‘Eu, sem cores, nada seria’

Socióloga usa o olhar colorido com que encara a história de luta de sua própria família para retratar em fotos o cotidiano de mulheres trabalhadoras

Por Mariana Guerin, jornalista e confeiteira em Londrina. Adoça a vida com quitutes e palavras

Uma mulher criada sozinha pela mãe e que se tornou a primeira da família a concluir a universidade. Uma garota que ousou não frequentar as aulas de religião, mas que resgata animais. Uma menina que foi abandonada pelo pai mas que escolheu fotografar o colorido das diferentes realidades das mulheres pobres trabalhadoras braçais. Com apenas 22 anos, Kimberly Nobille tem muita história para contar. E muito exemplo para dar.

Kimberly em foto de seu Instagram

Formada em Ciências Sociais pela UEL (Universidade Estadual de Londrina), Kim está concluindo uma pós-graduação em Antropologia, também na UEL. Dos estudos e de sua própria história de vida vêm a inspiração para seu trabalho como fotógrafa. “Pessoas reais me inspiram. Sou apaixonada em fazer retratos bem focalizados nos olhos e nas linhas de expressão. Cores saturadas que gritam por atenção em um profundo silêncio me inspiram. Amo cores. Eu enxergo e sinto o mundo ao meu redor exatamente como o retrato: colorido em sua máxima potência. As cores falam a linguagem das emoções e eu sem cores nada seria.”

Com a mãe em sua formatura na universidade. Foto: Ingrid Gonçalves

Kim começou a fotografar aos 14 anos após participar de um projeto de fotografia básica ofertado no contraturno escolar por um professor de química que era amante da fotografia. “Ricardo Desiderio. Com certeza ele não se lembra de mim e não imagina o quanto esse projeto me ofereceu um olhar sensível para o mundo.”

Aos 16 anos, ela ganhou uma câmera da mãe e desde então trabalha como freelancer. “Há um ano venho trabalhando em outros projetos fotográficos, tentando buscar e descobrir minha identidade visual, tanto na fotografia quanto nas edições.”

Ela tem dedicado seu tempo a redescobrir quais são seus objetivos com a fotografia e estudado sobre fotografia documental. “No momento, sigo tentando e me esforçando a retratar a cena da pixação e do graffiti em Londrina. Um dos projetos já está disponível no site Behance, o ‘w.r.i.t.e.r.s.’, que é sobre graffiti. Outro chamado ‘TARJA’, para o qual fotografei apenas mulheres pintoras, que ficou em cartaz em março deste ano durante o evento RUA: Riscos, União e Anarquia, e o último, apenas sobre pixação, que estará disponível em novembro.”

Sua inspiração para fotografar vem da família de matriarcas. “De mulheres pobres trabalhadoras braçais, sendo que algumas não tiveram acesso ao ensino médio devido ao machismo. Sou a primeira a ingressar em uma universidade pública e a concluir o ensino superior, minha inspiração tem raiz nessas mulheres que são meus símbolos de resistência. Não somos minoria, somos maioria da população brasileira. Meus olhos olharam para essas mulheres, foram essas mãos femininas que me construíram.”

Para Kimberly, só a organização coletiva é capaz de libertar a humanidade da desigualdade: “Apenas estarmos alinhados de forma crítica e coletiva nos possibilitará a transformação radical da sociedade. Ninguém faz nada sozinho”.

Precisamos enxergar nosso inimigo comum, o sistema capitalista, que é alicerçado e estruturado pelo racismo, pela misoginia, pelo etnocentrismo, pela LGBTfobia e tantas outras opressões que violentam e assassinam diariamente corpos que são desumanizados. A população é sobrevivente desse sistema assassino. Não queremos mais sobreviver, queremos viver com dignidade”, alerta a socióloga. Para ela, a realidade que vivemos hoje é resultado de um processo histórico de séculos: “Se a desgraça foi construída pelos homens burgueses, nós podemos destruí-la com nossas próprias mãos”.

Apesar do pouco dinheiro e da ausência paterna, que sobrecarregou a mãe – que também foi ausente por conta do trabalho -, Kimberly diz ter sido “criança por muito tempo”. “Minha infância foi muito colorida. Minha mãe me proporcionou essa fase com muito amor e felicidade.”

