‘Uma árvore tropical debaixo de um metro de neve’

Com seu ‘Mundo Sonoro’, a jornalista Janaína Ávila traz ao mundo o que sabe fazer de melhor: espalhar amor por meio da música

Por Mariana Guerin, jornalista e confeiteira em Londrina. Adoça a vida com quitutes e palavras

Sabe aquela amiga da amiga que fica sua amiga e você não sabe como nem quando se tornaram amigas mas têm a sensação de se conhecerem a vida inteira? Com a jornalista Janaína Liborio de Ávila, 44 anos, é assim. Ela abre um sorrisão quando te vê e te abraça forte, te fazendo sentir a pessoa mais especial do mundo naquele momento.E você sente um quentinho no coração que deixa seu dia mais feliz. “Sou meio passional por dentro”, se auto-define.

Além de distribuir carinho em forma de abraço ou postando fotos do céu de Londrina,  das plantinhas que embelezam seu apartamento na Avenida Paraná ou das peripécias da cachorrinha Odara, Janaína aproxima diferentes pessoas e culturas por meio da música. Ela apresenta toda sexta-feira, às três da tarde, o programa Mundo Sonoro, na Rádio UEL, desde os anos 2000 e este ano foi convidada a participar do Transglobal World Music Chart.

“São quase 60 críticos de mais de 30 países, todos com algum programa sobre música do mundo. Todos os meses, produzem uma lista com os melhores discos e qualquer artista, gravadora ou produtor pode participar. Nossa missão é votar para produzir essa lista”, explica. 

Janaína no estúdio de seu Mundo Sonoro. Fotos: Arquivo Pessoal

“Acredito que para a UEL FM é uma vitrine e tanto. Nós sabemos o quanto a programação da rádio é especial e agora, com a tecnologia, isso está acessível para o mundo todo. Uma emissora educativa, do interior do Paraná, com uma projeção bacana. Para mim, um reconhecimento de um trabalho árduo, solitário e voluntário.”

Segundo Janaína, hoje ela vive muito mais de arte do que qualquer outra coisa. “Ainda mais com a pandemia, sem a arte e a beleza eu não sou ninguém e a busco em tudo o que vejo, ouço, escrevo. Viver é uma arte, sendo bem clichê”, brinca a jornalista, que decidiu se dedicar à produção de um programa musical de forma voluntária por pura paixão. 

“Meu pai é geógrafo, sempre gostou muito da Geografia Humana então, na nossa casa, falar sobre viagens, outros povos, culturas e religiões nunca foi tabu. Ele também ouvia música de outros lugares do mundo, sempre música romântica, que é o estilo dele, em espanhol, italiano, francês, inglês. No final dos anos 90, eu e uma amiga começamos a fazer umas festas de música latina e foi através dela que eu comecei a conhecer mais pop e rock latino, até então eu era mais clássica, ficava nos boleros e outros ritmos mais tradicionais. Pesquisando para essas festas, um embrião do que seriam as Noites Latinas na Casinha do Valentino, comecei a descobrir discos e música de outros lugares e quando me dei por conta, estava com uma mini discoteca com muita música diferentona, a tal da world music”, recorda.

“O Mundo Sonoro existe desde 2000 ou 2001. No começo, fazia a pesquisa com um Almanaque Abril e a internet discada. Hoje, é muito mais simples, tecnicamente. É muita pesquisa e como qualquer pesquisa hoje, te leva para navegar por vários lugares. Hoje também tem muita informação sobre música do mundo, tenho a sensação que o mercado se organizou melhor. Meu feed é cheio de notícias de sites especializados, então tudo flui. O Mundo Sonoro segue, principalmente, o meu gosto pessoal. As músicas que estão no programa tocam em casa. Sou eu em cada faixa.”

“O Jersey (Gogel, apresentador do programa Trem das Onze na Rádio UEL) uma vez definiu que o que eu faço no Mundo Sonoro, segundo ele, é uma curadoria. E é isso mesmo! A música tá na rede, para quem quiser. Não tem mistério, tá tudo disponível”, completa Janaína.

E o jornalismo ajuda na busca por referências. “Já fiz programas a partir de notícias, como aquelas ligadas aos refugiados ou a conflitos, guerras e até coisas mais lights como os países mais felizes do mundo ou os passaportes mais poderosos. Jornalista tem um pouco disso, de estar ‘ligado’ e com mania de contextualizar.”

