Solidariedade e união garantem festa das crianças na ocupação Marieta

Em meio à crise, moradores contam com doações para uma tarde de guloseimas e alegria

Cecília França

O cheiro de pipoca e cachorro-quente invadia o espaço onde mulheres da ocupação Marieta preparavam, desde cedo, os quitutes da festa do Dia das Crianças, comemorado ontem (12). Um bolo imenso, medindo mais de um metro, coberto com glacê e confeitos coloridos atraia os olhares. Sacolinhas de doces e livros clássicos aguardam em mesinhas para serem entregues às crianças.

Pela primeira vez aquele grupo de mulheres realizou uma festa para os pequenos da ocupação e justamente neste ano atípico, em função da pandemia. Crianças sem escola, muitos adultos sem emprego, receio do que virá com a queda no valor do auxílio emergencial. Doações de um coletivo da sociedade civil – representado na ocasião por Carlos Enrique Santana – e o empenho das mulheres garantiram a comemoração.

“É para a felicidade das crianças e da gente também”, diz a cozinheira Maria Lúcia. Desempregada desde o início da pandemia, Lúcia foi cedo para o fogão. Ela conta que estava prestes a ser registrada no emprego quando o vírus surgiu e veio a demissão. Agora, não tem perspectiva de conseguir uma nova colocação. “Não tem emprego”, afirma. Ela recebeu a doação de três cestas básicas como ajuda nos últimos meses.

Pâmela Aparecida era colega de Lúcia no mesmo restaurante e também foi demitida, um mês após o registro em carteira. Segundo ela, não conseguiu o auxílio emergencial nem o seguro-desemprego. As outras voluntárias, Maria de Fátima, Celma e Célia, também contam histórias de dificuldades. Todas concordam que a pandemia não deve passar tão cedo.

Em frente ao bar improvisado como barraca, as primeiras crianças chegam um pouto tímidas. Aceitam o refrigerante, recusam o cachorro-quente. “Chama todas as crianças lá debaixo”, diz Pâmela. Aos poucos o volume de pessoas aumenta e o clima de confraternização toda conta da rua.

Entre as mães, relatos sobre a falta que faz a escola na rotina dos filhos. Débora Araújo conta que a filha de 4 anos tem estado mais quieta e chorosa. “Ela chora, fala que quer as amiguinhas, a professora. Lá ela brincava, corria, em casa fica mais quieta”, lamenta a mãe. As atividades têm sido enviadas via WhatsApp, mas Débora nem sempre consegue acompanhar.

“Faço quando tenho crédito (no celular). Estamos duas semanas atrasadas”, conta. A filha de 5 anos de Regiane Lima também sente falta da rotina escolar, onde ficava meio período. “Ela sente falta dos amigos”, diz a mãe. A pequena Beatriz confirma: “Sinto falta de brincar”.

Com o filho mais novo, de 2 anos, no colo, Regiane diz que tem conseguido manter as atividades em dia, mesmo não sendo fácil. “Tem esse aqui que também quer atenção, mas estou conseguindo acompanhar”. O menino saboreia um picolé. “Os dentinhos estão nascendo e judiando, tia”, diz ela a mim, encenando uma fala do menino.

Depois da pipoca e do sorvete, uma fila de crianças se forma em frente à barraca para a distribuição do bolo. Os adultos também se deliciam. Na sequência, as voluntárias entregam os presentes: um saquinho de doces e um livro para cada. Na ocupação Marieta, a união deixou mais doce um momento de tantas dificuldades.

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