Ô abre alas

Por Carlos Monteiro*

Considera-se o início da música popular a partir de 1550. Quando os portugueses aportam em terras tupiniquins, já encontram manifestações musicais perante os nativos.

Francisco de Vacas, português morador da Capitania do Espírito Santo, é considerado “o primeiro músico de renome e da maior importância na evolução da música popular brasileira”. Citado por Duarte da Costa, em 1555, como “cantor eclesiástico e metido em confusões policiais, tendo inclusive agredido um aluno…”, tocava viola renascentista.

O sistema tonal, trazido pelos portugueses e, obviamente, desconhecido dos índios, juntamente com as primeiras danças europeias e africanas como jongo, lundu, batuques além de vários instrumentos como flauta, cavaquinho, violão, agogô, ganzá, ‘compõem’ essa rica miscelânia que é a música popular brasileira.

Em maio de 2012, a Presidenta Dilma Rousseff sancionou a lei que criou o Dia Nacional da Música Popular Brasileira, comemorado sábado, 17 de outubro.

Nada mais significativo, pois, nesta data, há 173 anos nascia a pianista, musicista, regente e, principalmente, compositora Chiquinha Gonzaga. Considerada a primeira a compor canções populares no Brasil, deixou um legado musical em estilos diversos – tangos (corta-jaca), marchinhas, operetas, choros, maxixes, polcas -imortalizados em obras como a marchinha de Carnaval “Ó Abre alas”, seu primeiro grande sucesso, “Lua branca”, “Corta jaca”, “Fogo-foguinho”, composta em parceria com Viriato Correia. Ferrenha abolicionista e republicana, participa ativamente do movimento pela libertação de seres humanos em situação escravizada e depois pela Proclamação da República. Funda a Sociedade Brasileira de Autores Teatrais.

Nair de Tefé, à época, primeira-dama, casada com o presidente da República, marechal Hermes da Fonseca, organiza um recital de lançamento do “Corta jaca”, maxixe composto por Chiquinha, sua amiga. Foi um “escândalo”. Tocado ao violão, instrumento considerado de malandros, por Nair, acompanhada, por nada mais nada menos que, Cartulo da Paixão Cearense, numa recepção no Palácio do Catete, então residência oficial da Presidência da República. O ato foi considerado uma quebra de protocolo, por levar às esferas palacianas música popular que, segundo a elite da época, era inspirada em danças lascivas e vulgares. Na verdade, uma “alforria” da música popular brasileira. Era a primeira vez que se executava uma canção popular na sede do governo.

Nair, em 1921, participa da Semana de Arte Moderna, Funda a Academia Petropolitana de Letras, participa da Academia Fluminense de Letras. Em 1932, funda o Cinema Rian, na Avenida Atlântica, em Copacabana, Rio de Janeiro. Aos 73 anos, volta a fazer caricaturas e no fim dos anos 1970, participa ativamente das comemorações do Dia Internacional da Mulher.

Mulheres muito além do seu tempo, muito além de um Brasil machista e preconceituoso. Chiquinha vai à luta, mostra a que veio. Abre alas, passa, é da lira, impossível negar.

A MPB surge de uma bem composta mistura de ritmos africanos, indígenas e europeus. Toma forma, a partir de dois ritmos musicais: o lundu , de origem africana, e a modinha, com fonte portuguesa, melancólica como os fados. Mais tarde, vem o choro, miscigenação da modinha e do lundu, seguido pelas marchinhas carnavalescas de Chiquinha e nas composições de Ernesto Nazareth, “Brejeiro”, “Odeon” e “Apanhei-te Cavaquinho”.

Nos anos 1900 surge o samba, mistura de ritmos dos morros e cortiços do Rio de Janeiro, das rodas de capoeira com os pagodes e as batidas em homenagem aos orixás. Em 1917, Donga compõe “Pelo Telefone”, sendo o marco deste estilo musical. Neste mesmo ano, aparece a primeira gravação de Pixinguinha, importante cantor e compositor da nossa música do início do século XIX. O samba-canção vem surgir um pouco depois, já no final dos anos 1920. Destacam-se Antônio Maria, Dalva de Oliveira e Dolores Duran.