Nas três escolas públicas onde estudou ela fez muitos amigos, que fazem parte de sua vida até hoje. “São pessoas que me edificam, me ajudam a crescer diariamente, me trazem arte e muitas vivências.”
Desde a adolescência ela gosta de estudar sociologia, história e arte, “disciplinas que me incentivavam a ler e pesquisar sobre temas fora do horário das aulas”. “Matei minha primeira aula aos 11 anos, na quinta série do ensino fundamental. Era aula de ensino religioso. Nunca mais frequentei nenhuma e desde então me tornei mestra em sair da escola sem que notassem, pela porta da diretoria, pulando muro, me escondendo em banheiro, me infiltrando na aula de educação física de outra turma”, recorda.

“Me sentir aprisionada não ajudou no meu processo de ensino-aprendizagem, pelo contrário, me distanciou de muito conteúdo que não aprendi por métodos escolares falhos.” Para a socióloga, a escola mais afasta do que aproxima: “A escola é esse espaço ambíguo, infernal e celestial”.

Diferente das amigas, Kim não foi namoradeira na adolescência. “Minha mãe sempre dialogou muito comigo, me explicava o que eu quisesse saber, conversou sobre namoro e sexo, me aconselhou a viver minha infância e adolescência sem me preocupar com essas questões. Fui namorar mesmo a partir dos 18 anos, quando já estava na faculdade’, conta.

Para ela, relacionamentos afetivos e amorosos exigem muita responsabilidade e maturidade emocional: “Uma adolescente não tem como ter responsabilidade afetiva e maturidade emocional porque existe de fato algo concreto que impede que isso exista: falta de experiências e acúmulo de vivências que 15 anos não pode proporcionar. Acho que não ter namorado antes me poupou, inclusive, de muitas violências simbólicas que muitas amigas que namoraram aos 14, 15 anos relatam ter passado”, pondera.

Essa relação de cumplicidade com a mãe está ligada ao abandono do pai, de quem ela sentia necessidade enquanto crescia. “Meu progenitor, que eu não via há quatro anos, pediu exame de DNA para confirmar a paternidade que ele nunca exerceu. Eu havia insistido, por muito tempo, por culpa cristã, em tentar ser filha de um homem, em ter um pai. Quando ele me pediu o exame, eu decidi que me libertaria do peso da culpa de sua ausência. Entendi que minha família é minha mãe e que nunca fomos incompletas”, ensina.

“O responsabilizei por muitos fardos que minha mãe e eu tivemos que carregar e problemas que precisamos resolver sozinhas, ou ela sozinha quando eu ainda era criança. Vi como a maternidade poderia ser dolorosa, quando você é uma mulher sozinha sem estudo e precisa sustentar uma casa e um ser humano”, completa Kimberly.

“Libertei não somente a mim, mas a ele também. Ele fez as próprias escolhas e eu precisava aceitar. Escolhi fazer minhas próprias escolhas também, que consistiam em nunca mais procurá-lo. Já faz quase sete anos e eu nunca recebi um telefonema perguntando se estou viva, se terminei a faculdade, uma preocupação se preciso de algo material ou de uma conversa”, declara a socióloga.

Para ela, ser pai, no Brasil, é uma escolha: “Nenhuma das mulheres da minha família pode dizer não à maternidade. Vi minha tia e minha mãe trabalhando em dois, três empregos, fazendo bico final de semana para sustentar casa e filhos, não tinham e ainda não têm descanso. A ausência e o abandono paterno não violentam apenas as crianças, mas violentam as mães, que antes de serem mães são mulheres. Foi um processo entender e acolher esse abandono, essa ausência. Transformou minha leitura de realidade.”

Sua história a tornou menos sonhadora, “para não acumular decepção e desespero”, mas ela acredita em sonhar de forma coletiva, “porque daí o sonho é possível, eu e mais infinitos seres somos responsáveis por concretizá-lo”.

“Um dos meus sonhos individuais era fotografar mulheres do MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra) e pude realizar isso em 2019. Passei 15 dias em assentamentos e acampamentos, conhecendo diversas trabalhadoras e trabalhadores que tocaram a minha alma e me trouxeram felicidade e esperança. Nunca me senti tão livre em olhar para o mundo e para os seres humanos. Fiz os registros mais lindos de minha vida”, descreve.

