‘Tais cenas nos obrigam a nos deparar com aqueles demarcados como não humanos’, diz psicóloga

Vídeo de idoso em situação de rua expulso da calçada de um restaurante são metáforas de uma sociedade opressiva salientada pela pandemia, avalia Flávia Carvalhaes

Cecília França

“A Covid- 19 se instaurou sem pedir licença e nos fez deparar com realidades que sempre existiram e que agora se precipitaram”, explica a psicóloga Flávia Fernandes de Carvalhaes, 42, dedicada ao trabalho e estudo com populações vulneráveis em Londrina. Na última década, Carvalhaes atuou junto a adolescentes em cumprimento de medidas socioeducativas e, por um período mais curto de tempo, com a população de rua.

Doutora em Psicologia pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), ela classifica cenas como a registrada na última semana, em que o proprietário de um restaurante joga água para expulsar um idoso de situação de rua da calçada, como “metáforas” da nossa formação social, pela qual alguns grupos e cidadãos são considerados sujeitos de direitos enquanto outros apresentam-se como inferiores.

Flávia Carvalhaes em foto
de arquivo pessoal

“Tais cenas nos obrigam, ainda que provisoriamente, a nos depararmos com parte daqueles demarcados como não humanos: moradores de rua, indígenas, negros, pessoas pobres, transexuais, imigrantes, entre outros exemplos de vidas localizadas como anormais, abjetas, inviáveis.”

Natural do Rio de Janeiro, Carvalhaes é docente no Departamento de Psicologia Social e Institucional da Universidade Estadual de Londrina (UEL), onde se graduou em 2003. Tem se dedicado ao estudo de autores decoloniais, a fim de superar conceitos determinados por colonizadores que resultaram no apagamento de culturas classificadas como periféricas.

Confira entrevista completa à Lume.

É natural do ser humano formar grupos e impor sua superioridade a outros, minoritários, ou isso é uma construção social?

Não creio que as relações de dominação entre seres humanos se apresente como efeito de um processo “natural”, algo que, necessariamente, remeta a uma natureza humana. Entendo, em contrapartida, que há uma série de condições sociais, políticas, econômicas, entre outros elementos, que, ao longo da história, vêm demarcando processos de dominação e exploração entre povos.

Os processos de colonização europeus são exemplos dessa lógica de soberania e hierarquização entre povos. Pautados no mito de supremacia racial branca, o processo de cruzar o Atlântico implicou na invasão de diferentes territórios, no silenciamento (e extermínio) de povos originários, na imposição de modos de pensar e de se organizar socialmente, entre outros exemplos. A racionalidade colonial de poder, portanto, se apresenta como constitutiva de nossa história, sendo pautada em dinâmicas de opressão sustentadas na lógica do racismo. Assim, historicamente, determinados povos e parcelas da população são nomeados como superiores, como sujeitos de direitos, enquanto outros são demarcados como subcidadãos, como mercadorias, como anormalidades e, em última instância, como não humanos.

A pandemia agravou ou apenas visibilizou situações de vulnerabilidade?

Tais questões se amplificaram nesses meses da pandemia. Tempos que nos colocam frente a frente com contradições que se desenham em uma dimensão geopolítica: as nossas políticas da pele, os nossos racismos genderizados, a gritante desigualdade social, as práticas coletivas de risco, entre outros exemplos. A Covid- 19, portanto, se instaurou sem pedir licença e nos fez deparar com realidades que sempre existiram e que agora se precipitaram. A pandemia nos ensina que populações ou raças inteiras são, cotidianamente, submetidas a uma respiração difícil, a uma respiração ofegante, a uma vida precária.

Vimos um episódio lamentável esta semana em Londrina, quando o dono de um restaurante foi filmado jogando água para expulsar um idoso em situação de rua da calçada. Uma atitude assim pode se explicar (já que não se justifica) por uma perspectiva de desumanização do outro?

Cenas como a da criança negra colocada sozinha em um elevador (caso ocorrido em junho no Recife, quando o filho de uma empregada doméstica, deixado no elevador pela patroa, acabou morrendo após cair do prédio), ou mesmo do morador de rua idoso sendo expulso com água da frente de um estabelecimento comercial, se constituem como metáforas de lógicas que, na vida em sociedade, inscrevem determinadas vidas como descartáveis, objetos, marginais, inferiores. Tais cenas nos obrigam, ainda que provisoriamente, a nos depararmos com parte daqueles demarcados como não humanos: moradores de rua, indígenas, negros, pessoas pobres, transexuais, imigrantes, entre outros exemplos de vidas localizadas como anormais, abjetas, inviáveis.

Queria que você comentasse a perspectiva do senhor em situação de rua. O que leva uma pessoa a terminar nesse lugar de extrema vulnerabilidade? Ela vai ou é empurrada a esse lugar?

As minhas experiências de trabalho e de pesquisa em relação à população de rua me ensinaram que este fenômeno é complexo e que demanda a articulação de trabalhos em rede entre profissionais e serviços de diferentes áreas. Os relatos de vida a que tive acesso me ensinaram que a condição de rua acontece em virtude de múltiplas histórias, que denunciam trajetórias de dor, de violências vividas, de abandonos, de adoecimentos psíquicos, de explorações sexuais, de uso de drogas, da precariedade das políticas públicas no Brasil, entre tantos outros exemplos.

Nesse sentido, acredito na importância de desconstruirmos narrativas que insistem em debater a complexa situação de pessoas viventes na rua, a partir de argumentos morais e/ou individualizantes. O notável aumento de pessoas em situação de rua no Brasil, e mais especificamente em Londrina, nos convoca a uma reflexão coletiva crítica. Água, de fato, não vai “limpar” essa realidade!

Você tem se dedicado ao estudo a partir da literatura decolonial. Que ensinamentos esses autores fora do eixo Europa-Estados Unidos nos trazem sobre nossa formação social?

Autoras e autores decoloniais vêm nos ensinando que há saberes (e modos de existência) que foram silenciados (invisibilizados) pela perspectiva científica hegemônica. Assim, quase não temos acesso aos modos como diferentes povos constroem sentidos sobre a vida. O pensamento decolonial anuncia, portanto, sobre a importância de termos acesso a saberes localizados como periféricos/subalternos.

Na conjuntura atual, por exemplo, penso que é fundamental a escuta atenta de análises que vêm sendo empreendidas por pensadores indígenas, como Ailton Krenak e Davi Kopewana.

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