Opinião: Ódio ao padre Júlio Lancellotti é ódio à população de rua

Por Cecília França, editora da Rede Lume de Jornalistas

Foto em destaque: Bruno Mazzoni

O padre Júlio Lancellotti, apoiador da população de rua em São Paulo há décadas, foi alvo de uma campanha de ódio iniciada por um pré-candidato à prefeitura da capital paulista na última semana. Em uma postagem, Arthur do Val o classificou como “cafetão da miséria” e deu a entender que teria um dossiê contra o sacerdote. Após a ameaça virtual, veio a real: um homem de moto passou na rua em que o padre presta atendimento aos moradores de rua e o xingou de “filho da p…” e “defensor de nóia”. Afinal, o que leva alguém a odiar o Padre Júlio Lancellotti?

O ódio direcionado ao sacerdote é, na verdade, o ódio dos reacionários, classistas e higienistas pela população de rua. Para esta parte da sociedade, quem vive na rua pode ser reduzido a um bando de drogados. Vemos discursos assim vindo, inclusive, do poder público, de quem deveria prezar pelos direitos destes, que são privados do básico. Quando digo básico é básico mesmo: água, comida, higiene pessoal.

O homem de moto que xingou padre Júlio passou, na sequência, por um grupo de catadores de papel e disse que voltaria para atear fogo neles. É quando o ódio transborda pela boca. No início deste ano, um comentarista de rádio em Londrina afirmou que o problema da população de rua seria resolvido com “Um chicote em uma mão e um taco de beisebol em outra”. O caso foi denunciado ao Ministério Público. Em uma reportagem mais recente, um apresentador de televisão, ao comentar uma ocorrência atendida pela polícia em um mocó, classificou quem ali vivia como “um bando de desocupados”. O ódio também transborda pela boca dos “pé vermelho”.

Desde o início deste ano me aproximei do movimento da população de rua em Londrina, a partir de uma matéria em que eles eram os personagens principais (mas nem assim foram ouvidos pela mídia de massa). Tenho orgulho de ser apoiadora do movimento, dentro das minhas limitações. A experiência de estar mais próxima desta causa amplia diariamente minha visão de mundo e, ainda mais importante, me aproxima de pessoas incríveis – algumas, verdadeiros reflexos de padre Júlio Lancellotti na realidade local.

Duas mulheres, em especial, me comovem com suas dedicações à causa da população de rua. São duas servidoras públicas, mas não estão apenas trabalhando, estão servindo. Estão atuando para que eles acessem seus direitos; estão lutando contra um sistema excludente, impeditivo, reducionista.

Dias depois da campanha de difamação iniciada contra o padre Júlio Lancellotti, o atual prefeito de São Paulo, Bruno Covas, o definiu como “um incômodo necessário”. Eu tiraria o incômodo. Ele, bem como seus reflexos locais, são, apenas, necessários.

Um comentário em “Opinião: Ódio ao padre Júlio Lancellotti é ódio à população de rua

  1. Reflexão sensível, profundamente humana no melhor e mais puro sentido de humanidade. A Lume, e a jornalista Cecília França, contam com meu profundo respeito e admiração pelo brilhante trabalho de defesa dos direitos humanos de pessoas vistas por outros tantos “humanos” como lixo urbano!

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