Construir conhecimento demanda esforço coletivo

Para a professora Márcia Chiréia, educação é a redenção de um povo e deve ser realizada em conjunto pelo governo, sociedade, escola e família

Por Mariana Guerin, jornalista e confeiteira em Londrina. Adoça a vida com quitutes e palavras

Somos os resultados de nossas escolhas. Mas é possível mesmo escolher se vivemos uma realidade desigual em que poucos têm muitas oportunidades e muitos não têm sequer uma? “Meritocracia em um país desigual é piada. Sou completamente a favor da meritocracia se houve equidade”, declara a educadora Márcia Chiréia, que atua como orientadora de estudos num cursinho pré-vestibular de Londrina. Nesse 15 de outubro, Dia dos Professores, Márcia explica como o estudo e a dedicação dos docentes pode transformar o indivíduo e, por que não, a realidade das famílias brasileiras. Mas a luta é difícil e longa.

A pandemia deixou ainda mais evidente o descaso com a profissão e a figura do professor. Não só pela atual administração federal, que traz discursos como o do ministro da Educação, Milton Ribeiro, que declarou recentemente que “hoje, ser professor é ter quase uma declaração de que a pessoa não conseguiu fazer outra coisa”, mas também por parte da sociedade, que desconhece e desmerece a realidade dos professores para quem, muitas vezes, terceiriza a criação de seus filhos.

“Culpamos o governo pelo nosso fracasso, independente de qual seja, mas nos acomodamos. Os pais passaram para a escola a missão de educar, mas não dá a ela essa autoridade”, declara Márcia. Para ela, “construir o conhecimento é algo que demanda esforço coletivo, sobretudo da família”.

Formada em Letras e pós-graduada em Literatura, Márcia ainda crê no papel libertador da educação, apesar de ser um trabalho bastante desafiador. “Precisamos de mais professores comprometidos com ensinar de verdade. Precisamos de mais escolas que prestigiem o saber. As escolas precisam envolver mais os pais nesse processo”, sugere.

Márcia Chiréia. Fotos: Arquivo Pessoal

Para a professora, “uma mentalidade conservadora e patriarcal aflorou nos últimos anos e o extremismo mostra nosso nível de ignorância”. “Não podemos deixar que caiam sementes, pois o solo está fecundo. Eu me sinto responsável por tanta desigualdade, por tanto preconceito, por tanto extremismo. Nosso povo precisa da educação”, alerta.

Márcia se diz pessimista com o atual cenário político-social do país. “A ignorância está sendo louvada. O negacionismo tem ganhado espaço. Isso me coloca medo e me deixa triste. A opinião baseada em achismo tem aumentado em relação ao ponto de vista baseado em fatos. A ciência tem perdido espaço para a religião. Nada contra os preceitos religiosos, mas há muitos ‘vendilhões do templo’ que se apropriam da fé alheia para conquistar o poder. Creio que vamos passar um período de trevas na nossa educação. Mas, como a história se repete, acredito que vamos superar. Nós, professores, precisamos insistir”, reforça.

Para Márcia, o ensino à distância já é um caminho sem volta e que pode oferecer múltiplas oportunidades de ampliação do conhecimento. “Contudo, não acho que estamos maduros o suficiente para sabermos lidar com esse tipo de ensino. Não ensinamos os alunos a aprender, falhamos na habilidade de desenvolver a autonomia. A escola física, presencial, ainda é importante para a vivência das crianças e adolescentes. Pelo menos por hora, provou-se, com a pandemia, que continua sendo a melhor opção.”

Márcia insiste que a formação dos alunos deve abranger muito mais do que simplesmente garantir uma vaga na universidade. “Mas, em um país cheio de desigualdades, não se pode ignorar que o vestibular é a entrada para uma carreira e, consequentemente, a porta para uma mudança de vida. Precisamos parar de ignorar que as vagas nas nossas melhores universidades são ocupadas pela elite. Isso gera um ciclo de poder que dificilmente se rompe”, questiona.

