As muitas faces da população de rua

Em ato do MNPR em Londrina, pessoas em situação de rua mostram seus talentos, suas tristezas, desafios e necessidades

Cecília França

Ao microfone, Marciano fala: “Nós não temos oportunidade. Se tirar nós da Concha, nós vamos pra rodoviária; se tirar da rodoviária, nós vamos pra outro lugar. Não é desrespeito a autoridade, não é desrespeito a ninguém. A gente merece oportunidade, vamos lutar até o fim”. Roberson completa: “Faz uma casa popular por menos de 100 reais, eu pago. Eu sou morador de rua porque eu não tenho casa pra morar”.

Em alto e bom som Andrezza reivindica melhorias para as mulheres: “A gente tá entrando seis e meia da tarde (nos abrigos), saindo, seis, sete horas da manhã, pode estar chovendo ou sol. Pros homens tem integral, tem atividade dos abrigos, a gente tem que ficar na rua”. Emileide solta a voz com o hino gospel “Recomeçar”: “Preciso da tua mão, vem me levantar/ Faz-me teu servo Senhor, me livra do mal/ Quero sentir o teu sangue curar-me/ Agora, meu Senhor, vem restaurar-me“.

“DJ” entoa para a plateia uma música escrita por ele mesmo para sua mãe: “Amor, só de mãe/ O resto é puro ódio/ Só o tempo irá dizer“. Coral e palmas o acompanham. Este foi o clima no ato pelo Dia Nacional de Luta da População de Rua, realizado em Londrina no último sábado (29). Protestos, pedidos, louvores, música, dança. Participei como apoiadora, no transporte e distribuição das marmitas, que encerraram a manifestação.

Cerca de 60 moradores de rua estiveram presentes. Alguns mais próximos e entusiasmados, outros mais distantes. Um dos coordenadores do Movimento Nacional da População de Rua (MNPR) em Londrina, Leonardo Aparecido Gomes, aproveitou a ocasião para falar sobre as pautas do movimento e mobilizar as pessoas para reuniões vindouras.

Quem se aproxima desta população vê que ali não cabem generalizações. Como em qualquer outro grupo social, cada um tem sua história, seus desafios, seus erros. Em comum, o que os une: a vontade de voltar a viver com dignidade.

Um senhor se aproxima e diz temer não conseguir pagar pela casa que alugou há pouco tempo, após três meses no isolamento para idosos criado durante a pandemia. Ele utiliza o Auxílio Emergencial para custear a moradia e está temeroso com a iminente redução do valor do benefício. Um rapaz de 22 anos vive a mesma situação. Após sete meses na rua ele alugou uma pequena casa custeada com o auxílio e com bicos de entregador, que ele faz quando consegue a moto de um amigo emprestada.

Pergunto a ele porquê alguém acaba indo viver na rua. Ele responde que, muitas vezes, tem a ver com o uso de drogas, não tolerado pela família. Questiono se esta foi sua situação. “Não”. E me conta detalhes de sua vida conturbada na casa da mãe, de onde acabou saindo após defendê-la de uma situação de violência doméstica que esta optou por não denunciar. Em meio à conversa ele ajuda a retirar as marmitas do carro.

Uma a uma as refeições vão deixando as caixas e alimentando os presentes. Entre uma garfada e outra, Emileide me conta, às gargalhadas, que circula na internet um vídeo dela dançando funk em um semáforo da cidade. Rio e elogio sua voz e afinação, apreciadas momentos antes quando ela cantou “Recomeçar”. “Esse é o hino da minha vida”, diz.

Recomeçar, este é o desejo de Emileide. E, sem sombra de dúvidas, da maioria das pessoas que vivem na rua.

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