A história do programa se confunde com a das discotecagens, que fizeram muitas noites memoráveis em Londrina, seja no Bar Valentino, com as quartas de Noite Latina, ou os sábados de bailinhos oitentistas na antiga A Toca.  “As discotecagens também são um pouco como o Mundo Sonoro, é meu gosto pessoal para a música. E vai do momento, do clima da noite, das pessoas que estão ali, a discotecagem é retroalimentada. Já aconteceu de discotecar para um público nada a ver e foi horrível.”

E ela escolhe as playlists de forma intuitiva. “Vai do que sinto e de como me sinto no momento, naquele lugar, com aquelas pessoas.” A busca pelas novidades está atrelada ao jornalismo: “’O novo sempre vem’, é estimulante, desafiador, tira a gente da zona de conforto. Se eu não for buscar a novidade, ela vem atrás de mim e é melhor não estar completamente despreparada. No gosto muito de ser surpreendida. E criar festas para animar o pessoal de Londrina? Pode ser porque gosto dessas janelas no cotidiano para a gente respirar outros ares, dançar outras músicas, colocar para fora fantasias, desejos, vontade de que as coisas sejam diferentes de como se apresentam na realidade”, diz.

Nascida em Campo Mourão, Janaína é a mais velha de três irmãos. Da irmã, ganhou a sobrinha, já adolescente. Do irmão, ganhou o sobrinho de quase três anos. A família é sua inspiração e de onde vem sua força. “Saí de casa para estudar muito cedo. Com 15 anos de idade já morava sozinha em Londrina, mas a minha família sempre esteve muito presente na minha vida. A relação com meus pais, principalmente, é muito importante para mim e me dá um norte em tudo o que faço”, resume.

Essa cumplicidade toda garantiu uma infância muita boa apesar das responsabilidades. “Meus pais trabalhavam muito, ficávamos muito tempo sozinhos em casa e eu, muito nova, já tinha claro o senso de responsabilidade, sempre tive que cuidar dos meus irmãos e sempre fiz com muito amor”, conta a jornalista, reforçando que quanto mais responsável ela era, mais liberdade ganhava dos pais. “Isso é lindo, essa sensação que poucos têm de poder ser ou fazer o que quiser na vida. Estou falando de uma sensação, a realidade pode não ser assim. Lembro que ganhei uma Mobylette e era a única menina a sair e andar de Moblylette com os meninos, era uma turma grande. Sempre gostei de ocupar espaços e de desfrutar o meu direito de estar ali.”

Janaína mudou para Londrina no começo de 1991, para cursar o segundo ano do Ensino Médio e depois, prestar vestibular para medicina. “Essa era a ideia original. Meu pai cresceu em Londrina e aqui moravam meus avós e outros tios e primos, Londrina sempre fez parte da minha vida; o suporte familiar era perfeito e Londrina era a cidade mais próxima de Campo Mourão, era uma escolha lógica.”

“Um dia, eu e meu pai saímos para visitar os colégios aqui, era só por curiosidade, mas voltei matriculada no Colégio Delta, que nem existe mais. Minha mãe não gostou nada mas já estava decidido. Eu e meu pai  – que dupla! – decidimos. Mudei e os primeiros seis meses foram morando com um primo na Vila Recreio. Depois, mudei para o apartamento que moro até hoje. Morei sozinha por um tempo e depois passei a dividi-lo com outras pessoas, era uma república. Anos depois, meus irmãos também vieram para cá, era uma casa cheia de gente para o desespero do condomínio. Outros tempos, hoje isso já seria impossível”, descreve.

A escolha pelo jornalismo veio no terceiro colegial. “Eu comecei a me encantar com a área de humanas. Nem pensava em fazer biológicas mais, era humanas. Quando comuniquei a mudança de planos para a família, foi um choque. Meu pai queria que eu fizesse direito mas o jornalismo já tinha tomado conta de mim, bati o pé, enfrentei a fera e voilà, formada em Jornalismo pela UEL (Universidade Estadual de Londrina).”

Nunca tive pretensões com o jornalismo, embora sempre tenha buscado ser muito boa nisso. Mas fiquei nisso, fiz uma especialização em bioética mas sem o diploma porque não entreguei a tese, desanimei no final do curso. E línguas, sempre gostei e estudei”, comenta Janaína, que hoje se sente um tanto desolada com a profissão que tanto ama.