Para ela, por enquanto, as escolas ainda precisam preparar para o vestibular. “Ocorre que não é enchendo os meninos de material, de aulas ou de conteúdos que essa preparação vai acontecer. É necessário, primeiro, ensinar a aprender”, insiste a professora, reforçando que a escola precisa envolver os pais no processo.

“Outro passo é que a escola e a comunidade precisam exigir uma reforma no nosso currículo. É exagerado. É tanto conteúdo jogado, tudo é superficial. É tanta coisa que não dá para aprofundar em nada. O jovem é metralhado com tanta matéria desnecessária.”

“O ensino fundamental, por exemplo, deveria mesmo preocupar-se com os fundamentos. A criança deveria saber ler, escrever e conhecer matemática básica. Tudo com qualidade. Porém, é tanta coisa que o professor precisa dar conta que acaba despejando uma infinidade de informações que não são processadas. Daí a falência em nossos números nas avaliações como o Pisa (Programa Internacional de Avaliação de Alunos) ou Enem (Exame Nacional do Ensino Médio). Um aluno sai do nono ano mal sabendo ler. Cresce o analfabetismo funcional”, avalia.

“Penso que, nesse cenário, o ensino técnico seria uma medida paliativa. Não vejo mal, desde que as ciências humanas sejam também valorizadas”, completa.

Natural de Goioerê, Márcia é caçula de três filhos de um casal que já completou 62 anos de união. Mãe costureira. Pai agricultor. “Tenho uma irmã e um irmão que, por serem bem mais velhos, me tratam como filha. Passei toda a infância e adolescência em uma chácara, sempre cercada pela família. A casa sempre cheia de tios, primos e agregados. Uma família muito unida e festeira”, conta a professora, que tem na família seu porto seguro. “Ensinou-me valores que carrego para a vida e que tento transmitir às minhas meninas, Laura, de 12 anos, e Luíza, de 9.”

Vivendo a rotina simples da chácara, nem sempre a adolescente tinha dinheiro para comprar o que mais gostava: roupas, sapatos e maquiagem. Então, resolveu trabalhar. Aos 15 anos começou a vender cosméticos e fazia limpeza de pele em domicílio. Também fazia trabalhos escolares para juntar uns trocados. Aos 16, Márcia trabalhou como telefonista em um posto telefônico da Telepar e aos 18, prestou um concurso público e começou a dar aulas para crianças na periferia de Goioerê.

“Minha adolescência não foi diferente da adolescência da maioria das meninas. Preocupava-me muito com a opinião dos outros, não tinha uma boa autoestima. Adorava comprar roupas, sapatos, maquiagem. Contudo, não tinha muita condição financeira e, para conseguir comprar minhas coisinhas, comecei a me virar muito cedo.”

Tudo ia bem até ela perder o namorado por conta de um acidente de carro, aos 18 anos. “Entrei em uma depressão profunda. Foram anos lutando contra essa doença que me consumiu. Cheguei a pesar 39 quilos. Não conseguia me alimentar”, relembra.

“A depressão era vista como ‘frescura’. Foi muito sofrido. Ensinou-me a dar muito mais valor à família. Sem meus pais e sem minha irmã, Marisa, eu não teria superado. Para lutar contra a depressão, eu mergulhei nos estudos, lia muito, estudava muito. Eu não admitia saber pouco. O conhecimento era para mim uma libertação.”

Segundo Márcia, sua história com a educação se deu por falta de oportunidade. “Não tinha muita opção de estudos na época. No ensino médio, na época, segundo grau, ou se fazia magistério, de manhã, ou curso técnico de contabilidade ou administração à noite. Era o que tinha em minha cidade.”