Entre 1920 e 1930 o rádio se populariza. Muitos intérpretes ficam conhecidos; Ary Barroso, Carmen Miranda, Dorival Caymmi, Francisco Alves, Lamartine Babo, criador da hoje absolutamente preconceituosa e racista “O teu cabelo não nega”, Lupicínio Rodrigues e Noel Rosa.

Luís Gonzaga traz o baião nos anos 1940. A tradicional música nordestina contagia por meio deste ritmo popularizado por sucessos como: “Asa Branca”, “AssumPreto” e “A vida de viajante” composta em parceria com Herve Cordovil. Vêm a reboque Jackson do Pandeiro e Alvarenga e Ranchinho.

Em fins dos anos 1950, outro estilo chega para ficar: a Bossa Nova. Une sofisticação, leveza, suavidade e maviosidade musical. A música brasileira passa a ser conhecida e aplaudida fora do país nas vozes de Elizeth, João Gilberto e do maestro Antônio Carlos Brasileiro de Almeida, nosso Tom Jobim.

Maria Bethânia. Fotos: Carlos Monteiro

Nos anos 1960, a televisão começa a ganhar corpo no país e influencia na música com os festivais. Lança uma nova geração de ídolos. Caetano Veloso, Chico Buarque, Edu Lobo, Elis Regina, Jair Rodrigues, Milton Nascimento, Sérgio Ricardo e tantos outros. São lançados programas musicais como “Jovens Guarda”, com os hoje consagrados Roberto e Erasmo Carlos e a cantora Wanderléia que, naquele momento, iniciavam suas carreiras e “Discoteca do Chacrinha” – que já estava na TV Tupi desde 1957, indo para a TV Globo em 1968. Lançaram nomes importantes na MPB.

Entre 1967 e 1968, liderado por Caetano Veloso e Gilberto Gil surge o “Tropicalismo”. À época predominavam no país dois estilos musicais que andavam às turras: a Jovem Guarda e a MPB, com acusações em ralação à brasilidade de ambas as partes.

O fato que marcou o nascimento da “Tropicália” foi a apresentação das canções “Alegria, Alegria”, por Caetano Veloso e “Domingo no Parque”, por Gilberto Gil, em 1967, no III Festival de Música Popular Brasileira na TV Record. Ambos quebravam paradigmas ao usarem roupas espalhafatosas e comporem músicas de cunho político em uma mistura de rock and roll e MPB.

Naquele ano, Edu Lobo e Marília Medalha recebem o primeiro lugar com “Ponteio”, de Edu Lobo e Capinam. Gilberto Gil e Os Mutantes, o segundo com “Domingo no Parque”, música de Gilberto Gil. Chico Buarque e MPB4 com “Roda Viva”, composta por Chico, leva o terceiro lugar. Caetano Veloso e Beat Boys com “Alegria, Alegria”, composta por Caetano, fica com a quarta colocação e Roberto Carlos, cantando “Maria, Carnaval e Cinzas” de Luís Carlos Paraná, alcança a quinta posição. Nesta mesma audição, Sérgio Ricardo é desclassificado depois de quebrar e atirar seu violão sobre o público, após ser vaiado o que o impedia de executar a música no palco.

Em 1968, Gal Costa, Tom Zé, Os Mutantes, Nara Leão, o maestro Rogério Duprat, Júlio Medaglia, Damiano Cozzella, Torquato Neto, Capinam juntos com Caetano e Gil lançam “Tropicália”: disco coletivo com canções-manifesto. Neste mesmo ano, o movimento perde força com o exílio forçado de Caê e Gil pela ditadura militar vigente.

