival de Ching Ming” acontece por volta do dia cinco de abril. Nesse dia os chineses cuidam dos túmulos de seus ancestrais. Pela tradição chinesa, o sétimo mês no calendário é chamado de ‘mês fantasma’ quando os espíritos saem do além para visitar a terra.

Hawai

Celebrado na noite da última segunda-feira de maio, pessoas vão à praia de Ala Moana, para a cerimônia das lanternas, – “Lantern Floating”, demonstrando gratidão e conexão com seus ancestrais, oferecendo pensamentos e orações de carinho enquanto colocam lanternas de papel, com velas dentro, na água.

A data não é exclusividade do catolicismo. Quase todas as religiões contam com um dia específico dedicado à memória dos mortos.

Os celtas, por exemplo, por acreditarem na continuação da vida após a morte, se reuniam em suas casas no dia primeiro de novembro para homenagear e evocar seus antepassados.

*Carlos Monteiro, 61, é cronista, jornalista, fotógrafo e publicitário carioca. Flamenguista e portolense roxo, mas, acima de tudo, um apaixonado pela Cidade Maravilhosa

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