Os pais dela, então, decidiram colocá-la no magistério. “No começo relutei, mas entendi que era a melhor opção. Sempre fui uma aluna dedicada, tirei notas altas nos estágios. Quando chegou o tempo de vestibular, foi um drama. Eu queria fazer direito, ser juíza ou promotora. Porém, entrar em uma universidade não era fácil. Havia poucas instituições. A faculdade pública de Direito mais próxima era em Maringá. E minha família não tinha condições de me manter”, conta.

Então ela optou por estudar Letras numa faculdade pública em Campo Mourão. “Tinha ônibus que levava os estudantes. Como eu gostava de ler e escrever, foi minha escolha. Pensei que seria uma ponte para a faculdade de direito depois. De repente, me vi envolvida pelo curso”, confessa a professora, que amava latim e semântica e era fascinada “com a magia da literatura”.

“No estágio, fui muito bem. Quando terminei a faculdade, tive proposta de trabalho em cursinho pré-vestibular e nos dois colégios particulares da cidade. Abracei as três instituições e comecei minha história com a língua portuguesa. Eu não brincava de ensinar. Levava realmente a sério. Como era jovem e idealista, achava que ser professora era uma chance de melhorar o mundo, pelo menos o mundo a minha volta.”

No início da carreira, Márcia acreditava que conhecimento tornaria seus alunos pessoas melhores. “Eu achava que estávamos perto de um país melhor e mais justo, mais culto”, declara.

Ela confessa sua frustração em ser educadora em um país que precisa da educação para se libertar de uma mentalidade arcaica, mas que não age para tal. “Percebi que educação de qualidade é algo bastante distante da nossa realidade, pois vejo que, em uma sala de aula, a minoria quer aprender e se esforça para isso. Nossa sociedade valoriza o ter, valoriza o aluno esperto, aplaude a esperteza em detrimento ao esforço e à dedicação. Construir o conhecimento é algo que demanda esforço coletivo, sobretudo da família”, opina.

“Mais de 20 anos depois de ter iniciado meu caminho na educação não vejo diferença nos alunos, nas atitudes deles, nas traquinagens, na curiosidade perante a vida, na rebeldia e postura de enfrentamento. Na verdade, gosto disso neles”, afirma Márcia, reforçando que a diferença significativa está nas famílias: “Nos pais que jogaram para a escola a responsabilidade de educar, mas, paradoxalmente, mimam os filhos e, por não quererem que sofram, tiraram a autoridade dos professores”.

“Os pais não estão sabendo cumprir o papel  de pais e, assim, temos tido a cada ano uma molecada que não tem noção de hierarquia. E aí está a grande mudança e o nosso grande desafio. Ensinar tem se tornando algo complicado, pois aprender não é fast. Nem sempre é divertido, não é tarefa simples e os pais não estão colaborando.”

Mãe de duas meninas e dois enteados, Márcia, tinha o sonho de viver numa metrópole, o qual realizou aos 23 anos. “Após terminar minha pós-graduação, aos 23 anos, mudei-me para São Paulo, onde vivi até os 38 anos. Lá trabalhei em conceituados colégios, fiz trabalhos editoriais. Amo essa metrópole e os amigos que lá ficaram”, recorda a professora que adora escutar rock. “Na adolescência ouvia Queen, Smiths, The Doors, Legião Urbana, Titãs. Tinha os cabelos pintados de púrpura e era namoradeira”, conta.

Aos 44 anos, ela adora cuidar de plantas nas horas vagas e ainda pretende viver numa casa grande em uma chácara, com um jardim enorme. “Realizei o sonho de ter um bom companheiro. Tenho um marido incrível.  E ainda sonho em ter um ano sabático viajando por toda a Europa.”

E o trabalho como educadora? “Eu achava que, de certa forma, eu poderia mudar a forma de pensar e agir das pessoas. Achava que seria possível ter educação de qualidade, ter uma nação com mais dignidade. Hoje eu continuo acreditando que a educação é nossa redenção, mas me sinto mais descrente, justamente porque vejo que aqueles meus alunos lá de trás hoje já são pais e não estão diferentes”, avalia. É, a luta é mesmo difícil e longa.

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