“Não ouso sonhar. Voltar a trabalhar como jornalista virou um sonho que a cada dia me parece mais complicado de se tornar real. O jornalismo me trouxe muitos amigos, conheci pessoas maravilhosas, tenho um carinho gigante por entrevistados que nunca mais nem vi. O jornalismo me levou a dirigir em Interlagos e eu nem carteira de habilitação tenho! Eu amo minha profissão e hoje, com tantos ataques à classe, percebo como esse amor é importante. Me despi do glamour há muito tempo e agora guardo, com muito carinho, as alegrias que o jornalismo me trouxe”, confessa. 

E nas horinhas de descuido, Jana é feliz produzindo o Mundo Sonoro. A notícia da participação no Transglobal World Music Chart foi recebida com imensa alegria. “Ela veio depois de quase três meses de programa parado por causa da pandemia, ele era ao vivo, no estúdio da UEL FM. Eu acompanho a Transglobal faz um tempo já e sempre me inspiro nas listas deles para conhecer artistas e até levar para o programa. Foi quando fiz um programa inspirado numa lista que veio o convite, acho que eles já deviam estar acompanhando há um tempo porque eu sempre marcava a Transglobal nos post das redes sociais. Foi muito emocionante. Porque é um trabalho bem solitário, é muito raro um feedback do ouvinte, eu simplesmente lanço o Mundo Sonoro no universo sem saber para onde ele vai”, conta.

De volta ao Brasil desde abril do ano passado depois de 13 anos vivendo na Itália, Janaína lembra do período em que morou nas montanhas do Vale da Aosta em flashes. “Estava anestesiada para suportar uma mudança assim na vida, eu subestimei tudo. Achei que ia pegar a vida que tinha e só reproduzi-la em outro continente. Ledo engano.”

A experiência a modificou completamente. “Sou outra pessoa, no caminho perdi muito a graça, o contato comigo mesma, com o que sou e de como eu quero ser vista. Foi traumático. Em 13 anos, não consegui me sentir parte daquele lugar, daquele país, por muito motivos. Tive que abrir mão do jornalismo e claro, descobri outras profissões mas tudo no piloto automático. Fazia muito bem feito mas a paixão não durava muito, era sempre começar do zero, a cada temporada. Não criei raízes então era uma árvore tropical debaixo de um metro de neve.

Depois de tudo o que viveu na terra da bota, ela não sente mais vontade de morar fora do país, mas adoraria umas longas férias na França: “Eu preciso me sentir parte de alguma coisa para ter energia. Eu preciso do afeto, da amizade, de me ver espelhada nos outros – mesmo que estranhos – para existir”.

Em Londrina, Jana vive um dia de cada vez. Faz freelas de jornalismo e se imaginava começando novos trabalhos, mas daí veio a pandemia. “Estou envolvida num projeto de um Festival de Artes, o CICLO. Estamos em fase de captação e já trabalhando muito para traçar ações”, cita. Ela assume que uma de suas principais dificuldades está em não deixar o ego tomar conta. “Preciso curar minhas feridas, me perdoar. Eu fiz o melhor que pude.”

“A pandemia me obriga a viver só com o que tenho dentro de casa, dentro de mim. Estou me esforçando para conviver, cada vez menos, com a raiva, a frustração, com o medo, com a decepção. Tenho todo o tempo do mundo para identificar esses sentimentos e sair à caça deles, expulsar de dentro de mim. A música ajuda a abstrair, o jornalismo me arrasta para a realidade. Assim é essa pandemia: uma guerra de opostos, oscilações de humor, divisões e distanciamentos”, ensina Jana. 

Além da escrita e da música, ela curte navegar pela internet, jogar The Sims, ler e bater papo com o pai ao telefone. Também é fã incondicional de novelas. “Parece que desligo o cérebro.” Quando quer ouvir algo para descansar mesmo, vai de música brasileira. “Meu grande amor é o Caetano. Ouço muito! Acabei de comprar vários livros de autoras negras: Maya Angelou, Conceição Evaristo e Carolina Maria de Jesus, pretendo fazer uma full immersion, vamos ver se aguento a dor.” 

Tenho certeza que depois de tamanha coragem para viver tantas aventuras quanto possíveis – e conseguir transplantar a árvore tropical para longe da neve – essa amiga “meio passional por dentro” vai tirar de letra o que pedir o refrão da próxima canção que escolher ouvir.

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