Nos anos 1970, vindos de todos os cantos do país, vários músicos brasileiros começam a fazer grande sucesso. Alceu Valença de Pernambuco, Belchior vem do Ceará, Clara Nunes das Minas Gerais, Djavan, das Alagoas, Elba Ramalho da Paraíba, Fafá de Belém chega do Pará, Fagner de terras alencarianas, Gal Costa da Bahia, Maria Bethânia de terras jorgeamadianas e Zé Ramalho, primo de Elba, vem da Paraíba. Fazem sucesso nas grandes cidades.

Nessa época, o rock brasileiro começa a despontar nas paradas de sucesso, com Raul Seixas e Rita Lee. O funk chega com Tim Maia e Jorge Bem, suingado, incorpora o Jor em seu nome. Também bandas fazem sucesso. Vímana foi uma delas. Tem em sua composição músicos que mais tarde fazem carreira solo. Ritchie, Lulu Santos, Luiz Paulo Simas, Lobão, e Fernando Gama. Chegam a ensaiar com Patrick Moraz, ex-tecladista Yes. Com a expulsão de Lulu Santos da banda por Moraz, o grupo se desfaz. Secos & Molhados, Casa das Máquinas, Barca do Sol, O Terço, Made in Brasil, Mutantes e tantas outras marcaram história.

Já nos anos 1980 e 1990, estilos musicais começam a geração do rock-Brasil. Nesta década surgem bandas e cantores importantes no cenário nacional. Barão Vermelho, Blitz, Cássia Eller, Capital Inicial, Cazuza, Engenheiros do Hawaii, Ira!, Legião Urbana, Lulu Santos, Lobão, Kid Abelha, Marina Lima, Nenhum de Nós, Paralamas do Sucesso, Raul Seixas, Rita Lee, RPM, Plebe Rude, Titãs, Ultraje a Rigor…

O Movimento punk surge em 1978, com a banda paulistana, Restos de Nada, mas ganha força nos anos 1980, a partir de São Paulo, com Ratos de Porão, Joelho de Porco, em Brasília, com Detrito Federal e Aborto Elétrico – que tinha Renato Russo como vocalista e no Rio Grande do Sul, com Os Replicantes.

Nos anos 1980, a música ‘melosa-romântica’ tem seu ápice com Cláudia Barroso, Benito de Paula, Fernando Mendes, Odair José, Luiz Ayrão, Wando. Agepê vende mais de um milhão de cópias com “Deixa eu te amar”.

Nos anos 1990, a música sertaneja começa a ganhar espaço com apelo ‘dor de cotovelo sofrida’. Despontam Chitãozinho e Xororó, Zezé di Camargo e Luciano, Leandro e Leonardo e João Paulo e Daniel. Com ela, aparecem as bandas de forró e de axé. Faz sucesso estrondoso. Mel com Terra, Mastruz com Leite, Magníficos, Limão com Mel, Araketu, Timbalada, Olodum, Cheiro de Amor, Eva. As Micaretas se espalham pelo país.

Ainda nos anos 1990 o rap dá as caras no Brasil com Gabriel, o Pensador, Pavilhão 9, Planet Hemp, Racionais MCs e O Rappa.

Nos anos 2000, quem faz sucesso são as bandas de rock voltadas para adolescentes. Charlie Brown Jr, CPM 22, Detonautas, Los Hermanos, Skank, fazem parte deste fenômeno.

Novos movimentos surgem como o funk, forró e sertanejo universitários e o pagode.

Alguns estão fazendo escola, contando sua história que se mistura com a da MPB. Outros seguiram carreira solo, outros ainda se perderam na poeira das ruas. 

A MPB é um movimento musical dos mais ricos do mundo, num somatório de ritmos, gêneros e estilos contagiantes, dá o tom e a harmonia inerentes ao povo brasileiro.

A MPB é para os ouvidos, é ‘pra’ pular à brasileira!

*Carlos Monteiro, 61, é cronista, jornalista, fotógrafo e publicitário carioca. Flamenguista e portolense roxo, mas, acima de tudo, um apaixonado pela Cidade Maravilhosa. Escreve na Lume às quintas

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