‘Estamos falando de direitos e não de ajuda’

Há duas décadas, a assistente social Regina Moreno aproxima políticas públicas de famílias carentes e transforma vidas na capital paulista

Por Mariana Guerin, jornalista e confeiteira em Londrina. Adoça a vida com quitutes e palavras

“Quanto mais direitos, melhor. E políticas públicas também. O caminho está ai.” Essa é a saída para resgatar famílias em situação de vulnerabilidade, na opinião da assistente social Regina Célia Barbosa Moreno, que atua na gestão de serviços de saúde há vinte anos, no Conjunto Hospitalar do Mandaqui, na Zona Norte de São Paulo.

De caçula nascida em casa, numa vila de operários do interior paulista, a mestre aos 52 anos, com curso concluído nos Estados Unidos, e o convite para tornar-se professora universitária, Regina conhece bem as dificuldades da população mais vulnerável e por isso se empenha diariamente para fazer valer os direitos que estão previstos na Constituição Cidadã, mas que muitos desconhecem.

Regina em uma visita ao Central Park, em Nova Iorque. Fotos; Arquivo Pessoal

“Quando me formei, na década de 1980, o serviço social era assistencialista, ele ajudava, dava cesta básica, vale transporte, muitas vezes estava vinculado às igrejas. Hoje, trabalhamos com direitos: eu não vou te ajudar, eu vou te orientar sobre como acessar a política pública a que você tem direito. E para conseguir o benefício tem uma condicionalidade, a pessoa precisa cumprir algumas regras. Tem gente que nem sabe que tem direitos que podem melhorar a vida dela”, alerta.

Em sua rotina trabalhando no ambulatório de um hospital de referência na Zona Norte de São Paulo, Regina se diz realizada com a possibilidade de exercer o que aprendeu na prática, já que quando se formou em serviço social pela Universidade Cidade de São Paulo, em 1983, a metodologia aplicada à profissão era completamente diferente por conta da ditadura.

“Em 1979 aconteceu algo muito importante para a história do serviço social brasileiro que foi o congresso da virada. Todo ano era realizado um congresso nacional para debater os futuros da profissão e em 1979, com uma mesa composta basicamente por militares, sindicalistas liderados pelo Lula entraram no Anhembi carregando uma faixa que dizia: ‘O serviço social está do lado dos trabalhadores’. A partir dai a metodologia da profissão mudou de assistencialista para crítica marxista”, recorda Regina, contando que na época, o assistente social trabalhava sempre a favor do Estado e dos patrões.

Regina nem sempre atuou na profissão que hoje exerce com paixão. Foram necessárias duas décadas para que ela conseguisse uma oportunidade na sua área de formação. Enquanto a chance não veio, ela trabalhou em banco, foi atendente em farmácia, proprietária de uma loja de ferragens com o marido e auxiliar administrativa numa escola. Por mais de uma década ela deixou suas aspirações profissionais para criar os três filhos, hoje já formados.

Terceira filha de um trabalhador autônomo e uma costureira, Regina nasceu em Presidente Venceslau, interior de São Paulo, numa casa de uma vila operária, na época em que o pai trabalhava numa serraria. “Eu sou a terceira filha com diferença de oito anos da minha irmã do meio. Como minha mãe já tinha duas meninas, ela tinha certeza que eu seria um menino.”

Com a morte do avô materno, a mãe dela usou o dinheiro da venda do sítio do pai, que recebeu de herança, para comprar uma casa na cidade. Em Presidente Venceslau, a mãe começou a ter aulas de corte e costura e formou clientela. Como o marido não tinha emprego fixo e passava muito tempo fora de casa por conta do alcoolismo, a mãe era a responsável pelo sustento das três filhas.

“Como meu pai ficava muito ausente e o que ele ganhava não era suficiente e ele gastava muito fora de casa, minha mãe lavava roupa para fora, fazia faxina para ganhar um dinheirinho. Meu pai tinha muitas dívidas e a gente ia perder a casa. Ai teve a interferência do meu cunhado, que vendeu nossa casa, pagou as dívidas e deu o restante do dinheiro para a minha mãe. Foi ai que ela decidiu ir embora para São Paulo. Eu tinha 11 anos”, recorda.

Regina com os filhos

Elas moraram por um tempo na casa de um primo que vivia na Zona Leste da capital. “Minha irmã do meio tinha conseguido um emprego em São Paulo e já morava com esse casal de primos. Logo minha mãe começou a costurar para a família e fez clientela no bairro. Em seguida, ela conseguiu um emprego de costureira numa loja no centro e pudemos nos mudar para uma casa bem próxima de onde morava meu primo, que era nossa referência”, conta.

Enquanto a irmã mais velha já estava casada e vivia em Presidente Prudente, onde trabalhava como professora, e a irmã do meio trabalhava na capital, Regina terminava o ensino fundamental. “Minha infância foi muito boa no interior, eu brincava muito na rua, tinha amizades”, define a assistente social, que precisou começar a trabalhar aos 14 anos para ajudar nas despesas da casa.

“Estudava à noite no ensino médio porque tinha que ajudar em casa, tinha aluguel para pagar, então comecei a trabalhar numa empresa que ficava só a um ônibus distante de casa. Depois de dois meses, consegui um emprego num banco que ficava na frente da minha casa e nesse banco eu fiquei durante nove anos.”

“Minha mãe acreditava que a educação era importante. Minha irmã mais velha fez magistério e depois pedagogia. Minha irmã do meio fez curso técnico e eu sempre quis fazer faculdade. No início queria prestar para educação física”, diz Regina, completando que um dilúvio foi responsável pela mudança radical na escolha da profissão.

