Candidaturas de trans e travestis miram visibilidade

Representantes da população LGBTI+ concorrem a vagas nas próximas eleições municipais para que seja dada voz na vida pública a quem é historicamente silenciado

Fábio Galão, especial para a Lume

Com o início da campanha eleitoral no último domingo (27), os candidatos a prefeito e vereador deram a largada em uma disputa para ver qual voz falará mais alto nas eleições de novembro e na vida pública dos municípios pelos próximos quatro anos. Uma voz historicamente silenciada e perseguida no Brasil tenta se destacar: a da comunidade de transexuais e travestis.

Uma pesquisa preliminar da Aliança Nacional LGBTI+ registrou 584 pré-candidaturas LGBTI+ em todo o Brasil para o pleito deste ano, sendo 15 para prefeitas e prefeitos e 569 para vereadoras e vereadores. Dessas pré-candidaturas, 69 eram de mulheres trans, 17 de travestis e 11 de homens trans. A pesquisa foi feita antes do encerramento do prazo para registro de candidaturas, finalizado no sábado (26). A Aliança espera ter números finais dentro de duas semanas.

A curitibana Renata Borges é candidata a vereadora pelo PT em Apucarana. Esta é a segunda vez que concorre a um cargo eletivo – em 2018, tentou uma vaga na Câmara Federal pelo PSB. Sua militância começou em 2015, após participar do Miss Curitiba Trans. “Ali encontrei a minha população, porque até então eu vivia meio que isolada da população de travestis e transexuais. Eu não tinha muito acesso às meninas, eu trabalhava no varejo, eu estava em um sistema de privilégio. Vi que a grande maioria vivia da prostituição, e aí eu fui descobrir que a grande maioria era expulsa de casa, sofria retaliação social, não tinha a oportunidade de estudar por causa da transfobia externa. A minha transfobia era internalizada, era eu para comigo mesma”, explica.

Renata Borges é candidata a vereadora em Apucarana: “A sensação da gente ser LGBTI+ é que você é invisível em todos os contextos”. Fotos: Divulgação

Em 2016, foi chamada para trabalhar na ONG curitibana Transgrupo Marcela Prado, onde estudou no projeto Tô Passada, cursinho pré-vestibular para transexuais. “Vim para o interior em 2017, para Apucarana, para fazer engenharia na UTFPR. Foi bem na época que tinha um vereador que estava fazendo projetos sobre ideologia de gênero, de Escola Sem Partido. Como eu tinha vindo de Curitiba com materiais de combate à homofobia e transfobia, fizemos um protesto e uma TV local me ‘descobriu’. Aí começou o meu trabalho”, recorda Renata, que no mês passado deixou o emprego em um shopping de Londrina para se dedicar à campanha.

Em 2018, tornou-se a primeira presidente transexual do Diretório Central de Estudantes (DCE) do campus Apucarana da UTFPR e, com a candidatura para deputada federal, sua carreira política começou. “Quando eu fui fazer a parada LGBTI+ em Apucarana (no ano passado), invadiram minha casa, colocaram facão em cima da minha cama, eu fui sofrendo várias retaliações por debater alguns assuntos que a cidade talvez não queria discutir. Eu acho que não é nem a cidade, é esse grupo patriarcal, da casa grande, que acha que não devem ser debatidos temas sociais, foi esse grupo que me retaliou”, aponta, lembrando que a parada só aconteceu porque o Ministério Público recomendou à prefeitura o bloqueio da avenida Curitiba para o evento. “A sensação da gente ser LGBTI+, de ser trans ou travesti, é que você é invisível em todos os contextos. A esse corpo T, travestido sexual, é negado o direito da cidadania.”

Samira Andrade, cabeleireira e mãe de santo em Colombo (Região Metropolitana de Curitiba), é candidata a vereadora pelo DEM. Ela conta que seu objetivo é melhorar a representatividade de populações vítimas de preconceito, evidenciado por episódios recentes de violência contra a população LGBTI+ local e intolerância religiosa.

“Lutar pelas trans aqui em Colombo é muito importante. Elas só vão vistas aqui pela Estrada da Ribeira, pela questão da prostituição, sendo que aqui temos o melhor grupo de drag queens. Tento buscar aquela imagem de que trans não é só rua, é muito mais que isso, trans, drags, gays… Somos pessoas instruídas, estudadas, muito independentes, porque o preconceito faz com que os gays tenham que se tornar independentes muito cedo, são expulsos de casa. E aqui em Colombo não temos representantes correndo atrás disso. Passamos por um período em que mataram muitas travestis na cidade. Simplesmente passou em branco, ninguém se preocupou”, desabafa a candidata.

“Também vimos recentemente a depredação de uma casa de candomblé e umbanda, um preconceito contra um grande pai de santo da cidade, escreveram palavras de baixo calão, jogaram garrafas com cartas escrito ‘lugar de negro é na senzala’… as religiões de matriz africana, os LGBTI+, os negros não têm muita representação aqui em Colombo.”

Estratégia permanente

Além de contabilizar números de candidaturas LGBTI+, o Programa Voto com Orgulho, da Aliança Nacional LGBTI+, inclui formação de pessoas candidatas, por meio de um curso virtual realizado em julho e agosto com 300 inscritos; recebimento e encaminhamento de denúncias de fake news e discursos de ódio contra as candidaturas e a comunidade LGBTI+; site com orientações para eleitores/as LGBTI+ e pessoas candidatas LGBTI+ e aliadas; e um termo de compromisso, para que pretendentes a cargos públicos em novembro desenvolvam políticas públicas para enfrentar a discriminação e promover ações pela cidadania em caso de vitória nas urnas.

Cláudio Nascimento, diretor de políticas públicas da Aliança Nacional LGBTI+ e coordenador do Voto Com Orgulho, explica que o programa congrega ações que já vinham sendo desenvolvidas, mas de forma fragmentada.

“A ideia é seguir como uma estratégia permanente da entidade de suporte a pessoas que queiram ser candidatas e de monitoramento desse processo de representação da comunidade LGBTI+ na política e nos espaços de poder. A gente observou que, por mais que se tenha ampliado a visibilidade da comunidade no Brasil, com as paradas de orgulho LGBTI+, com as matérias e folhetins culturais na televisão, debates nas mídias sociais e avanços com decisões judiciais, ainda não vemos uma mudança nesse contexto da representação política”, diz Nascimento.

“Nossa luta e estratégia é para que isso se modifique, porque sem um aumento da presença LGBTI+ nos espaços legislativos e do executivo, podemos simplesmente não ser ouvidos. E queremos também que as candidaturas heterossexuais progressistas assumam esse compromisso para que possamos acompanhar e monitorar se está sendo efetivamente cumprido o que foi prometido”, conclui o coordenador.

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