A partir da imersão no assentamento, Kim selecionou 15 fotografias de mulheres de todas as idades e cores para uma exposição chamada Terezas no Canto do MARL (Movimento dos Artistas de Rua de Londrina), no dia 7 de março de 2019, durante o Feirão da Reforma Agrária do MST. “Não estava presente no dia, pois estava no Rio de Janeiro para fotografar o 8 de março das ruas – que também foi um sonho realizado por meio da fotografia. Meses depois levei a exposição para Curitiba, na semana de antropologia da UFPR (Universidade Estadual do Paraná) e para o Rio de Janeiro, em um bar noturno. As fotos foram entregues às mulheres no dia do Feirão e também repassei o link com as fotografias digitais para algumas lideranças.”

Mulher desdobrável, como diz um de seus poemas favoritos de Adélia Prado, Kimberly também trabalha no resgate de gatos há quatro anos. “Só resgato o que aparece na minha frente porque acredito que se chegou até mim é porque é comigo. Peço coragem ao universo e aceito.”

Há dez meses ela cuida de 23 gatos que encontrou durante uma tarde em que ela e o namorado foram grafitar o muro da casa onde os animais viviam. “Eu sabia que ali habitavam muitos gatinhos, mas não sabia daquela atual situação. O dono faleceu de câncer e a esposa dele foi retirada da casa por um parente. Ela, uma senhora de idade avançada, fazia o que podia. Vinha alimentá-los uma vez na semana e trocar a água”, conta.

“Quando os encontrei, em janeiro, eles já estavam em situação de abandono há um mês. Corri para o mercado e comprei um quilo de ração e eles desesperadamente comeram tudo em minutos. Uma vizinha passou, viu a cena e me explicou o que estava acontecendo. A partir daí venho me mobilizando para minimizar a situação. Já retirei 12 gatos dali. Todos foram adotados e castrados, esses são os mais mansos e sociáveis. O restante são extremamente ariscos, não consigo tocá-los, mas eles me reconhecem e me esperam todos os dias durante o por do sol”, diz Kim, citando que a casa foi demolida e os gatos foram transferidos para uma ONG na mesma rua.

“Eles são muito espertos e imediatamente entenderam que ali seria a nova casa deles. Enquanto a ONG está desativada pela pandemia tudo segue bem. Castrei quase todos. A castração é uma forma segura, responsável e saudável de reduzir a população de animais de rua. Por ter conseguido certa visibilidade, recebo muito apoio. Protetoras me encaminham para castrações gratuitas ou mais acessíveis, amigas me ajudam com o pós-operatório e cuidados.”

“Os mais mansos foram doados, os mais ferozes nós respeitamos sua natureza literalmente selvagem e por isso são devolvidos para ‘A Casa dos 13 Gatos’, que é como chamo o local. Preciso de ajuda financeira para que esse resgate, que é infinito e eu já aceitei que é, continue. Eles comem bem e faço questão que se alimentem com abundância. Vou todos os dias repor a água e a ração. Jamais conseguiria bancar isso. Só consigo porque muita gente se sensibiliza e se doa para a causa. Sou muito grata a todas e todos pela confiança e pelo amor. Me realizo todos os dias enquanto os vejo me esperando iluminados pelos últimos raios solares.”

Depois de tanto trabalho com a tese, as fotos, os gatos, será que sobra tempo para simplesmente curtir a vida aos 22 anos? Kimberly garante que ama investir seu tempo em desenvolver seu olhar fotográfico e em outros prazeres.

“Amo pintar com meus amigos ou somente estar ao lado deles. Gosto de ouvir álbuns de música completos e ler análises sobre a obra como um todo e cada parte que a compõe. Amo CDs e a magia de poder ler os encartes e ver quantos nomes são necessários para que um artista aconteça. Amo garimpar músicas brasileiras no submundo do YouTube. Amo viajar e ficar em silêncio com minhas plantas e meus animais. Amo escrever poemas, ler poesia de mulheres brasileiras. Amo ir ao cinema, estar com a minha avó e amo ler cartas de tarot.” E a gente ama ler histórias inspiradoras como da Kim.

Kim em foto de arquivo pessoal

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