“Me inscrevi para o vestibular de educação física e a melhor opção para mim era a FIG, em Guarulhos. Na época, eu pensava que Guarulhos era muito longe de onde eu morava, na Vila Carrão. Tinha que tomar três ônibus para chegar, mas fui mesmo assim. No dia do vestibular, choveu tanto na cidade, que alagou o centro de Guarulhos e não consegui chegar no local de prova. Desisti e voltei para casa. Mas para não ficar parada, fui fazer um ano de cursinho no bairro da Liberdade, e na convivência com os outros alunos, me identifiquei muito com ciências sociais e ser socióloga”, lembra.

“Como sempre estudei em escola pública, eu queria ciências sociais da USP (Universidade de São Paulo). Mas lembrei da questão da distância e prestei também serviço social numa faculdade mais próxima, na Zona Leste mesmo. Eu passei na primeira fase da Fuvest mas não acompanhei os resultados da segunda fase. Decidi cursar serviço social na Unicid.”

Depois de quatro anos de curso e ainda trabalhando no banco, Regina casou e continuou morando próximo ao trabalho. No banco, onde começou como atendente, foi melhorando de cargo e chegou ao topo: gerência. Mas ela teria que mudar para uma agência no centro da cidade. “Eu tinha terminado a faculdade e era apaixonada por serviço social, o trabalho em banco não tinha nada a ver comigo. Conversei no RH, que me ofereceu uma vaga como assistente social. Fizemos toda a papelada, mas no final não deu certo por conta do salário, que era mais baixo. Então pedi para me mandarem embora.”

Casada há dois anos, aos 25 anos ela decidiu engravidar e qual não foi a surpresa: teve três gestações, uma seguida da outra – um menino e duas meninas – nada planejado. “Aconteceu e pensei, agora vou cuidar dos filhos. E quando chegou uma certa idade deles decidi voltar a trabalhar. Comecei a estudar para concurso, fiz um curso de atualização em serviço social e fui me preparando. Me formei em 1983 e passei no concurso só em 2000.”

“Na nossa época, muitas mulheres casavam e ficavam em casa, cuidando da família. Em alguns casos, o marido não deixava trabalhar. Eu fiquei muito tempo cuidando das crianças mas meu marido sempre me apoiou para voltar ao mercado de trabalho.”

Para ajudar no estudo dos filhos, Regina chegou a acumular dois empregos, no hospital pela manhã e na escola à tarde. E com os três filhos formados, e por convite de uma amiga, decidiu ingressar no mestrado, que concluiu aos 52 anos. “Como trabalho na saúde e sempre me interessei por essa área, surgiu a oportunidade de cursar o mestrado em gestão em serviços de saúde pela Uninove. Foram dois anos e um módulo internacional, que me levou a Boston.”

Após o término do mestrado, em 2015, ela foi convidada pela universidade para dar aulas de diversas matérias do curso de serviço social. “Na minha primeira aula senti medo, foi muito estranho. Eram quatro horas falando de instrumentos e técnicas, tinha que falar muito, foi difícil”, define Regina, que nunca havia se imaginado atuando como professora ou conquistanto um título de mestre com os filhos já adultos.

“No curso tinha muito aluno com 40, 50 anos, muitos ligados à igreja evangélica. Tinha cabeleireira, empregada doméstica, que entraram na faculdade por meio do Prouni. Então não senti dificuldade em me conectar com os alunos. A maioria dos meus amigos nas redes sociais são ex-alunos”, declara a professora, reforçando que muitos estudantes procuram o curso de serviço social para transformar a realidade de suas comunidades.

“Minha profissão está desvalorizada porque o Estado acha que somos inimigos. Com esse governo que temos, muitos estão desistindo da profissão e a gente ouve dos recém-formados que se arrependeram de ter escolhido serviço social”, lamenta Regina, para quem o trabalho para o assistente social hoje está nas ongs (organizações não-governamentais) e nas políticas públicas.

“O serviço social trouxe muita coisa para a minha vida. Por causa dele desconstrui muitos preconceitos que eram estruturais e que eu trazia da minha formação de serviço social, que também foi preconceituosa. Quando me formei, o serviço social defendia que o problema da fome, por exemplo, era da pessoa e não do Estado, quando, hoje, a gente reconhece que quem está sendo negligente é o Estado.”

“O serviço social que eu estudei culpava o homem mas podemos mudar isso com uma abordagem baseada na observação da realidade e na autonomia do indivíduo para escolher o que é melhor para ele, a partir da ação social e das políticas públicas.”

Fruto de uma realidade que tinha a mãe como chefe de família, que se separou do marido aos 40 anos e mudou do interior para a capital com as filhas em busca de uma vida melhor, que permaneceu solteira para não comprometer a criação das meninas e ainda enfrentando o preconceito da sociedade da época, Regina sente-se realizada como mulher, a partir do exemplo materno. “Nunca mais tive contato com meu pai e foi do jeito que foi e tudo bem. Minha mãe sempre foi muito forte e decidida”, confessa a assistente social e professora, que na adolescência se divertia indo ao cinema e aos bailinhos de garagem, “sempre com horário para voltar para casa”, brinca.

Hoje, aos 61 anos, atuando apenas no hospital pela manhã, ela é grata pelas oportunidades que recebeu de se ressignificar como profissional, mesmo que tardiamente, e tem o sonho de comprar um apartamento na praia para viver com tranquilidade.

“Gosto de viajar, passear, mas ainda não me vejo parando de trabalhar porque com certeza o serviço social transforma realidades. Me sinto realizada na profissão, além do que eu imaginava. E dar aula foi uma superação. Eu sinto orgulho da pessoa que me tornei, mas sei que ainda estou mudando, me libertando de todos os preconceitos que trouxe comigo no decorrer da vida. Tento combatê-los todo dia, no trabalho e em casa, mas ainda tenho muito para fazer.”

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