E por falar em saudade onde anda você…?

Por Carlos Monteiro*

Na segunda passada, há 107 anos, no longínquo século passado, exatamente em 1913, brotou, no bucólico bairro do Jardim Botânico – à época Gávea, nosso “Poetinha Maior”, Vinícius de Moraes. Germinou em terreno fértil e musicalmente propício: pai, poeta e violinista amador e mãe pianista. Aos três, foi para Botafogo viver na casa dos avós paternos. Morou e estudou em várias ruas do bairro até 1924, quando a família se mudou para a Ilha do Governador. Passou os fins de semana e férias como insulano, ficando a semana em terra firme no bairro, cujo nome homenageia João Pereira de Souza Botafogo, português armeiro que lá viveu outrora.

Não veio ao mundo para ser gauche, talvez um pouco inocente, definitivamente inocente, não ignorou todo o sentimento do mundo.

Não esteve só no mundo nem na América. Não viveu em Pasárgada, mas teve as mulheres nas camas que escolheu.

Vista do Arpoador. Fotos: Carlos Monteiro

Veio ao mundo para amar e amou. Amou sua própria solidão fugidia. Perdidamente. Amou como ninguém é capaz de amar. Amou a mulher amada como o pensamento do filósofo sofrendo como lago dormindo no cerro perdido. Tudo de amor que existia foi dado, disse, absolutamente tudo que falou, em si, de amor. Amou por toda sua vida, chorou ausências, um amor sem mistério e sem virtude, com desejos maciços e permanentes.

Veio para ser feliz e foi, como ninguém jamais tinha sido. Achou melhor ser alegre que ser triste, porque a alegria é a melhor coisa que existe, é luz no coração.

Veio para dar o autógrafo que não deu, para dar os beijos e abraços que espalhou como sementes fecundas. Veio para ser Vininha, muito alegre, jamais triste: foi poeta. Não fingiu, não sentiu dor em calhas de roda.

Foi mãos entrelaçadas com calma, alma como um amanhecer. Viu poemas em balançados, rosas sem cor e perfume, mudez telepática. Fez da vida uma aventura errante. Ambíguo, foi chama sem luz, jardim sem luar. Mesmo com olhos cansados, viu, vigilante a vida viver, vivenciando verdades e virtudes vívidas.

Em nove de julho de 1980, aos 67 anos, o anjo torto da morte o procurou precoce. De repente, não mais que de repente. Cedo, muito cedo, angústia de quem vive grandes amores, de quem ama em sua solidão poética, ode à paz. Vininha silenciou seu canto, neste conto de amar. Foi poetizar no firmamento, sorrir sorriso, cantar seu canto, espalhar seu pranto. Levou as eternas desventuras de viver. Talvez tenha morrido por amar mais do que pode, mas deixou a lâmpada acesa como Sol, como flor, como luz.

Amou como ninguém, sofreu de amor, chorou e viveu, é imortal, posto que é chama eterna e infinita.

Ah, Poetinha, se todos fossem iguais a você! “…E por falar em paixão/Em razão de viver/Você bem que podia me aparecer/Nesses mesmos lugares/Na noite, nos bares/Onde anda você…”

Saravá! Que Oxalá te dê todas as bênçãos que um Pai pode dar!

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